O cubano de Orlando

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Mais tarde, naquele dia de junho de 1983, eu pegaria um voo para São Paulo e, com duas amigas da faculdade, partiríamos direto para uma aventura inacreditável.

A OMS havia escolhido Cuba para sediar a Conferência Internacional de Saúde para Todos no ano 2000, como parte de sua agenda global desde 1991. Eu havia obtido por concurso minha vaga de docente na UFMG em 1982 e, portanto, gozava o direito de minhas primeiras férias. Eu era uma garota de 23 anos, curiosa e aberta e decidi embarcar naquela viagem, que me reservava acontecimentos de tirar o fôlego.

Eu não me lembro como fiz minha inscrição para este evento, uma vez que o Brasil não mantinha relações diplomáticas com Cuba. Justamente isto foi o que mais deu caráter à minha viagem. Nós teríamos que ter um plano para entrar em Cuba e ele tinha que ser sigiloso e secreto!

O plano foi traçado de forma divertida e sem maiores preocupações. Parecia perfeito, se não fosse o fato de eu ter dormido demais e minha amiga gastado mais do que devia seu espanhol. Você vai logo entender…

O plano: sair do Rio para Miami. Passar alguns dias na Disney (imaginem que desafio, afinal, éramos contra os EUA!) como ditosas turistas latino-americanas na Flórida. De lá, pegar um voo para o México e ficar hospedadas em um caro e requintado hotel no centro histórico da Cidade do México. Finalmente, de lá, fretar um voo para Havana. Soava como um filme de espionagem e o sentimento era esse também, só que milhares de vezes mais simples…!

Chegamos em Miami como planejado. Sem falar uma palavra de inglês, saímos do aeroporto e pegamos um ônibus até Orlando. Eu estava exausta, não por conta do voo, claro, mas por tudo que passara naquelas últimas semanas para poder estar ali. Logo que entrei no ônibus, me recolhi num assento confortável e dormi. E minhas amigas? Bem, uma delas fechou os olhos e sonhou com Cuba, imagino, sonhou acordada, evidentemente. Ela era militante do PC do B e aproveitava o Congresso da Organização Mundial da Saúde para conhecer o partido do Fidel, o Jornal “Granma” e fazer contatos. A outra, uma bonachona garota, parte punk parte hippie, queria apenas conhecer a Cuba do Fidel, já que ele era um herói para nós todos da época. Justamente ela falava um excelente espanhol e resolveu praticá-lo logo na primeira oportunidade.

Ao seu lado no ônibus viajava um cubano que vivia em Orlando, olha que sorte para treinar seu espanhol! Ah, não deu outra, com um sorriso largo, sua boca se abriu e não fechou enquanto ela não contou a esta pessoa todo nosso plano! Doce inocência. Na primeira parada do ônibus, o cara ligou para a polícia e passou todo o nosso sigiloso roteiro dizendo que éramos comunistas brasileiras… Isso foi o tempero que faltava, garanto a vocês. Quando o  ônibus parou em Orlando, da janela vi dois policias em pé a espera que a porta se abrisse. Não achei nada suspeito. Ao descermos, eles nos abordaram e pediram nosso passaporte; tomaram algumas notas e nos entregaram sem maiores problemas. Até aí só pensei que era uma rotina de checagem, afinal no Brasil isso era muito comum naqueles dias. Mas, não era nada rotineiro e ali mesmo tudo foi passado diretamente para a Polícia Militar do Brasil. Brasileiras comunistas indo para Cuba!

Por ignorar tudo que estava acontecendo, nossa viagem transcorreu como planejada, e preciso dizer que aproveitamos cada minuto em todos os lugares que fomos. Adoramos a Flórida e o México foi maravilhoso.

Cuba foi uma experiência que eu jamais esquecerei. Um misto de admiração e decepção. As pessoas eram tristes e belas. A vida era dura para a maioria delas e parecia que a promessa de paraíso ainda não havia se tornado uma realidade.

Ao final do Congresso da OMS, Fidel convidou a todos participantes para um jantar no Palácio de la Revolucion. Nós ficamos em êxtase, imagine encontrar o próprio Fidel ao vivo! Era demais. Ao chegarmos junto com ministros de Estados Europeus e muitas outras autoridades da saúde, fomos levados para um salão belo, amplo e iluminado. As portas se abriam para jardins cheios de palmeiras e, de uma porta ainda fechada, diziam, em breve chegaria o Comandante. Todos eram mais velhos, com exceção de nós três brasileiras. As autoridades foram se alinhando e nos deixando ficar ao fundo, do outro lado de uma longa e farta mesa. Não adiantava reclamar, nós nem ousaríamos. Ficamos ali esperando ver a figura carismática do Fidel de longe. Mas a sorte estava do nosso lado naquela noite.

Ele entrou,  deu uma olhada radial, virou-se para a linha de senhores e senhoras que o esperavam com certa agitação, depois deu uma olhada para nós três do outro lado da mesa, e mudou seu rumo, caminhando em nossa direção em vez de cumprimentar as autoridades. Foi indescritível. A gente se olhou rapidamente e uma das meninas apertou tanto minha mão que achei que teria quebrado meu mindinho! Ele parou bem na nossa frente, com um sorriso matreiro e, interessado, olhou nosso crachá e viu escrito “Brasil”. Ele então nos abraçou e perguntou quem éramos. Foi uma conversa rápida e eterna. Ao final, quebrou o protocolo e nos deu um abraço nas três ao mesmo tempo e seguiu adiante. Nós ficamos com vontade de gritar, mas nos comportamos.

Nossa volta foi exatamente como planejada, via Panamá até o Rio, onde eu desceria e as outras duas seguiriam no mesmo voo para São Paulo, onde pegariam outro voo para Uberlândia.

Eu saí normalmente da aeronave e caminhava para o controle de entrada de brasileiros quando vi sete homens fortes e sisudos – um colete os identificava – polícia, vindo em linha reta em minha direção. Eles nem me deixaram chegar próximo do guichê, já me pegaram pelo braço e me levaram para uma sala escondida no Galeão. Lá dentro algumas pessoas haviam sido detidas, uma delas a mulher do Brizola, todos vindos de Cuba. Eu não entendia por que estava ali. Aquilo era uma prisão? Era sim, alguém me disse. Você será interrogada e, depois, sabe Deus o que vai acontecer a nós todos.

E foi assim mesmo. Primeiro, eu entrei numa sala onde homens brutos e violentos pegaram tudo que me pertencia, abriram minha mala, velaram todos meus filmes, rasgaram meus registros de viagem, puseram fogo no meu diário e no convite de jantar de Fidel, que aliás eles riram e debocharam antes de queimar. Depois, puxaram uma ficha de um arquivo e disseram algo assim “você é uma dessas meninas da classe média que perdem seu tempo e gastam o dinheiro do pai viajando para visitar comunistas filhos da puta… Ah, foi arruaceira na universidade, e é neta de comunista.  ‘Cê ‘tá lascada, menina. Agora você vai aprender a não manchar a honra deste pais com vagabundices e imundices comunistas. Você vai se arrepender de ter feito o que fez”.

Eu só pensava na minha amiga do PC do B. Ela desceria em São Paulo e seria certamente pega com material do partido comunista de Cuba. Eles iam acabar com ela. Meu peito doeu só de pensar no que aconteceria a ela. Naquele momento, eu estava atordoada demais para pensar como eles tinham descoberto tudo. Foi só mais tarde, já por trás das grades que tive tempo de esfriar a cabeça e encontrar a resposta – havia sido o cubano de Orlando!

Depois de alguns dias, eles me liberaram sem que tivessem me agredido muito. Eu estava tranquila e determinada a existir na minha realidade e integridade. Na prisão, você é provocada para ceder e negar a si própria, mas eu saí de lá completa.

Eu tive que suportar por mais dois anos, até a eleição indireta que elegeu Tancredo Neves em 1985, grampos no meu telefone, espionagem em minhas aulas na UFMG, perseguição nas ruas, de carro: uma vigilância 24 horas a uma garota que ousou visitar o Congresso da Organização Mundial de Saúde em Cuba.

Agora me relembro que na sala com os militares, um deles me olhou e seu olhar revelava, ao seu modo, uma ponta de compaixão. Acho que ele foi sincero ao dizer “filha, muda de vida. Vai viver como uma menina normal. Não seja rebelde, não se exponha. Vá se casar e ter filhos e esqueça essa coisa de democracia. Escreve aqui de próprio punho uma carta ao Comandante do Exercito e peça desculpas e diga que sua viagem foi um engano. Eu te ajudo a sair daqui sã e salva e tudo vai ficar bem”.

Eu chorei naquele momento. Mas eu não estava com medo de nada.

Eu não sabia por que, mas eu não tinha a menor vontade de me render.

Eu não sabia por que, mas eu não tinha a menor vontade de me negar.

Eu não sabia como, mas dentro de mim encontrei uma calma além da dor e do medo.

Eu não sabia de nada, mas de dentro de mim veio uma luminosidade e eu resolvi segui-la.

Essa é a luz da Alma. Eu só aprendi isso mais tarde quando me tornei professora de Kundalini Yoga. Mais tarde, quando me tornei uma Khalsa, uma Guerreira da Paz, eu entendi que meu destino naquele momento já me conduzia à minha soberania e liberdade. Seguindo minha alma, eu segui meu destino que me levou a viver uma vida entregue a servir a todos e não descansar enquanto não houvesse justiça para todos. Neste Dharma, eu me qualifiquei para tolerar e ser compassiva, mas lutar com todo fervor por quem não tem força para se erguer. Lutar para que no reino da Terra se erga, em nome do amor, a igualdade entre todos.

É, foi o cubano de Orlando que me entregou, mas eu devo a ele também tudo. Porque se eu não tivesse sido testada naquele momento, eu não saberia a fibra que já me pertencia por direito, com a qual meu destino havia sido escrito.

Wahe Guru, Sat Nam!

Belo Horizonte, 25 de junho de 2013.

Carta aberta: Manifestações, educação e respeito à diferença

“Ih, fudeu, Bin Laden não morreu”

por SIRI SAHIB SINGH KHALSA, 25 de Junho de 2013

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Ao participar da bela manifestação que reuniu mais de 120.000 pessoas nas ruas de Belo Horizonte no último sábado, várias vezes ouvi alguém gritando “Ei Bin Laden!”. Em certo momento, ao passar por um grupo, todos cantaram de maneira eufórica: “Ih, fudeu, Bin Laden não morreu”

Sou sikh, minhas barbas são longas e uso turbante.

Um sikh dá a sua vida se sacrificando pelos outros. Ser um sikh significa ter como pressuposto a humildade para estar sempre aprendendo e ter como valores a luta por paz, justiça social e o bem estar de todos. Um sikh vive para servir e faz isso.

O turbante e a barba são algumas das ferramentas que um sikh tem para se manter firme em seu propósito e poder ser reconhecido onde ele estiver como uma instância de paz, amor, ajuda e serviço.

Um sikh não luta por si, mas pelo direito de os outros existirem na sua liberdade, autonomia e soberania. Como um amigo, também sikh, escreveu em seu cartaz na manifestação: “a minha vitória é a vitória de todos”.

Tudo muito diferente de um terrorista.

Esse tipo de atitude parece ser fruto de décadas de abandono da nossa educação, que não educa para a diversidade, que não educa para a diferença, que não ensina o respeito, que não ensina a riqueza que existe na pluralidade, e que não instrui o acesso à informação para que as pessoas saibam quem é quem e por que são dessa forma.

Uma educação que não ensina valores básicos de altruísmo e respeito.

Enquanto sociedade, ainda nos comportamos como os militares da ditadura que atiram antes de perguntar. Ao invés de procurar entender e conversar, como muitos fazem, alguns preferem o escárnio e a diversão barata.

Ao se comportar dessa forma, quem está querendo ser parte da solução se revela também parte do problema.

O que escrevo de longe é uma defesa do meu estilo de vida. Um sikh se treina para manter sua mente em paz diante das adversidades e servir nas condições mais desafiadoras. Quando sou difamado nas ruas penso sempre em todos aqueles que por algum motivo resolveram ser diferentes e não são respeitados por isso.

Que possamos seguir juntos por uma sociedade em paz, justa, que respeite as diferenças e proteja aqueles que não tem condições de se defenderem.

As ruas ocupadas

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Ocupamos mais uma vez as ruas do país. Uma sensação maravilhosa e, depois de muito tempo, um orgulho de ser brasileira.

As demonstrações destes últimos dias podem parecer semelhante ao que aconteceu em 1984, vocês se lembram? Praça da Sé, São Paulo, multidão se manifestando pela democracia. Naquele ano, a liderança do movimento estava nas mãos de um grupo de peso: Franco Montoro, Fernando Henrique, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Teotônio Vilela, Suplicy, Brizola, Lula, Miguel Arraes, artistas, jogadores de futebol e religiosos. Parecia que tínhamos nosso destino nas mãos, depois de décadas de tempo perdido nas masmorras fétidas dos militares e torturadores. Em 21 de agosto de 1992, apoiados pelo PT e pela Ordem dos Advogados do Brasil, 40 mil estudantes cariocas vão às ruas, e, no dia 25, já era o Brasil inteiro em marcha, eramos os “cara pintadas” exigindo o impeachment do Presidente Collor.

Vinte e um anos depois, as ruas do Brasil se enchem novamente de jovens. Eles protestam contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo e são violentados pela força descabida de uma polícia que ainda guarda valores e táticas do período militar. A arrogância das lideranças políticas – como a do prefeito de São Paulo ao afirmar à imprensa que “o aumento da tarifa vai acontecer de qualquer maneira” – gerou uma reação em cadeia, e a população do país se levantou e se juntou aos jovens.

Muitas coisas aconteceram nestes 21 anos e a natureza das manifestações de 2013 é completamente diferente de todas as que ficaram no nosso passado histórico.

O movimento de agora não quer apoio de partidos políticos ou não quer bandeiras. Sem sindicato, sem gente famosa em palanques. Não. Quem está nas ruas são realmente aqueles que fazem o Brasil cotidianamente. São as pessoas anônimas, aquelas que acordam e vão para o trabalho ou para a escola, fazem suas compras, pagam seus impostos sem receber nada de direito em troca, andam amontoadas e espremidas em trens, metros e ônibus pagando sempre o que se pede, muito além do que recebem pelo seu transporte. Ruas esburacadas percorridas em carrinhos chinfrins e caros, cidades imundas, feias com seus depósitos a céu aberto, ambientes descuidados. São pessoas tomadas por assaltos, ladrões, marginais. Elas estão nas filas do SUS esperando um atendimento em postos de saúde sem médicos, enfermeiras, medicamentos ou aparelhos. Elas agradecem quando são atendidas nos corredores, como se aquilo fosse uma benção, já que significa um consolo diante da eminência de perder o que ainda lhes resta: a vida. Velhos e pobres caminhando atrás de suas aposentadorias, parcas quantias, e, mesmo assim, muitas vezes são roubados por outros miseráveis que perderam a humanidade e o senso comum. São pessoas que estudam em escolas precárias, com professores recebendo salários de boia-fria. São essas pessoas que vão para casa quando podem e ligam a TV para assistir, nos noticiários, todos os dias, o mesmo enredo: políticos interesseiros e corruptos, partidos oportunistas, governo condescendente, injustiça, crime e vandalismo.

O aumento da tarifa do ônibus em São Paulo foi o pus que jorrou para fora, sob a pressão interna de uma infecção extrema. O país está doente. A política e os políticos não representam ninguém porque passaram estas últimas décadas preocupados em criar leis e esquemas que os servissem, espoliando os recursos do país e da população. Estes políticos, uma verdadeira barbárie, ignorantes, arrogantes, mentirosos e sem caráter, conduzindo o metabolismo legislativo sem nenhuma consideração ou ética.

Agora não dá mais! Este movimento é diferente. Ele é genuíno em todos os sentidos. Eu lamento que intelectuais fiquem dizendo por aí que falta ao movimento uma liderança e uma pauta. Não, por favor, não falta liderança ao movimento. A liderança é nova, a pauta é tudo. São novos tempos e os políticos não se credenciaram para se juntar a todos. Não se trata de pessoas, de identidades, de idolatria. É uma nova consciência que se reúne além de ideologias, além de classe social e, sobretudo, além de interesses particulares. Esta consciência diz alto: “CHEGA!” Chega de manobras. Essa consciência quer para o país o que lhe é de direito. Um pais é feito de indivíduos, destes indivíduos, e eles querem o que lhes é negado, injustamente.

As roupas velhas não veste bem este novo movimento. Ele nasceu original e nu. Ele está pronto para criar suas próprias vestimentas na medida em que elas se fazem necessárias.

A beleza deste momento é que ele carrega o potencial de curar o Brasil.

Todos nós queremos um país sério, próspero, justo e razoável. Queremos pagar impostos e receber a contrapartida. Queremos transporte digno, podemos pagar por isso! Queremos saúde e educação. Queremos justiça nas cidades e no campo. Queremos investimentos sérios de infraestrutura e não só estádios de futebol.

Se o Brasil pôde alcançar essa excelência no futebol que tanto nos orgulha, por que não podemos nos orgulhar de termos alcançado uma cidadania da excelência?

Vamos às ruas como guerreiros da paz. Uma paz que nos é tão preciosa, pela qual possamos morrer. Somos aqueles que carregam, nos passos, na voz, na mente, uma causa justa e ela tem todos os nomes que todos quisermos dar. Mas ela poderia se resumir simplesmente numa única palavra: RESPEITO!

 

Belo Horizonte, 19 de junho de 2013.

 

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