Terceiro Altar

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Estou no portão 16D em uma sala de espera em Miami para pegar meu voo para São Francisco. Poucos passos de mim, exatamente no meio da passarela por onde as pessoas circulam em direção aos seus voos, uma brasileira fala ao telefone de modo típico! Sua voz de fumante, a deselegância de suas expressões e o conjunto todo fazem de seu show uma experiência inevitável de mal gosto extremo.

Isso me fez lembrar o que eu experimentei no sábado pela manhã numa esquina de um região fina de BH. Eu estava numa banca de jornal comprando a revista Piauí de julho para ler uma reportagem sobre o presidenciável Eduardo Campos quando um homem se aproximou. Ele comprou um maço de cigarros, o abriu bem ali na nossa frente numa ânsia compulsiva, e jogou o plástico e o alumínio que cobre os cigarros bem no passeio em frente à banca.

Há poucos passos de nós via-se um funcionário da Prefeitura varrendo o lixo do passeio. Eu aguardei uns instantes decidindo o que fazer… Foi então que lhe disse direta e educadamente se ele se esquecera de jogar seu lixo no local adequado. Ele parou parecendo pensar, tinha uma cara de deboche que se tornou pura indiferença e, antes que eu ouvisse qualquer palavrão, abaixei e peguei seu lixo enquanto ele se distanciava resmungando.

São tantas demonstrações da nossa falta de cuidado com o outro e com a vida. Numa escala maior, vejo o descaso com nosso meio ambiente por parte das mineradoras que devoram o cinturão verde e montanhoso da cidade. É uma calamidade. Quem quiser acrescentar uma outra dose de flagelo urbano é só olhar para as encostas dos canteiros ou para as faixas laterais de apoio nas vias maiores, e por favor não deixe o Anel Rodoviário de fora – puro entulho, lixo cáustico, plástico, pilhas e baterias, resto de obra e sabe Deus o que mais.

Ninguém é responsável por nada. O cara do cigarro não acha que a cidade é dele e que depende dele. A cidade é apenas um lugar que ele existe para fazer o que bem entender. As mineradoras não se importam com a mutilação da paisagem e da beleza das matas porque, para elas, aquilo é apenas dinheiro. O DNIT não toma para si as rodovias, cuidando da sua pavimentação, da sua higiene e das consequências do lixão que nelas se acumula, colocando em risco nossos mananciais. A Prefeitura não se importa e o Governo também não se importa com a qualidade de vida e com a criação de um projeto que não seja apenas o que dá votos.

A Copa do Mundo de Futebol acabou. A imprensa de modo geral comenta em detalhes o grande espetáculo orquestrado pela Alemanha por trás de seu belo estilo de jogo. A Alemanha que produziu e executou um plano para criar uma nova cultura de futebol baseada na premissa de educar integralmente as crianças e tomar para si a responsabilidade de suas vidas. Sim, eles fizeram isso de forma planejada, integral e coesa. Aqueles meninos que nasceram das escolas de base desta nova Alemanha são os jovens adultos que conquistaram nesta Copa o Brasil com seus modos, sua humildade, competência e com sua consciência. A todo momento contrariavam as surradas estampas que os jornalistas brasileiros insistiam em usar: “eles são frios e agressivos”, de Galvão Bueno; “Obrigado, carrascos alemães, se ganharem da Argentina dá até para minorar nosso 7×1”, de um torcedor pelo twitter na CBN.

Os alemães mudaram depois destes 69 anos do pós guerra, mas nós ainda estamos agarrados ao modo de pensar antigo e aos traços do passado.

Agora os políticos falam em renovação do futebol brasileiro. Não resta dúvida que nosso futebol precisa se transformar e radicalmente. Mas, seria apenas o futebol? Claro que não! O novo futebol alemão não nasce à revelia de uma renovada visão de mundo. Uma criança alemã aprende que o que acontece além de suas fronteiras é também de seu interesse e responsabilidade. Ela aprende a dar valor no que é diferente de sua própria cultura. O novo modelo alemão que se provou de grande sucesso não nasceu num país caótico, violento e improvisado. Ele nasce num país que leva a sério a política e os seus cidadãos. Ele surge entre aqueles que aprenderam na escola a se sensibilizar com tudo que confere dignidade a existência humana.

E o Brasil? Bem, aqui temos uma lista quase interminável, na proporção da nossa insensibilidade para a vida, de projetos urgentes e necessários: educação, saúde, segurança publica, reforma política, reforma judicial, reforma fiscal, infraestrutura urbana e escoamento….puxa!

Enquanto nosso estilo de vida refletir a selvageria da vida política e social estaremos culturalmente maquiando nossa atuação com “aquele jeitinho brasileiro”, com aquela malandragem para levar vantagem e com o a falsa fé que conta com o fato de ser Deus brasileiro.

Improvisação baseada em talentos individuais. Isso não é só no futebol! Sim, nós temos talentos, mas o que adianta nossa inteligência e criatividade se não nos é ensinado a planejar, persistir e honrar?

O Brasil não precisa apenas de uma reforma na CBF e nos clubes de futebol, por favor!

O Brasil precisa de uma nova alma e de empreender um projeto de vida que nos ensine a valorizar o coletivo, o outro e a adquirir consciência da delicadeza da vida e existir para preservá-la. Precisamos aprender a reverenciar a sutileza e a beleza do pulsar vivo de tudo que existe no nosso planeta e no cosmos e nos sentir um com tudo. Precisamos criar um estado de reverência para darmos cabo da nossa cultura de deboche. Precisamos de um novo estilo de vida.

Será que conseguiremos obter prazer sem nos embebedar? Será que seremos capazes de olhar para um varredor de rua e reverenciá-lo pela sua contribuição? Será que seremos capazes de moderar nosso tom emocional e comunicar com o coração? Será que seremos capazes de deixar para trás o Brasil da improvisação e construir o Brasil da provisão?

Estamos em plena Era Aquariana, onde nenhuma forma de corrupção e manipulação ficará imune aos holofotes públicos. O futebol mostrou sua verdadeira cara, mas a cara de uma sociedade inteira já foi também revelada. O que estamos esperando?

Se você ainda não entendeu o significado deste Altar, não adianta pensar muito. Aja!

 

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 14 de julho de 2014.

O Segundo Altar

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

O Segundo Altar está no caminho dos viajantes que decidem deixar para trás o perímetro pessoal a fim de explorar e servir o mundo.

Este momento é muito significativo, porque muitos de nós se lançam ao mundo para ainda continuar se servindo. Este altar não se encontra na rota destas pessoas, preciso dizer. Ele se edificou apenas no caminho daqueles que partem para o mundo com a vontade de responder à pergunta: “o que eu significo para o mundo?”. Este altar existe com o propósito de abençoar os viajantes com a garantia de uma viagem muito mais divertida, rica e arrebatadora.

Quando quebramos o cárcere de nossos condicionamentos pessoais, sentimos o frescor de uma vida livre. A força que utilizamos naquele momento, consubstanciada no Primeiro Altar, para nos lançar para fora dos nossos habituais jargões “meu jeito de viver” ou “é assim que eu sou”, se torna um dínamo que nos propala para uma vida em meio a tudo. É complexo.

Nesta altura, seremos mais uma vez testados, porque o penetrar no mundo exige talento e inteligência. Se ao penetrar o mundo ainda agirmos de forma tímida e insegura, buscando no mundo apetrechos alegóricos de referencia para nos sentirmos amados e confiantes, saímos indubitavelmente da estrada que nos direciona ao Segundo Altar. Que rota tomamos neste caso?

Ah, tomamos a estrada que nos apresentará novamente o antar anterior para que fortaleçamos a nossa voltagem, coragem e sentido próprio.

Mas, se ao nos sentirmos confrontados, amedrontados ou inseguros, ainda assim deixarmos que a engrenagem que nos colocou no mundo nos impulsione para nos juntarmos ao mundo, aí sim, tudo muda. Neste exato instante surge o Segundo Altar.

Parece mágico, porque ele está logo ali onde antes sua presença era simplesmente invisível aos nosso olhos.

No Segundo Altar, eu me fortaleço na experiência do servir ao mundo porque eu e o mundo nos tornamos íntimos e unidos. Servir ao mundo daquilo que cada um tem de mais precioso como se você estivesse se servindo é a recompensa de sair do casulo de nossas primitivas inseguranças e expandir nossa experiência sensorial, estética e social.

Quanto mais servimos ao mundo, mais força temos para romper continuamente nossos limites, e maior força adquirimos para superar hábitos e recriá-los de modo a garantir nossa ação no mundo. É um processo sem fim. É uma recompensa que continuará enquanto nossas mãos não se omitirem de servir e nossas pernas não fraquejarem diante dos desafios.

O Segundo Altar é visitado para que tenhamos a chance de reverenciar os valores dhármicos que sustentam o mundo: paz, justiça e igualdade. Estes valores servirão de condutor para nossa consciência, e de inspiração para nosso destemor. Saímos deste altar renovados para servir ao mundo além das fronteiras étnicas, sociais ou religiosas.

O que eu significo para o mundo é a pergunta deste altar. O que é que eu significo?

Eu significo a esperança. Eu significo a paz. Eu significo a cura.

Quando em dúvida e vergalhado pelo medo caminhamos para nosso Segundo Altar, somos abençoados com o presente do nosso destino. Nele, temos tempo para queimar o mapa da nossa sina e colocar na mochila a preciosa cartografia do destino.

Somos tomados por uma coragem majestosa. Nos fortalece saber que é nosso o direito de escolher viver para fazer sentido e viver por nossa própria deliberação.

O comando é da alma e disto não duvidamos mais!

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte, 6 de julho de 2014.

Primeiro Altar

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

O que eu significo para mim? Esta pergunta tem valor – e como!

Todos nós estamos irremediavelmente submetidos a determinadas forças que influenciam nossa maneira de estar no mundo. Estas forças atuam criando moldes a partir dos quais adquirimos determinadas características que nos projetam na vida. 

Estes condicionantes são de natureza biológica, social e cultural e têm um punho férreo sobre nossas psiques. Eles podem, sem dúvida, nos encapsular numa identidade fictícia de sobrevivência, se deixarmos que eles atuem sem a intervenção de nossa consciência ou identidade real. Não é nada incomum ver pessoas acreditarem que existir fora desse invólucro seria tarefa absolutamente desnecessária, e também muito perigosa. 

Vamos dissecar isso um pouco mais. Conceba uma determinada pessoa nascida com uma constituição frágil e franzina, e, por isso, tenha sido tratada como alguém que requer amparo constante. Sob tal vigilância e proteção, ela poderia passar sua vida sem a chance de se expor aos desafios naturais que fariam aflorar seus talentos, condicionando-se a essa proteção como meio fundamental de sua sobrevivência e passando, assim, o resto de sua vida presa e dependente.  

Imagine agora um indivíduo forte encarcerado em um campo de concentração nazista. Inútil esperar que sua cultura, seus talentos e sua bagagem existencial, acumulados ao longo de sua vida, possam lhe render qualquer força de superação, se, ao se vir submetido à sistemática despersonalização associada a uma ininterrupta violação de sua dignidade, ele próprio abdicar de  sua identidade espiritual em favor daquela orquestrada por seus algozes.

O momento em nossas vidas em que nossa identidade construída para defesa imediata é testada é complexo, assustador e dinâmico. Este drama acontece sem prelúdios, e o contexto é sempre marcado pelas mais implacáveis circunstâncias, as mais duras e violentas. Este é o teste de nossa identidade espiritual, real e verdadeira, a única capaz de romper o invólucro, o cárcere de nossa suposta proteção. Neste momento, precisamos do nosso Primeiro Altar, e nele chegamos via de regra atordoados, machucados e perdidos. 

Nele, precisamos escolher nos agarrar àquilo que tem o poder de nos puxarmos para fora da tormenta e garantir nossa salvação. Muitos, por hábito, perdem grande tempo buscando a quem culpar ou a quem recorrer fora de si próprio. Este é o problema. Como poderia haver culpados se a situação em si está carregada de tensão libertadora? Nesta luta, como imaginar que a salvação poderia estar fora de nossa própria inteligência? De nada adianta assentar o olhar para fora de si. Mas, o que fazer se dentro de nós existe apenas o baque e o susto de nos vermos expostos e fragilizados? Precisamos perguntar a coisa certa e ouvir a resposta que trará a solução. E ela é: o que eu significo para mim? 

No Primeiro Altar, pela primeira vez, a voz outrora anêmica de nossa consciência abala nosso medo e insegurança. Ela comanda: quebre as paredes sombrias do cárcere de seus condicionamentos, corra para fora do alvéolo infértil de sua existência, agarre-se aos valores perenes de sua alma e se liberte! A despeito da força que te quebra e te faz prisioneiro, escolha agir além de seus condicionantes. 

Respondendo a esta pergunta, descobrimos a força criativa que se encontrava embotada e suprimida dentro de nós. E, quando ela vem à tona, nada mais nos limita. Diante de toda adversidade e tormenta, pela primeira vez, somos capazes de reconhecer nossa prisão e de escolher ser livres, agindo de forma antagônica aos nossos hábitos, sejam eles condicionados pela nossa herança genética, pela cultura ou pela nossa posição social.

Eu significo para mim o começo, o meio e o fim. Eu sou a fonte última da minha própria salvação. Eu significo para mim a pessoa capaz de recorrer aos valores dhármicos da alma e me servir deles sem culpa, e usar o que tenho de mais precioso, que é a coragem de ser eu mesma, de ser autêntica e de ser livre!

Quando exaustos e acuados caminhamos para nosso Primeiro Altar, somos abençoados com o presente de nossa Verdadeira Identidade. Uma força sobrenatural nos toma, e damos os primeiros passos no território virgem de nossa realidade livre. Neste novo espaço, já estamos andando na região do nosso próximo altar. Um novo teste se divisa e uma nova libertação nos aguarda.

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte,  30 de junho de 2014.