Calabouço emocional

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Eu estava em Berlin naquele janeiro de 1994 quando li uma citação do Yogi Bhajan que me serviria de guia em muitos momentos difíceis de minha vida. Ele disse: “a maioria de suas ações não são efetivas. Tudo que você faz é satisfazer suas emoções. Todo este estilo de vida e tempo que você gasta em satisfazer suas emoções serão a exata medida para sua morte. Todos têm que morrer, mas, alguns morrerão realizados, e muitos outros morrerão vazios”.

Suas palavras vergaram meu intelecto e me fizeram refletir. Compreendi que na sua colocação residia uma explanação profunda sobre o sofrimento e a miséria humana, especialmente a sua forma auto-imposta. Sua abordagem simples e, ao mesmo tempo, inédita colocava um ponto final depois de explicar tudo sem meias palavras, deixando no rosto de quem o lia um sorriso que expressava uma divagação mais ou menos assim: “caramba, esse cara é demais!”.

Mas, por qual razão ele dizia que, ao satisfazer nossas emoções, causamos uma falência em nossas ações? Como poderíamos deixar de lado nossas emoções, já que ele mesmo insistiu em ensinar sobre a importância de não negá-las? Ou ainda, sabendo que emoção é informação em movimento, e alertando para a necessidade de incorporarmos o máximo de realidade que ela envolve, como essa mesma emoção poderia ser a protagonista da nossa inoperância?

Uma perfeita cartografia deste paradoxo encontra-se bem descrita no Siri Guru Granth Sahib. As emoções são de fato combustível que coloca em movimento impressões, pensamentos e cria realidades dentro e a partir de nós. Entretanto, uma das características inerentes às emoções é que elas não têm nenhum compromisso com a realidade. Nós nos emocionamos não porque a realidade assim nos fez sentir, mas porque assim nós sentimos a realidade. Nós interpretamos a realidade de acordo com nossas próprias lentes. Diante de uma mesma realidade seres humanos têm emoções distintas e elas em nada se alinham a fim de darem sentido à realidade em si.

Nós tendemos a sentir a realidade independente do que a realidade de fato é. Nós sentimos a realidade a partir de nossos filtros pessoais, criados por força do hábito, da cultura, da dor, do medo e da alienação. De fato, esse comportamento é também fisiológico: ao colocar na boca uma fruta que seja por natureza doce após ter chupado limão, você jamais será capaz de sentir a doçura da fruta, que segundo seu paladar terá um gosto azedo e amargo. A realidade da fruta não interessa à sua interpretação, e sua interpretação é tão real para você quanto a natureza doce da fruta é para ela mesma!

Como aprendemos com nosso Professor, Yogi Bhajan, paradoxos não devem ser resolvidos. Não se trata, portanto, de permitir ou não as emoções. Elas são fisiológicas! O que acredito ser desejável e possível é observarmos o quanto nós nos aculturamos num tipo clássico de obsessão – a do bem-estar! Precisamos nos sentir bem o tempo todo, e sentir bem significa estarmos emocionalmente satisfeitos para que possamos garantir nossa felicidade. Os tais filtros, tão ativos em cada um de nós, têm por função única proteger nossa identidade psíquica das agruras e dores que nos fazem inseguros e frágeis. Esses filtros atuam mesmo quando não há motivo real algum, criando assim um fluxo incessante de “necessidade de estarmos bem e felizes”.

O que o Siri Guru Granth nos ensina é que um verdadeiro Yogi reconhece este sistema e se coloca diligentemente a limpar esses filtros que impedem a apreensão da realidade de forma mais clara. Mas, muito mais importante do que isso, o Guru nos ensina também que um Yogi aceita a realidade como ela é independente do sacrifício que seja viver nela momentaneamente. Ao fazer isso, essa pessoa se conecta com a vida a partir de uma fonte que se encontra muito além das emoções, sem, contudo, negá-las. Essa fonte se chama alma, ou consciência. Quando assim o fazemos, o desconforto aparente de uma situação não é suficiente para nos temperar no âmbito de nossos padrões de defesa.

Ao contrário, nossa identidade psíquica imerge na nossa identidade espiritual, e, nesse momento, o alcance de nossa percepção se alarga para enxergarmos nosso propósito e qualificarmos nossa busca. Qualquer ação que iniciarmos para realizar a visão de nossa alma é livre do nosso calabouço emocional, e por isso mesmo essa ação dá frutos!

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte, 19 de Abril de 2014.

A festa Khalsa

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Ontem eu lia o pronunciamento do Primeiro Ministro da Inglaterra, feito de seu gabinete na Downing Street, em Londres, exaltando os pilares do Sikh Dharma, por ocasião da abertura das solenidades oficiais do Vaisakhi. Em várias cidades importantes do planeta, políticos renomados estão se juntando com  autoridades e pessoas simples do Sikh Dharma, com seus Kirtanees (músicos) e com os professores do Kundalini Yoga para celebrar Vaisakhi. Mas, o que é Vaisakhi e qual sua importância?

Vaisakhi, ou Baisakhi,  corresponde ao segundo mês do calendário Sikh Nanakshahi. Este mês tem início no dia 13 de abril e finda no dia 14 de maio. Este período é marcado por inúmeros festivais e celebrações. Os Hindus celebram a vinda de sua Deusa Ganga à Terra com banhos e rituais. Já os Budistas celebram o nascimento, a iluminação e a morte de seu Mestre Buddha Gautama.

Este mês tem uma importância singular para todos que se relacionam direta ou indiretamente com o Sikh Dharma. No Vaisakhi de 1699, Guru Gobind Singh, o décimo Professor desta Tradição, convocou todos seus seguidores e alunos para se congregarem em Anandpur no dia 13 de Abril. Foi colocada uma tenda sobre uma pequena colina, lugar hoje conhecido por Keshgarh Sahib, e uma grande multidão vinda de todas as regiões do Continente Indiano se apresentou para ouvir o que seu Professor teria de tão importante para dizer.

A primeira fala do Guru veio na forma de uma pergunta: “Quem sou eu para vocês?” E a resposta veio simples: “Você é nosso Professor”. Confirmando esta relação, ele teria perguntado: “E quem são vocês?” A multidão em uníssono respondeu: “Nós somos seus Sikhs (alunos)”.  Após lembrá-los dessa relação sagrada, o Mestre querido e símbolo de justiça e esperança, com uma voz penetrante e convicta disse: “O Professor de vocês hoje quer algo de seus Sikhs”. E a resposta foi vibrante:  “Hukam karo, sache Patshar!” O que quer dizer – “ordene, Verdadeiro Rei!”

Ele então firmou sua mão em sua espada e a envergou alto comandando que se apresentasse a ele aquele disposto a sacrificar sua cabeça. O silêncio reinou profundo e imperturbável… Ele pediu uma segunda e uma terceira vez. Finalmente um dos alunos de seu pai se levantou e se entregou. A multidão aterrorizada ouviu apenas o fulgir da lâmina cortando o ar e em seguida a cabeça do até então Daya Ram cair. Com a espada ensanguentada, ele saiu de sua tenda e pediu mais quatro voluntários, os quais certamente teriam o mesmo destino. Apresentaram-se nesta ordem: Himmat, Mohkam, Dharam, Sahib. Cada um deles era de uma casta hindu e formaram os Panj Pyares (Cinco Amados). Seus corpos foram trazidos para fora da tenda e dispostos aos olhos da Sangat. A multidão antes atônita, agora olhava a tudo com intenso interesse. Os cinco estavam majestosamente vestidos com roupas azuis e douradas. O Guru os colocou deitados sobre o chão com suas cabeças apartadas. A seguir, ele colocou as cabeças em corpos diferentes e ordenou que eles se erguessem. Diante da multidão, absolutamente paralisada, os cinco se levantaram e foram batizados pelo próprio Guru. Após o batismo,  Guru Gobind Singh pediu que os cinco o batizassem também. Ao final, Guru Gobind Singh disse a eles e a todos que ali estavam que: “de agora para frente, vocês não pertencem a casta alguma. Nenhum ritual hindu ou muçulmano é necessário, sequer a crença em superstição de qualquer espécie. Vocês devem apenas crer na presença de Deus, que é o mestre e protetor de todos, o criador e o destruidor. Na nossa nova ordem (Ordem Khalsa), o mais inferior de todos se colocará lado a lado com o mais superior. Este é o fim das austeridades e peregrinações e o início de uma vida pura de dono(a) de casa, e vocês devem estar prontos para o chamado do Dharma (justiça). Mulheres e homens devem ser tratados de forma igual em todos os sentidos”.

Neste dia fenomenal, centenas de milhares de mulheres e homens receberam seus novos nomes espirituais e se juntaram à nova Ordem Khalsa, os puros de coração e mente. Até mesmo o jornalista da Corte do Imperador Afegão, colocado no meio da multidão como espião, ao final do dia escreve ao Imperador o que acontecera com os Cinco Amados e, diante dos fatos inacreditáveis, pede demissão de seu cargo e se batiza, servindo longamente ao Guru.

A Ordem Khalsa se formou no século XVII com o intuito de criar um Estado livre e soberano, onde todos os seus cidadãos fossem iguais perante a lei, e sobretudo criar um modelo educacional da excelência para que mulheres, homens e crianças tivessem direitos iguais aos estudos e a prosperidade. Para tal, os Khalsas do Guru Gobind Singh, na forma de mulheres guerreiras e homens de fibra, deram suas vidas na luta contra o jugo Mongol de Delhi e a exploração dos senhores feudais indianos, que, combinados, formavam uma barreira absurda que impedia, sob força de vários recursos espúrios, o acesso aos bens e a uma vida digna e honrada.

Deixar que todos morressem na ignorância de suas crenças religiosas e submetidos ao absurdo regime de castas era o  meio mais natural. Lutar contra este sistema requeria espírito, coragem e esperança, não somente para si ou para aquele momento em si. O olhar dos Khalsas do Guru não se restringia ao uma região geopolítica, também não aos seus cidadãos imediatos. Eles miravam o futuro e os cidadãos do mundo. O sacrifício deles constituiu um legado que hoje celebramos e zelamos. Os Guerreiros da Paz deixaram para nosso mundo atual um exemplo de bravura e entrega aos ideias mais nobres da alma humana – compaixão a todos os seres, liberdade de ser e direito à prosperidade. Os Khalsas do Guru não eram de uma religião em particular. Eles abandonaram seus vínculos anteriores para se dedicar à criação de um mundo onde houvesse esperança e paz.

Suas vidas entregues a esta causa honram nossas lembranças com suas histórias e feitos. Sobre essa nobre gente, as palavras de quem mais os amou:

“All thee battles I have won against tyranny
I have fought with the devoted backing of the people;
Through them only have I been able to bestow gifts,
Through their help I have escaped from harm;
The love and generosity of these Sikhs
Have enriched my heart and home.
Through their grace I have attained all learning;
Through their help in battle I have slain all my enemies.
I was born to serve them, through them I reached eminence.
What would I have been without their kind and ready help?
There are millions of insignificant people like me.
True service is the service of these people.
I am not inclined to serve others of higher caste:
Charity will bear fruit in this and the next world,
If given to such worthy people as these;
All other sacrifices and charities are profitless.
From toe to toe, whatever I call my own,
All I possess and carry, I dedicate to these people”

Guru Gobind Singh Ji.

 

Wahe Guru Ji Ka Khalsa, Whae Guru Ji Ki Fateh

 

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte,  9 de Abril de  2014.