O subconsciente

por Gurusangat Kaur Khalsa

Aluno: O que significa subconsciente?

Gurusangat: O termo subconsciente já foi muito mais utilizado na psicologia do que se imagina. Ele foi introduzido pelo psiquiatra Pierre Janet e indicava os conteúdos presentes na mente, fora do alcance da consciência. Ele chegou, inclusive, a propor que os elementos presentes no subconsciente poderiam estar na origem da neurose. Freud também usou o termo, mas o abandonou rapidamente, substituindo-o por “inconsciente”.

Aluno: Essa seria a mesma interpretação dada pelo Kundalini Yoga?

Gurusangat: O Kundalini Yoga tem uma abordagem muito requintada sobre a mente. A mente é um sistema de processamento de todo o tipo de estímulo interno e externo, com uma comunicação direta com o sistema nervoso e hormonal. Ela é também um recurso de deslocamento no tempo e espaço mais rápido do que a própria luz, por esta razão, muito útil para dar vazão à criatividade e dar sentido à existência humana.

A mente é constituída de setores, por assim dizer, e estes setores têm uma relação direta com a função que ela deve exercer no ambiente da psique humana, o que influenciará o corpo físico e emocional.

Trabalhamos com a existência de três mentes operacionais – as Mentes Negativa, Positiva e Neutra.  A primeira é um sistema de defesa psíquico, que reage a tudo que ameaça o individuo, fazendo-o buscar sempre proteção e segurança. A segunda é um sistema de busca de oportunidades, que reage sempre se movendo em direção à quimera de realização de forma impetuosa. A Mente Neutra recebe as informações das mentes Negativa e Positiva, avalia, discerne com base em propósitos amplos e com grande envergadura de escopo, geralmente ligados aos interesses da alma, e toma decisões. Se a pessoa fica polarizada entre as Mentes Negativas e Positivas, ela jamais terá condições de decidir com clareza. Todas as decisões tomadas sob a influência da Mente Negativa ou Positiva serão sempre limitadas e servirão apenas e exclusivamente às demandas do ego.

Aluno: Como saber se o interesse em questão é da alma ou do ego?

Gurusangat: Boa pergunta. Deixa eu dizer a você rapidamente, aliás, é uma excelente dica. Tudo aquilo que serve à alma dignifica você e o outro. Toda escolha que não traz dignidade a você são escolhas do ego. Tais escolhas trazem uma falsa experiência de conforto e segurança, de regra, imediatos. A longo prazo, entretanto, esse ganho se desmorona, resultando em dor e sofrimento. As decisões da alma são, às vezes, difíceis no início, mas com o tempo elas resultam em ganhos perenes e muito alívio.

Voltando ao tema do subconsciente então:

Tudo que é processado nas mentes polarizadas, Negativa ou Positiva, produzem um resíduo. Este resíduo tem forte apelo emocional e está basicamente ligado aos traumas e às dores profundas do nosso passado registrados em nossa psique. Essas impressões emitem sinais que causam a mente reagir de forma a proteger a pessoa. Esses sinais são de ordem emocional e ficam guardados na região do cérebro humano ligado ao processamento de emoções, chamado sistema límbico. Quando algo ameaçador surge, uma verdadeira operação de defesa entra em cena, e o ego domina o jogo buscando prazer, segurança e conforto imediatos. Assim, vamos criando um arsenal de recursos, intrigas, histórias que passamos a acreditar sinceramente para sobrevivermos. Chamamos isto de filtros. Eles filtram a realidade e nos passam uma imagem distorcida dela, e a partir da qual reagimos e agimos fundamentalmente guiados por uma apreensão míope.

Os filtros são nosso subconsciente. O subconsciente é o local em nossa psique onde todo o processamento emocional é guardado. Ele fica cheio de impurezas, que criam uma névoa que filtra a luz da realidade, fazendo com que enxerguemos aquilo que supomos estar acontecendo.

O subconsciente precisa ser limpo diariamente para que tenhamos mais clareza de visão, propósito e eficiência de ação. Ele é muito importante, pois na sua ausência, todo esse lixo cairia diretamente para a consciência. Sendo esse seu papel, muito parecido, aliás, com uma caixa de gordura da sua pia de cozinha, ele é fundamental para o ambiente de sua mente. Imagine o que acontece quando você não limpa sua caixa de gordura? O lixo volta!

No Kundalini Yoga, damos muita importância à limpeza do subconsciente e temos várias técnicas para isso. Uma das mais poderosas é o Tantra Yoga Branco, que promove uma profunda desobstrução destas impurezas.

Com o subconsciente mais limpo, quando processamos um evento, logo teremos a chance de ver através das névoas emocionais de nossos traumas e dores do passado. Poderemos conhecer melhor tais mecanismos e decidir não agir através de seus velhos impulsos. Quando fazemos isso, uma grande cura acontece. Aquele evento que tentou nos aprisionar perde força emocional sobre nós, e é arquivado para fora do Sistema Límbico, numa região denominada Córtex Cerebral. O Córtex é a região de registro de informações sem seu conteúdo emocional. Lá só se arquivam os fatos!

Desta maneira teremos clara noção do fato, poderemos relata-lo, mas não estaremos mais presas ao seu impacto emocional.

No Kundalini Yoga, as duas áreas mais importantes a serem trabalhadas no ser humano é o subconsciente, claro limpando-o e, o Córtex Cerebral, estimulando-o. Isso proporciona que mais e mais registros possam ser desarquivados da região emocional e registrados no córtex. O resultado disto é uma maior liberdade para usar nosso potencial emocional para nos impulsionar em direção à nossa criatividade e excelência, em lugar de reagir permanentemente a traumas e dramas do passado. É uma forma de libertação nobre e segura.

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 08 de Agosto de 2013.

Ah! Essa Sadhana!

por Satyapal Kaur 
Primeiro o que me marcou muito foi a frase do Yogi Bhajan dizendo que Guru Ram Das é o professor de todas as Sadhanas!
Depois:
Que sensação excepcional este ritual diário que fizemos por 40 dias.
A sensação deliciosa de que você venceu mais aquele dia, que tudo dará certo, quando sai do banho frio ou da cama quentinha e começa a se arrumar.
O aprontar, com esmero, com cuidado, com respeito à tradição, aos ensinamentos, aos milhares de anos que estão contidos naquelas roupas e turbantes.
Aquele silêncio e o friozinho da madrugada (adoro), o susto com o clarão da lua cheia (lembram?).
A chegada na casa da Ranjeet!
É uma delícia se sentir única, uma pessoa, um indivíduo num processo e, ao encontrar as outras pessoas, você por segundos se confunde com elas, quase como um espelho, mas você sabe que não é espelho, que elas são únicas também. E então, você tem certeza de que a soma das partes é muito maior que o todo. Dá pra sentir isso na pele!
Aquele momento no relógio não dura 1-2 minutos mas, para mim, para todo meu ser, dura uma eternidade. É riquíssimo.
Daí encontramos com a Ranjeet. É muito especial.
A Ranjeet esperando no portão, tão elegante, tão linda, tão feliz, tão afetuosa e tão esperançosa de que “hoje virá mais personas”.
Ela representa nosso presente e nosso futuro e daí, ao encontrá-la, nosso coração, nossa alma, se acalmam ainda mais e reafirmamos, neste momento, que estamos no caminho certo e que somos muito privilegiadas.
O caminho até a casinha é em fila, em silêncio e vamos sendo presenteadas, todos os dias, com as pedras, musgos, flores, árvores, verde, verde, verde. Neste caminho nossa frequência vai mudando. Vamos deixando nossa casa, nossos caminhos externos, parte do nosso ego, nossas dualidades, neste caminhozinho tão rico e simbólico.
Ao chegarmos na casinha, já somos outros.
Os sapatos na porta! Por eles, sabemos quem veio, quem está atrasado, e se tem gente nova. Uma delícia ver e analisar os sapatos. Eles representam o finalzinho do que precisamos deixar ali, de fora.
Bom, e aí…. a gente entra! E naquele lugar mágico, lindo, cuidado, protegido de várias maneiras a gente repousa de todo movimento.
E com as bênçãos de todos os Gurus, a gente:
RECONHECE (cada dia um pouquinho mais), ENTREGA e CONFIA NOSSA ALMA.
 E AGRADECE!
Beijos
Satyapal
(texto escrito pela professora após 40 dias de Sadhana Aquariana realizada de 29 de abril a 7 de junho de 2013, em Brasília)

Os tolos e seguros

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Este final de semana nossas crianças partiram para a Índia, sozinhas!

Há um ano estávamos todos no aeroporto nos despedindo delas com o coração na mão, mas cheios de fé. Foi nossa fé que as motivaram e foi nossa fé que as entregam novamente ao desconhecido. Neste ano, três outras se juntaram aos primeiros quatro rapazes, e eles decidiram seguir por conta própria. Puro destemor!

A jornada destas crianças me fez pensar muito sobre os adultos que não tiveram uma chance como esta. Cada ser humano nasce com um contrato de alma e muitas vezes, se não na maioria, jogamos fora cada precioso momento de existência sem sequer esbarrar numa dúvida importante – para que serve minha vida?

Como momentos de crise são críticos e ninguém gosta de sofrer, organizamos uma maneira de escorregar por entre as ruelas de nossas dores e dúvidas, para aterrissar novamente num suposto território da “alegria de viver”. Não é raro ver pessoas envoltas em “muitas coisas” e ter nisto a dose necessária para se anestesiar contra as incisões impiedosas da lâmina de nossa própria consciência.

As crianças brasileiras que estão vivendo esta aventura na Índia estão em busca de realizar seus destinos. A Escola da Índia ou a nossa Escola aqui no Brasil não é, em hipóteses alguma, o destino delas, como alguns apressadamente podem pensar. O destino delas está escrito em cada uma de suas testas, e deve ser decifrado por elas e isso requer treino. A Escola Miri Piri é apenas o meio pelo qual esse trabalho pode ser feito. Seria tolice pensar que a Índia seria o destino. Não, é o meio.

São poucas as crianças que podem ter o privilégio de obter, ao alcance de suas mãos, o modelo de educação de Miri Piri como meio. Nesta Escola, as crianças são treinadas para se identificarem, se conhecerem e se projetarem sem medo de serem quem são. Elas são treinadas para não temerem suas dúvidas e, nem tampouco, se prenderem a elas. Meios lhes são dados para que elas alcancem uma profunda relação entre suas vidas e o mundo cheio de contradição e arestas que lhes acolheu. Estes meios lhes possibilitam viver de  forma responsável e criativa, sem medo do amanhã e também lhes servem para se libertarem do jogos de sedução na busca de segurança e aceitação. Estas crianças aprendem a se valorizar além do corpo. Elas aprendem a valorizar o corpo como meio de expressão da força de seu espírito. Elas aprendem que seus valores precisam ser vividos e colocados em prática para que haja paz e justiça no mundo. Mas isso não acontece se elas não aprenderem a olhar para o lado, radialmente, e reconhecerem o seu entorno e agirem nele. Elas aprendem a arte de estabelecer e usar seu espaço sagrado para se projetarem a partir dele de forma única, radiante e efetiva no mundo. Elas se tornam  serem humanos concretos, e não tolos e fúteis mamíferos em busca de conforto e segurança fácil. Pessoas medrosas que desperdiçam suas vidas buscando segurança em formas rotas de relacionamentos, os quais moldam identidades cindidas, preconceituosas, que projetam dúvida na liberdade do outro.

Nossas crianças atravessaram mares e terras distantes para se assentarem soberanas na propriedade do Guru Ram Das. Elas foram abençoadas com uma estrela na testa. Elas não serão poupadas do confronto, pois elas colecionam seus pequenos traumas, muitos deles herança da inconsistência de uma sociedade de adultos infantis, comocionais e frágeis. Mas, neste confronto reside a lição maior de suas vidas, e sabendo que elas estarão protegidas e cuidadas, me sinto aliviada. Elas estarão no amor e no valor de professores que sabem que têm nas mãos a vida do futuro. Elas estão amparadas, porque  terão em mãos os Ensinamentos de Mestres que reconhecem que o destino de cada ser humano é único e cada ser humano é soberanos para retraçá-lo e percorrê-lo.

O traço do destino é uma matéria do currículo de cada aula de Miri Piri. Vocês sabiam que o traço do destino está presente no exercício diário das crianças, fora e dentro da sala de aula? Sabe por que? Porque a vida fora da escola não escolhe lugar para testar seu conhecimento acerca de seu destino. Porque não existe outra escolha para quem quer ser feliz a não ser caminhar, com as próprias pernas, o caminho escolhido pela sua própria consciência.

O que será o futuro destas crianças? Não podemos dizer. Mas, seja lá o que for, precisamos garantir agora que elas tenham tudo que precisam para traça-lo. O mais importante é lhes garantir que aprendam a serem fortes e claras para distinguir o certo do errado, sábias para colocarem em prática aquilo que sua experiência lhes ensinou, e divinas para discernirem o caminho extraordinário do ordinário, e seguirem com suas vidas de forma a fazerem sentido para si.

Assim, elas poderão evitar cair na armadilha surrada do mundo dos adultos, que para se sentirem seguros precisaram abrir mão de sua originalidade e acabaram se tornando tolos. Os tolos e seguros. Quanto tempo ainda este mundo se sustenta nas mãos de adultos tolos e seguros?

Acho que nossas crianças estão nos mostrando muito bem o caminho para sair desta tolice e abraçar a segurança viva de serem elas mesmas, livres, soberanas e maduras.

 

Wahe Guru, Sat Nam.

 

 

Belo Horizonte, 19 de agosto de 2013.

 

Sexualidade e espiritualidade

por Guru Sangat Kaur Khalsa

“Espiritualidade não é apenas a porta para o templo;

mas é o aprender a viver dentro do templo” I Coríntios, 3:16-17

Yogi Bhajan define espiritualidade de uma forma simples e, ao mesmo tempo, inconvencional. De alguma maneira, sua mensagem contém a luz de uma verdade radical. Na minha experiência como professora, sua abordagem faz toda a diferença no compartilhar de seus Ensinamentos, uma vez que as pessoas são atraídas por aquilo que é natural e de fácil compreensão, o que não significa, de modo algum, algo fácil de se incorporar. Para isso, o importante é a educação que vem com a experiência.

O que seria de fato espiritualidade segundo seus Ensinamentos? Nada mais nada menos do que uma jornada inacreditável pelo território do nosso ser habitual, também chamado de ser oculto, em direção ao nosso ser real. Essa ideia se traduz de modo simples na seguinte fórmula: “eu em mim, para mim, dentro de mim, por mim”.

Para sermos capazes de conhecermos e experimentarmos nossa mais verdadeira e profunda identidade, uma jornada de aventuras precisa ser empreendida. Sair de um lugar convencionalmente reconhecido rumo ao cerne de nossa identidade verdadeira requer coragem e vontade. Esse lugar, essencialmente original, fica muito além de qualquer tipo de determinações, sejam elas biológicas, pessoais ou culturais, como gênero, por exemplo.

Nascemos em corpos femininos e masculinos. Quanto a isso, não há dúvida. E continuaremos a depender desta qualificação biológica, que regionaliza nossos territórios, porquanto perdurar o poder de nossos sexos em nos definir. Entretanto, com o tempo, tudo isso se desloca e nossa identidade sexual dá lugar a uma identidade muito mais universal em sua natureza.

Esse deslocamento acontece com o envelhecimento, no qual as diferenças entre homens e mulheres tendem a desvanecer, ou acontece quando buscamos conscientemente o território vasto de nossa identidade espiritual, a alma.

Não há nenhuma surpresa no fato de que a busca pelo amadurecimento espiritual requer a rendição da mente e do corpo ao domínio da alma, que, intrinsecamente, está além de determinações de gênero, já que é parte da Consciência Infinita. Em outras palavras, o preço pela viagem para dentro de si — feita por você, em seu território e tendo você como companhia — é a abertura para uma visão de si e do mundo muito vasta e despida de preconceitos.

Quando alcançamos nosso Ser Real, não mais precisamos reafirmar nossa identidade apenas com base em nossos gêneros. No espaço sagrado de nossa Verdadeira Identidade, não somos apenas nossa biologia, nem o que nossa mente nos fez crer que sejamos por sentir, desejar ou acreditar nas particularidades. Nós aceitamos tais particularidades e as entregamos no coração de nosso Ser Real, que, por ser parte da Grande Inteligência que governa cada uma das finitudes, as toma como parte integral de um todo, que agora se expressa pela vontade da nossa consciência.

Como Yogi Bhajan comumente dizia, você estará na sua Verdadeira Identidade quando não mais precisar das referências e cada vez se voltar para as reverências. Aqui, sua psique não mais precisa da orientação biológica, social e cultural. Ao contrário, você se torna um com a Jot (Luz Divina) e sua projeção vibra independentemente.

Neste ponto, você se encontra além, muito além das determinações sexuais e dos rótulos das condições finitas. O sexo ou sua sexualidade, ou mesmo sua educação, não mais definirão, de modo exclusivo, sua identidade.

Se Sat Nam (Realidade Verdadeira) torna-se um com Wahe Guru (caminho para luz) e se, desta unificação, Saibhang (iluminação) é adquirido, em termos práticos, gênero, cultura, sexualidade são apenas meios técnicos através dos quais damos a largada para tal jornada. No momento em que nos aproximamos do território da alma, cada vez mais eles se tornam secundários em nossas vidas. Caminhar para além das nossas habituações ou dos enquadramentos culturais é um bom começo para restaurar nosso direito de existir na Graça de Deus e na nossa Identidade Divina.

Ver o mundo através dos “olhos do Guru” nos força a aceitar homens e mulheres como puro sopro de Deus e, consequentemente, além de julgamentos morais. Gênero vai se desbotando na medida que nos afastamos da linha de largada e deixa de ser também uma vantagem ou desvantagem na nossa Maratona Divina na Terra.

Portanto, é correto dizer que gênero não é o visto de permanência nas terras de nossa espiritualidade. Ele é apenas o recurso preliminar necessário em direção daquele portal que nos permite entrar no reino soberano e livre de nossa consciência.

Nunca se ouviu de nenhum santo ou sábio que o gênero é o resultado de um plano divino para a encarnação humana, ou mesmo uma simples condição para a mesma. Gênero é apenas uma das muitas artes de Deus, moldada pela biologia e condicionada pelas emoções, que ajudam indivíduos a se moverem no mundo naqueles estágios inaugurais.

Nas terras de nossa espiritualidade, como dizia Yogi Bhajan, o individuo auto-iniciado pode ser conduzido pelas mãos do Guru (professor espiritual) apenas até à entrada; neste átrio somos nós que decidimos abrir ou não a porta. O teste da nossa espiritualidade requer que conquistemos aquele minúsculo hiato entre nosso ser habitual e nosso ser real, pois justo ali reside a liberdade de girar a maçaneta e entrar.

Sendo espiritualidade o resultado de uma jornada radical, em partir de sua periferia e aterrissar no seu núcleo Divino, homens e mulheres precisam superar o supérfluo e abraçar o campo de tensão disponível na união entre o Ser Real e o habitual. Neste encontro, vergonhas, inseguranças, culpas serão aceitas e realinhadas para que elas fomentem o espirito amoroso e compassivo da jornada.

A jornada deve ser sempre lembrada de uma maneira simples e pungente: Sua vida não é você. Você é sua vida!

Sat Nam Wahe Guru!

Belo Horizonte, 14 de agosto de 2013.

Eu ainda chego lá

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Nada poderia ser mais consolador do que ouvir uma pessoa sábia e experiente te dizer “a sabedoria é um processo, ela vem em estágios”. Ah, que maravilha saber que não se espera de nós um salto da ignorância e do torpor de uma mente habitual para uma mente sábia, desperta e livre!

A sabedoria é o resultado não só do amadurecimento físico. Em outras palavras, não adianta esperar o tempo passar e a velhice chegar para se tornar sábia. Se fosse assim, teríamos, naturalmente, uma cultura de indivíduos sábios e universais. Ao contrário disto, muitos envelhecem e cristalizam suas mentes e suas visões de mundo numa espécie de câmara neurótica, para onde se recolhem ao sentirem-se ameaçados e fragilizados. A maioria de nós envelhece carregando, até os últimos dias de nossas vidas, muito mais amargura e frustração do que se pode imaginar. Aprisionadas nesta cela, nossas vidas carecem de sentido e entusiasmo, porque nos sentimos compelidas a viver o passado, e certamente iremos encontrar a morte com olhos aterrorizados. As pessoas passam pela vida sem ter conhecido a importância de abraçar o desconhecido e, por isso, não podem compreender que nós somos a parte conhecida de Deus e que Deus é a parte  desconhecida de nós.

Mas, o que então é complementar ao amadurecimento físico que determina o grau de nossa sabedoria, por assim dizer?

O mais fundamental, neste caso, é a natureza de nosso amadurecimento emocional. A emoção é a maior força motivadora e propulsora que o ser humano pode experimentar em vida. Emoção é ação em movimento. É através da emoção que podemos conhecer  determinados contextos e fazer determinadas escolhas que qualificarão nossa experiência de dois modos: o inferno das intrigas e dos apelos de nosso ego (dualidade, medo, insegurança e julgamento), o qual busca incessantemente satisfação imediata de desejos, ou o céu da voz clara e firme de nossa alma (intuitiva, altiva, determinada e discernida), a qual busca realizar seu propósito de vida.

Com o amadurecimento do nosso corpo físico, nos tornamos aptos a expandir nossa experiência para contextos mais complexos e extrair o aprendizado das contradições e das dificuldades vivenciados em nossos relacionamentos com o mundo e as pessoas. Isto torna-se o substrato que alimentará nosso amadurecimento emocional. Assim, nos tornamos donos de determinadas decisões, bem para fora das paredes do cárcere de nossos desejos imediatos. Quando você for capaz de fazer escolhas com sua mente focada no que verdadeiramente precisa, a longo prazo, para sua realização em vida, aí sim pode dizer euforicamente – amadureci! Adquiri sabedoria!

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 06 de Agosto de 2013.

A cura do passado

por Guru Sangat Kaur Khalsa 

Desde que este planeta foi criado, 99,99% de toda forma de vida que nele existiu já foi extinta. O homo sapiens, que nos precedeu, surgiu há 2 milhões de anos e viveu até 20 mil anos atrás, e é considerado, por tamanho feito, um sucesso total, pois resistiu longa e bravamente num cenário inóspito, açoitado por ventos e temperatura glaciais. Nossa vida na Terra corresponde, apenas e nada mais, a 0,0001% do tempo de existência do planeta, ou seja, somos uma aparição recente, frágil e estamos longe de uma posição consolidada no firmamento da evolução.

Mas, se tem algo que podemos fazer para garantir nossa duradoura existência na Terra é tirar bom proveito da experiência que nos trouxe até aqui. Houve tempos em que oxigênio nos matava, depois, sem ele, não podíamos sequer ser concebidos; já vivemos no corpo de seres inertes e minerais, musgos e outros vegetais; seres microscópicos e impetuosos; depois de habitarmos formas ameboides e águas sulfurosas, adquirimos línguas bipartidas e corpos rastejantes; vivemos no alto de árvores e dentro da terra; fomos peludos, lisos, frios e quentes; das formas mais minúsculas às mais desconfortavelmente grandes, adquirimos uma espécie de mecanismo de mutação sem perder o alvo: evoluir.

É como se tivéssemos mantido um ser original, em torno do qual tudo foi sendo criado e superado num constante fluxo de prosperidade. Quando se observa de perto a dinâmica que manteve a vida como um evento bem sucedido na Terra, chegamos seguramente à conclusão que apenas uma única condição foi essencial. A longevidade da vida depende fundamentalmente da capacidade que os seres têm de se transformarem!

Se não tivéssemos mudado completamente de forma, espécie, cor, gênero e natureza, hoje este planeta seria tão vazio de drama e vida quanto qualquer lugar deixado a vagar à sua própria sorte nas poeiras do universo.

O primeiro passo em direção à vida é abrir mão do passado (formas, conceitos, traumas, hábitos, dores), colocar-se na clareza e na calma espetacular do seu ser original chamado alma. Para que isso possa acontecer, você precisa adquirir uma grande e necessária virtude – o destemor!

As transições são desafiadoras por que temos medo do desconhecido, temos o registro de dor e trauma que nos impele a ficarmos seguros onde estamos, ainda que sob intenso martírio e ameaça. Mas, adquirir consciência da substância de vida que se encerra nas transições é uma maneira de darmos esse passo. Do contrário, permaneceremos no mesmo lugar e estaremos apenas acelerando o processo de nosso desaparecimento, sem que tenhamos deixado para trás um traço sequer de bravura evolutiva.

Desperte sua mente intuitiva e retire de sua inteligência o comando para rescrever seu destino a um nível celular. Aceite e reconheça o passado, aprecie o que ele trouxe de bom e ruim, abençoe tudo e libere tudo!

Wahe Guru, Sat Nam.