Respirando debaixo d’água

por Gurusangat Kaur Khalsa

Pessoas que se movem de aparente sucesso em aparente sucesso raramente entendem a natureza do sucesso. Aqueles que erram ao tentar fazer o certo são os que mais perto estão de entender a superação e de cultivarem a compaixão para si e para o mundo.

A vitória que nos deixa triunfante e superior nos condena à rigidez típica daqueles que querem perpetuar o controle a fim de esconder fraquezas e fragilidades. Mal sabem que a rendição oferece o gosto doce da paz.

Deus se disfarça em nossos erros, conflitos, contradições morais, inconsistências e confusão. A boa notícia é que há erros e conflitos de sobra em nossas vidas. Mas, sinceramente, poucos são aqueles que sabem fazer deles a matéria-prima de sua superação. Haveria uma explicação para este desacerto?

Há sim: nosso ego. O ego sempre insiste em bases morais elevadas para os outros a fim de preservar sua própria zona de conforto — “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” —, perpetuando a falsa imagem de retidão e desviando o olhar de suas próprias falhas. O julgamento moral é o recurso daqueles que tentam esconder suas derrotas e erros.

Por que será que nem o conhecimento e nem a religião conseguiram extinguir a amargura e o sofrimento na vida daqueles que adotaram a violência como meio de superação? E que força então poderia restaurar nossa sanidade?
A resposta que me vem à mente parece simples demais, mas não encontro outra melhor. De modo geral, o conhecimento não impediu que a religião fosse vivida por pessoas que temem o inferno e somente a experiência daqueles do Dharma que passaram pelo inferno poderia ser usada para restaurar nossa inocência e sanidade. É uma ideia radical, eu gosto dela.

Se a religião não respondeu aos desafios do ego humano, de onde viria então a força que nos traria à vida da compaixão e da generosidade ensinadas no Dharma? Se o ego prefere a ruína à mudança, o que, por todos os santos, poderia nos ajudar a recuperar a dimensão divina da vida humana, a espécie mais evoluída no planeta?

A resposta precisa vir do fracasso para que meu texto faça sentido, e… ela vem!

Todos que já passaram por isso sabem que a rendição é doce! Só a luminosidade de quem conhece a morte pode fazer crescer a compaixão por tudo. Como a morte implica, necessariamente, a libertação do espirito contido no corpo que se desintegra, então, quando se morre em vida, quando se aceita a derrota, a força que nos possibilita continuar vivos é aquela que vem do espírito!

Ketia dukh bukh sad maar – e bhi daat teree daataar.
“Se a dor e o infortúnio me alcançam mil vezes – ainda assim, tudo isso é Seu presente”.

“Não se preocupe se existe escuridão na vida, crie luz”. Essa não era uma mera frase do Yogi Bhajan, mas, sim, uma pista para que encontrássemos em nossa própria derrota, desespero, erro, miséria, a força da luz que insistentemente acompanha os derrotados e os desafortunados. Em suas aulas de Kundalini Yoga, quando trazia todos os Ensinamentos do Dharma Sikh para ilustrar a beleza desta contradição e seu valor para nossa superação, ele ensinou com a força de sua vida que o yoga é a união entre nós e Deus, dentro de Deus e dentro de nós. E ele ensinou ainda que, o teste desta união acontece quando o tempo te bate e o espaço te conserta. Se naquele momento sua resposta for bondade do coração e compaixão da cabeça, então não haverá nenhum outro grande santo do que você; não haverá nenhum outro Deus, senão você. Nenhuma outra verdade a não ser você.

Wahe Guru.

Belo Horizonte, 29 de outubro de 2014.

Aos Pés Divinos do Professor

Tradução por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Maajh, Terceiro Canal de Luz, Guru Amar Das Ji (p121):

O Arquiteto do Universo é radiante, e radiante são suas almas-cisnes.
Suas mentes e suas falas são imaculadas; elas são minha esperança.
Suas mentes são radiantes e suas faces, belas; elas meditam no Naam, o Nome de Deus. (1)

Eu me rendo, minha alma se rende, àqueles que cantam as glórias do Senhor do Universo.
Entoe Gobind, Gobind, o Senhor do Universo, dia e noite; cante as glórias de Gobind através do som de seu Shabd (1) Medite

Cante calma e intuitivamente e com reverência; você também se tornará radiante e seu egoísmo se dissolverá.
Permaneça em êxtase para sempre, e sirva a Deus, dia e noite. Escute e cante as glórias de Gobind (2)

Canalize sua mente dançante neste serviço e, através da Palavra do Shabd do Guru, leve sua mente a se amalgamar à Mente Suprema.
Deixe que sua perfeita entonação controle seu amor por Maya, e abandone-se na dança do Shabd (3)

As pessoas gritam alto e movem seus corpos, mas enquanto estiverem emocionalmente atadas à Maya, elas serão caçadas implacavelmente pelo mensageiro da morte.
O amor por Maya faz com que a mente dance, e o sofrimento que se segue é aquele da dor da decepção. (4)

Quando Deus inspira alguém a se tornar um Gurmukh, seu corpo e sua mente sintonizam-se no Seu Amor com facilidade.
A Palavra do Bani do Guru vibra, e a Palavra de seu Shabd ressoa naquele Gurmukh que aceitou servir a Deus. (5)

Todos os tipos de instrumentos podem ser tocados, mas ninguém escutará e ninguém poderá guardar este som dentro da própria mente.
Muitos preparam o palco e a dança, mas pelo amor à dualidade não conseguem obter nada mais do que dor profunda. (6)

Aqueles que permitem unir sua essência interna ao amor de Deus, se libertam.
Eles controlam seus desejos, e seus estilos de vida se tornam a disciplina da Verdade.
Através da Palavra do Shabd do Guru, eles meditam em Deus. Seus serviços são apreciados por Deus. (7)

Viver como um Gurmukh é se devotar a servir, através de qualquer tempo.
Este serviço não é obtido por qualquer outro meio a não ser servindo.
Ó Nanak, o Naam, o Nome de Deus é obtido apenas através da devoção ao Guru. Por isso, foque sua consciência aos pés Divinos do Professor. (8) (20) (21).

Wahe Guru.

Belo Horizonte, 20 de Agosto de 2014.

Dhan Dhan Ram Das Gur

Adaptado do artigo de Pritpal Singh – Sikh Dharma Internacional

Guru Nanak sempre foi acompanhado de músicos maravilhosos. Após a morte de seu notório companheiro Mardana, que tocava a rabeca, dois jovens talentosos, Balwand e Satta, foram incorporados à Corte. Eles se tornaram referência do Shabd Guru e serviram até o quinto Guru, Arjan.

Era uma tradição nesta Corte doar dinheiro aos músicos quando estes tivessem enriquecido a experiência meditativa da sangat. Certo dia, quando a neta de Satta iria se casar e a família precisou de mais dinheiro, Balwand e Satta procuraram pelo Guru Arjan. Guru Arjan, que acabara de assumir o Trono e ainda não tinha acesso ao dinheiro da Corte, deu a eles o que tinha pessoalmente. Aconteceu que o valor não cobria os enormes custos do casamento, e os músicos se enfureceram. O sentimento era que eles mereciam muito mais, pois sem eles não haveria a Corte. A importância deles era, segundo eles mesmos, superior à do próprio Guru.

No dia seguinte, quando Guru Arjan mandou chamá-los para tocar em sangat, eles se recusaram e começaram a tecer críticas a todos os Gurus. Guru Arjan disse que não tinha nenhum problema em ouvir suas críticas, mas ofensas ao Guru Ram Das, e por extensão ao Guru Nanak, não seriam toleradas. Assim, Guru Arjan anunciou que os músicos não pertenciam mais a sua Corte. Essa foi uma grande mudança, já que Balwand e Satta eram músicos históricos na Corte dos cincos primeiros Gurus. Foi, a propósito, nesta época que o Guru iniciou um treinamento musical, ensinando a todos seus alunos o Kauri Kriya, o qual consiste em cantar a escala de 19 notas de forma meditativa. Ele também passou a tocar nas meditações da sangat o instrumento que então criou, a Sarinda.

Neste momento, Guru Arjan definiu claramente as qualidades que cada Ragi deveria manifestar:
1) clareza mental e devoção a Deus no coração;
2) serviço à sangat;
3) cinco virtudes: verdade, contentamento, fé, compaixão e paciência;
4) ausência de orgulho e hipocrisia;
5) presença neutra de paz e alegria.

Quando Balwant e Satta viram o quanto a Corte florescia mesmo sem eles, e sinceramente perceberam o erro cometido, procuraram Guru Arjan e pediram para serem readmitidos na Corte. Isso, contudo, lhes foi negado seguidamente. Eles então compuseram o Balwand di Var, descrevendo seu desejo sincero de estar na presença do Guru. É dentro desta composição que se encontra o Shabd Dhan Dhan Ram Das Gur. Com extrema humildade, eles esperaram pelo chamado do Guru. Ao ouvi-los, o Guru admitiu o quanto a composição era elevada espiritualmente, e declarou que ela deveria ser incluída no Siri Guru Granth Sahib mesmo não sendo Balwand e Satta seres divinos.

Este Shabd tem sido entoado pelo menos uma vez por dia no Golden Temple nos últimos 400 anos. Não é incomum ouvir as pessoas entoá-lo quando estão andando pelo mármore do templo dourado. Este Shabd é notoriamente reconhecido pela intervenção milagrosa do Guru Ram Das àqueles que o entoam com pureza e sinceridade. Graças ao Siri Singh Sahib Yogi Bhajan, milhares de pessoas pelo mundo afora têm a chance e a benção de se conectar com a força poderosa do Guru Ram Das, através do Naad deste Shabd, e receber sua sublime ajuda.

Feliz aniversário de nascimento do Guru Ram Das e que este Shabd traga a você, aos seus amigos, familiares e alunos as bênçãos dele.

Wahe Guru.
SS Gurusangat Kaur Khalsa
Belo Horizonte, 1 de Agosto de 2014.

Não me enterrem antes

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Esta é a estação que toda a comunidade do Kundalini Yoga e do Sikh Dharma celebram a vida, a obra e o legado de Guru Ram Das Ji. Muito significativo para nós todos é que há 10 anos esta mesma época se tornou também aquela dedicada a celebrarmos a vida do nosso venerável Mestre e Chefe Espiritual, Siri Singh Sahib Yogi Bhajan.

Guru Ram Das era o Professor Espiritual do Yogi Bhajan. Eles tinham uma relação de profunda unidade, amor e respeito. Desde o primeiro desafio que Yogi Bhajan foi submetido, ao trazer todos os Ensinamentos sagrados do Kundalini Yoga para o ocidente, foi no Guru Ram Das que ele buscou amparo e orientação. Em seus momentos de dúvida, era a ele que recorria, e lá estavasempre seu Professor em seu corpo sútil para guiar seu aluno.

Foi também com seu Professor que ele celebrava a vitória de seus alunos e da comunidade espiritual 3HO, que aos poucos crescia em várias frentes para carregar o legado desta tradição. Eu me lembro muito bem, o dia em que nós, em Berlim, recebemos a notícia dando conta de que Yogi Bhajan cancelara sua vinda para sua temporada de verão na Europa, porque havia adoecido gravemente e sua vida estava sob risco. Isto era o início dos anos 90, quando sua saúde deteriorou demais, em resposta à sua incansável dedicação a compartilhar os Ensinamentos do Kundalini Yoga e do Dharma com todos, e também sua dedicação total à criação de negócios aquarianos para que as gerações do futuro soubessem, sem dúvida alguma, que era possível e muito necessário a prosperidade alinhada com os valores mais nobres da vida humana e do planeta. Ele trabalhou sem parar sob a orientação de seu amado Professor, o Guru.

Nesta época ele nos advertiu seriamente: “quando eu morrer, nem pensem em me velar ou cremar antes de pelo menos três dias. Eu provavelmente voltarei!”. Isto aconteceu de fato três vezes. Tê-lo de volta a vida era sempre um susto, e uma felicidade sem palavras. Ele dizia que nesta aparente morte ele tinha a oportunidade de se instruir mais precisamente com seu Professor para que seu trabalho pudesse ser realizado de forma mais precisa, e com maior impacto. Ele realmente fez muito por todos e pelo Planeta.

Finalmente, quando sua saúde se abalou fortemente, ele nos avisou que o momento chegara. Ninguém queria acreditar, pois tantas outras vezes ele acabava retornando para nós. Mas, admitir que talvez naquelas últimas semanas de setembro de 2004, ele estivesse de fato partindo era necessário, pois muito precisava ser preparado para sua passagem.

Uma semana antes de morrer, ele ainda deu sua aula semanal de sua cama. Sua voz era trémula, mas sua consciência vibrante. Lentamente seu coração foi dando sinais de falência e ninguém estava certo da razão pela qual ele ainda permanecia em meio a todos, mesmo sob tanto sofrimento. No dia 6 de outubro, ao cair da tarde, ele finalmente descansou e partiu. Durante três dias, os últimos ritos em sua homenagem foram realizados, e no dia 9 de Outubro ele foi cremado. Naquele momento, todos compreenderam porque ele esperara tanto para partir. Ele queria ser cremado exatamente no dia em que Guru Ram Das havia nascido. Ele quis se dissolver nos braços daquele que nascera para guia-lo e guiar todos seus alunos no ocidente.

Após sua morte, Siri Singh Sahib Harbhajan Singh Khalsa Yogi Ji se juntou a poucos seletos, como Dr. Martin Luther King Jr., Madre Tereza, Papa João Paulo II, e foi homenageado pelo Congresso Americano, com honrarias estampadas numa resolução criada em homenagem a sua vida e trabalho.

Por isso, o mês de outubro se tornou duplamente importante para nós. Celebramos a vida do Guru e seu discípulo: o Guru e o Mestre.

Que todos possam ser abençoados pela consciência de ambos, que se mistura à nossa neste época de celebração para experimentarmos suas qualidades retratadas na inclusão, justiça, bondade, compaixão, entrega, excelência, e amor.

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte, 1 de Outubro de 2014.