[GSK] Unificando identidade cultural e espiritual

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa no dia 23 de outubro de 2015

[GSK abre a aula]

Nós hoje vamos trabalhar uma área no nosso corpo que é muito básica no Kundalini Yoga, que é o abdómen. A área do abdómen é a mais fundamental em qualquer linha de yoga porque é o local de nossos instintos animais, mas também é a fonte e é o local de nossa preservação intuitiva. Sem o processamento que vem aqui de baixo, você não alimenta seus centros superiores. É quase como honrando a nossa parte animal para que nós possamos existir em nossa parte mais elevada. A maioria esmagadora das linhas de yoga não explica mais do que isso. E tem muitas linhas que trabalham o abdómen para ficar com aquilo que a gente chama de “bikini belly”, a barriga tanquinho, pra ficar bem na foto. Mas no Kundalini Yoga tem um enunciado que é belissímo e se a gente compreender isso a gente compreende o Kundalini Yoga e para sempre aquilo fará sentido na vida da gente. O enunciado é: “você não tem uma alma. Você é uma alma. O que você tem é um corpo”.

Essa premissa derruba um tanto de fantasias e manipulações que ocorrem nesse universo chamado espiritual. Quando o corpo é dado a uma alma é muito diferente de quando a alma é dada a um corpo. A premissa de que a alma vai ser dada a você, de que você irá conquistá-la pressupõe que você é nada, pressupõe uma inferioridade, pressupõe uma distância entre você e a sua alma, e o pior ainda pressupõe que vocês não tem uma alma. E aí a gente alimenta com isso uma linguagem que a gente chama por aí de a linguagem do chacal. Aquela que precisa que um seja merecedor e outro não, que aquele que não for merecedor seja punido e o que for merecedor seja presenteado. Esse jogo, sinceramente gente, é o jogo que eu faço e que vocês fazem e que todo mundo faz. Tudo bem, esse é o tema da palestra Abaky de dezembro. Mas focando na gente aqui agora, quando você rasga essa premissa, você entende que você não tem que ser merecedor da alma e que você vai adquirir alma, mas sim que você é alma.

É uma premissa completamente distinta. A primeira coisa que ela faz é igualar a todos. Todos somos iguais. Todos temos a capacidade de nascer na alma. O que a gente adquire é um corpo. A gente sai da manipulação daquele que não merece e daquele que merece, sai do campo do que pune e presenteia e entra no campo em que você precisa descobrir para poder honrar o por quê de você ter ganhado este corpo. Vocês já pensaram um segundo apenas nesta conversa? Você se perguntou, na perspectiva de alma: “por que eu ganhei esse corpo para mim?” Não é a conversa de por que o meu corpo tem ou não tem uma alma. Não! A perspectiva do Kundalini Yoga é: por que eu ganhei este corpo.

A alma é o primeiro dos dez corpos, mas ela já traz consigo quais corpos. Sem dúvida alguma, ela traz consigo o corpo sutil, que vem encapsulado nela. Mas o corpo sutil, para entrar nesta dimensão, precisa de outros corpos, especialmente do prânico. Com a junção do corpo prânico, da aura e do corpo sutil para proteger a alma, entra uma outra parte importante que são os corpos mentais e o corpo físico. Quando os corpos mentais e o físico servem ao destino da alma, qual corpo que incendeia? O radiante!

O corpo radiante incendeia quando a alma consegue que nós possamos usar o nosso corpo físico para expressar a sua natureza. Sem o corpo radiante, a alma não expressa a sua própria natureza, porque não está a serviço dessa expressão o corpo físico – ele mais os corpos mentais, a psique. Enquanto vocês não acreditarem que vocês são almas e estão aqui adquirindo uma experiência física para realizar alguma coisa, vocês não vão ser capazes de honrar aquilo que vocês são. Vocês não são apenas a linhagem de vocês, de pai e de mãe. Vocês são uma identidade espiritual. Que vem com um propósito.

Então, por que a gente trabalha a força do abdómen? A força do abdómen só é usada no Kundalini Yoga, como em todos os yogas, porque ela explica um pouco para nós a força que a gente tem que ter para aceitar a junção de duas coisas importantíssimas nas nossas vidas, aceitar o casamento de duas coisas dentro de nós, que é a minha identidade cultural e a minha identidade espiritual. Quando a minha identidade cultural e a minha identidade espiritual se tornam uma, eu não troco de máscara para existir culturalmente de um jeito e existir de outro jeito no mundo dos yogis. Para isso se tornar um, você precisa da força do plexo e de reconhecer esta distinção. Entenderam?

As duas coisas mais importante são: a primeira é que nós somos uma alma e que nós temos um corpo; a segunda é que quando este corpo serve essa alma o que ele tem que fazer com o uso do terceiro chakra é cultivar a identidade espiritual na identidade cultural. Porque a identidade cultural vem com o que? Com o corpo, com a latitude e a longitude com as quais a gente se insere neste planeta. A identidade espiritual vem conosco do universo. É um despautério a gente colocar de lado, renegar a nossa identidade espiritual que é a mais perene. A mais ampla e a que mais constituiu as nossas experiências pregressas. E em detrimento a ela a gente escolhe uma identidade cultural, que é algo muito temporário. Cada vez que você vier para esta vida você terá uma identidade cultural. O que faz um Kundalini yogi ser uma pessoa dhármica é ela expandir a sua identidade espiritual ao máximo para que ela aceite todas as identidades culturais. Você admitir que é uma alma que tem um corpo, que você é uma identidade espiritual e que já morou em você várias identidades culturais é fundamental para você ser inclusivo nessa experiência de vida. Entenderam isso? Isso tudo se faz na associação do plexo solar com o discernimento, de como você é capaz de pegar os ensinamentos e traduzi-los para a sua vida.

Vocês serão testados como professores de Kundalini Yoga, se vocês serão amplos suficientes para não terem preconceitos. E o teste pode ser muito duro. Tipo um Eduardo Cunha aparecer no seu quintal e, mesmo sendo ele, se vocês se negarem, vocês não passam no teste. São em pequenos eventos em sangat que a gente testa se a nossa identidade espiritual é maior do que a nossa identidade cultural. E se eu estou aberto na minha identidade espiritual a acalentar e a receber todo tipo de identidade cultural, mas para isso eu preciso ter feito as pazes com a minha identidade cultural. Amanhã a gente tem o curso de formação começando e é isso o que a gente vai debulhar com eles em doze meses. Então vamos começar?

O teste sempre chega. Quem de vocês aqui não teve um teste duro? Se a gente tiver na presença dos ensinamentos do professor é sempre mais tranquilo. Fiquem atentos e não se deixem enquadrar em categorias culturais. O que um professor de Kundalini Yoga que ser é universal. Você está a serviço do que é mais nobre e universal possível, que é a ética. Mas se você passa publicamente a defender uma determinada posição que exclui outras, você se aprissiona numa identidade cultural. Você pode ser um ser político na essência da palavra, quando se define como aquele na defesa dos valores universais. Como professores de Kundalini Yoga, nós precisamos servir a todos. Indistintamente.

Não é fácil unir a identidade cultural à espiritual porque o corpo resiste a ser livre. Ele resiste muito a ser inclusivo. Na Era de Peixes era suficiente, se a gente queria se dizer inclusivo, a gente se rotular: “eu sou de esquerda”. Desculpa, mas isso não vale mais na Era de Aquários. Só denota mais prisão.

Kryia ministrado: Fortalecimento abdominal, Manual Kundalini Yoga?, p. 134

Meditação:

Tem uma frase do Yogi Bhajan que se aplica demais a essa meditação que vocês fizeram, que fala assim: “Você nasceu com uma cabeça e no topo do seu corpo. Cada um de vocês tem uma cabeça. Vocês não precisam ir para o centro da vila”. Como se a cabeça estivesse em outro lugar e vocês tivessem que ir lá para saber o que fazer. Não, a gente tem uma cabeça e a gente precisa saber o que fazer. O caminho da escuridão para a luz é o caminho, e qualquer escuridão e qualquer luz é a realidade. Nós, no nosso romantismo, tendemos a nos libertar somente quando estamos na luz, mas ninguém está na luz se não passar pela escuridão. E a escuridão é também parte do plano. Quando a gente põe isso na cabeça da gente fica mais fácil para realizar essa travessia.
May the long time sun shine

[Transcrição Hari Shabad Kaur Khalsa]

[GSK] Associando a alma ao coração

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 28 de agosto de 2015

[Gurusangat abre a aula.]

Nós precisamos ter uma tremenda confiança no cerne do nosso propósito para podermos servir no tempo e no espaço. E se formos vítimas de qualquer tipo de injustiça ou quando vocês se sentirem impotentes, a coisa que mais precisamos fazer é associar o coração com a alma. Por que o coração tende a… sofrer. O coração tende a levar tudo para dentro. Como se você sentisse um aperto. Mas o coração também é uma ponte. Muitas vezes, quando a gente sente uma aflição, angústia, ansiedade, impotência, percebam que são sentimentos que te encolhem, mas não são sentimentos que te dão raiva, não te levam para o triângulo inferior, são sentimentos que te levam exatamente para o coração. Se eles fossem para o triângulo inferior, você sentiria raiva, vontade de se vingar. Não. Esses que estamos tratando aqui são sentimentos que espremem o coração.

Quando associamos a alma ao coração, essa é a única chance que temos. A alma associa sentimentos de expansão a esses sentimentos que tiram a nossa força nos comprimindo. Como a gente traduz isso em termos não românticos ou não literários? Por que o kriya vai fazer uma associação do coração com a alma em termos práticos. Mas como a gente interpreta e entende isso? Precisamos encontrar algum elemento nessa conexão com a alma que transforma a sensação de encolhimento e de “murchar”.

Vocês sabem que a alma é capaz de liberar sentimentos que nos expandem. Por exemplo?

ALUNA: Gratidão.

GSK: Está certo, mas gratidão é um sentimento que se aplica quando você está impotente?

ALUNOS: Não.

GSK: Gratidão pode até ajudar, mas vai ser lá no final. No momento em que você está sentindo a impotência e a angústia, gratidão não é um sentimento que te tira do aperto e te fazer expandir. Qual outro sentimento que vocês conhecem que vem da alma e pode te expandir?

ALUNA: Alegria.

GSK: Não, alegria é uma emoção.

ALUNA: Respeito.

GSK: Respeito é uma qualidade ética que vem. Mas quando você está angustiada, o respeito também não vai ser um sentimento que te expande. Vocês compreendem isso?

ALUNOS: Sim.

GSK: Nós estamos dizendo da angústia e da impotência.

ALUNO: Fé.

GSK: Você leu meus pensamentos. Fé. Só tem uma qualidade que é capaz de te tirar daquela angústia – que é a fé. Não existe outra, é uma qualidade que vem da alma. A impotência só é transmutada com a fé. E o que é a fé?

A fé não é uma passividade, não é uma espera passiva. A fé como espera passiva é a definição de quem? Da religião. No Dharma, a fé não é uma espera passiva. A fé é uma espera ativa. Por quê?

ALUNO: Porque você se coloca como parte da esperança? Como uma plataforma para o outro e para o mundo.

GSK: Mas como você faz isso?

ALUNA: Ação?

GSK: Vamos voltar ao caso – o caso é de angústia e impotência. De uma pessoa se sentindo presa. A qualidade que tira a pessoa desse lugar é a fé. Fé em que, se não é uma espera passiva? A espera passiva é uma fé em quê?

ALUNOS: Num salvador, num Deus fora.

GSK: Eu sei que se vocês me disserem que é num Deus dentro, eu vou dizer “Sim!”. Mas como? Por quê? Então não vou aceitar respostas rasas. A fé ativa o que dentro de você?

ALUNA: A continuidade da sua missão e do seu propósito.

GSK: Isso é uma resposta correta, mas podem haver outras respostas. Mas essa resposta quer dizer que você deveria colocar mais peso no seu trabalho do que no seu encolhimento. Então você pode sofrer, pode ter caganeira, pode ter dor de cabeça, mas você tem de continuar trabalhando, você precisa manter o compromisso. A fé ativa é quando o sentimento de impotência não é suficientemente grande para te tirar do seu compromisso – ele não é grande porque você não o deixa ser, porque senão ele seria. A palavra fé, no Dharma, é idêntica a compromisso. Uma fé dhármica é um compromisso.

Aí entra uma segunda qualidade, porque se você se mantém no compromisso e você se sentiu impotente, o compromisso vai acabar te expandido. Então fica um residual do sentimento de um desejo de restaurar a honra, ou a justiça. Ficamos aguardando. O sentimento que faz com que a justiça seja feita também se relaciona à alma e ao coração – que é a qualidade da paciência convicta de que a verdade prevalece. Paciência convicta. E isso pode demorar vidas. Às vezes isso demora vidas para esse resgate ser feito. A conduta é como a que o Yogi Bhajan sempre teve: “Eu vou fazer meu trabalho, fazer o que tiver de ser feito e pacientemente confiar na justiça. Minha fé é que eu servindo meu propósito e sendo genuíno, a justiça será feita”.

Essa aula de hoje foi dada nos anos 1970, e uma das notas que ele fala nessa aula é que: “Todo ser humano que começar a andar no seu destino, no caminho existencial da alma, será confrontado e será acusado. Porque uma pessoa que é autêntica abala o lugar comum onde a massa se esconde”. Então vamos lá?

Kriya ministrado: Heart and soul  (Manual Transitions to a Heart-Centered World). 

GSK: É muito importante a gente entender, no Kundalini Yoga, o que é esse centramento no coração. Não é uma coisa romântica-emocional, mas sim ser capaz de experimentar de forma profunda os valores que residem na alma. E vocês podem treinar isso na comunicação de vocês – não percam a conexão com a alma quando comunicarem a partir do coração. Se vocês comunicam a partir da angústia ou da frustração de vocês, vocês se desqualificam e perdem a conexão com a alma. Toda vez que vocês se colocarem num lugar superior e colocarem o outro num lugar inferior, vocês nunca vão alcançar o coração do outro. Não há conversa assim. O outro vai te responder para te atacar e você vai responder para manipular, para se impor, nunca vai haver uma conversa. Você precisa saber se conter, saber pisar no seu freio. Vocês precisam ser um elo para compreensão e não para a punição do outro. E vocês escutaram um Shabad hoje que dizia:

Kirpan Gopal Gobinde – A sustentação vem com a compaixão e com a luz.

Sustentação é quando a compaixão se traduz em compreensão: Kirpan Gopal Gobinde. Assim se criam relações. Quando se associa Kirpan (compaixão) com Gopal (luz) para que haja Gobinde (sustentação).

May the long time sun shine upon you…

Sat Nam Wahe Guru

[Transcrição Hari Bhagat Singh Khalsa]

Você em tudo

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

(Fim da serie sobre Anand Sahib, o Shabd da Alma, dos arquivos do Sikhnet)

Você pode acompanhar nesta página o restante da tradução do Anand Sahib, e assim compreender mais profundamente este importante mapa da realidade humana. No total, este Shabd contém 40 pauris (passos), e Siri Singh Sahib Yogi Bhajan considerava os cinco primeiros a essência suprema de todo o poema. No primeiro pauri, o mapa norteia para o território da consciência, o professor. Encontrar o professor marca o fim de muita perambulação em vão. No segundo pauri, a mente inicia seu treinamento, aprendendo a se ver como parte de tudo. No terceiro, a abundância da Alma e o poder da força do espírito são descritos. Este território pertence a uma realidade além daquela do ego, e conduz para a profusa morada da alma, onde o som primal é tocado para segurança. No quarto pauri, uma realidade espetacular é descrita: a força do espírito não é privilégio de alguns. O Espírito é parte de tudo e vive em cada identidade. Neste pauri, somos conduzidos às terras onde intrigas mentais são dissolvidas liberando de nós grande tensão. Nós aprendemos a respeitar tudo com o auxílio do som que guia, o Shabd Guru. No quinto pauri, o segredo é revelado – o Som Sagrado, o Panch Shabd, Sa Ta Na Ma, ao ser entoado cria o ambiente divino e sagrado da alma em tudo, a inocência é novamente abraçada e a vida flui sem dor.

Mestre da Realidade Última, o que não viveria dentro de sua casa? Sua casa é completa. O que nos é dado é recebido. Permanecendo sempre num estado de admiração e apreciação por tudo que existe, seu Espírito se eleva dentro de nós e se torna nossa identidade viva. Quando seu Espírito em nós se torna nossa identidade ativa, então por onde andamos, em tudo que fazemos, ouvimos o Som que nos guia para casa. Mestre da Realidade Última, o que não existiria dentro de sua casa? (3)

Na dimensão da Realidade Última, seu Espírito vive em cada identidade. Esta verdade se tornou meu alimento. Na dimensão da Realidade Última, seu Espírito vive em cada identidade. Esta verdade me alimenta. Desta forma, toda fome e insatisfação desaparecem. Tranquilidade e paz passam a residir na minha própria mente. Todos meus desejos são satisfeitos pela presença desta Força. Que eu ofereça continuamente meu ser inteiro em serviço ao Professor que me leva da ignorância de minha mente para a luz da minha Divindade intrínseca. Através deste Professor todas as coisas importantes acontecem. Diz Nanak, escute vocês que vivem por sua pureza, disciplina e graça: guardem isso, amados – o Som Corrente corta as algemas do ego na mente. Na dimensão da Realidade Última, seu Espírito vive em cada identidade. Esta verdade tornou-se meu alimento. (4)

Onde os cinco Sons Sagrado do Panch Shabd tocam (sa-ta-na-ma), aquela casa torna-se auspiciosa. Qualquer casa que adote o Som Corrente, tocando-o artisticamente e com poder, tal casa torna-se uma casa auspiciosa. Através destes cinco Sons Sagrado, Você, Ó Divino Ser, nos auxilia no controle das cinco paixões e na superação da ilusão sedutora da morte. No começo dos tempos já havia sido decidido quando e como o Som Corrente, que corta o ego, deveria ser encontrado. E quando este momento chega, nós nos tornamos um contigo dentro de nós. Nanak diz, então, dentro de tais casas, uma profunda e relaxante calma irrompe. E você, Ó amor, toca o Som Silencioso, o som além de todos os sons, e causa e efeito cessam e a vida desdobra-se naturalmente sem uma única palavra. (5)

Wahe Guru.
Belo Horizonte, 10 de setembro de 2014.

8,4 milhões de vida!

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

A trajetória de nossa alma é longa. Do momento que fomos projetados pelo sopro incognoscível do Infinito ao colo duro e atraente da vida na Terra muito aconteceu.

A alma, essa projeção concreta de Deus, viajou por 8,4 milhões de experiências para alcançar a forma humana. Assim está escrito em várias tradições, inclusive no Siri Guru Granth. Não é, portanto, de se admirar que o Guru Arjan, ao criar o projeto arquitetônico do Golden Temple, o tenha feito com uma ponte que liga o mundo das perambulações e emoções ao centro do coração (o templo em si), através da qual se caminha, em média, 84 passos. Cada passo exponenciado à grandeza de um milhão de vidas.

A alma inaugura-se no firmamento terrestre como partícula dura, mineral. Nesta forma, ela não se comunica, sequer se manifesta. Apenas se entrega ao jogo infinito da vida, na espera paciente do tempo, para que com a Graça de Deus, ela seja incorporada, após dissolvida de alguma maneira, nos tecidos tênues, delicados e comunicativos dos vegetais.

Como vegetal, ela não vegeta! Neste reino, surgem as primeiras formas vívidas de comunicação com o meio e com os seres mais altos na escala evolutiva. Dentro de uma planta, a alma pode se manifestar através da psique daquele ser. Ela responde, mas ainda totalmente presa na forma com que o vegetal responde ao meio. Se este é hostil, ela com o tempo sucumbe. Se minimamente adequado, ela responde com exponencial amor e vida. A vida insiste em viver a partir do reino vegetal.

Não sabemos como exatamente esta passagem é feita, mas uma coisa sabemos, com a Graça do Arquiteto do Universo, o momento chega em que aquela alma experimenta a vida animal. Um grau de liberdade e interação maior é adquirido. Porém, as algemas ainda são colocadas, o que impede a alma de se comunicar com a mente de forma a criar um pequeno espaço de liberdade para que esta se manifeste em sua forma original. O animal, embora mais solto para fazer escolhas, ainda se prende às condições do meio. Ele ainda depende totalmente da benevolência e do amor dos seres mais evoluídos.

Quando a alma, após incansáveis 8,4 milhões de vidas e mortes, consegue mérito suficiente para experimentar a vida humana, já não era sem tempo!

No espaço sagrado da constituição física e psíquica humana, a alma pode finalmente se libertar do grilhão que lhe tolheu a liberdade durante todo o tempo despendido nas formas anteriores, e agora ganha acesso privilegiado à consciência humana.

Porém, muito há de ser feito para que o ser humano consiga entender sua jornada e superar os arquivos que conforma seu comportamento, para que os instintos puramente animais sejam domados, e o medo e a insegurança superados.

A conversa entre alma e psique é notória, marcada por conflitos e crises. Sem elas jamais teremos a chance de olhar bem fundo para dentro e alcançar a dimensão e potencial de nossa vida enquanto seres humanos. É nesta relação que desvendamos nosso destino e finalmente conseguimos existir para além dos condicionamentos impostos pela biologia e pela cultura.

Quando a alma é escutada, nascemos de novo para uma vida criativa, autentica e livre!

A alma torna-se o guia, e a primeira lição a ser aprendida é: “o relacionamento tem um compromisso, e o compromisso tem um relacionamento”, como disse Yogi Bhajan.

Fique ligado para essa conversa na próxima semana… Até lá, paz em tudo e por tudo.

Wahe Guru.

Belo Horizonte, 7 de Agosto de 2014.