[GSK] Filhos e filhas do Dharma

por Gurusangat Kaur Khalsa

Nos registros sagrados da experiência humana, encontramos raramente o exemplo e testemunho de humildade e realeza como em Guru Gobind Singh. Para os Gurus Sikhs e seus alunos, a humildade é uma virtude vista e exaltada como um marcador divino. Sua mensagem universal transcende culturas e gerações e sua métrica ilumina o universo de fés, com um pulso que corta através de todos os dogmas exaltando sempre a presença divina em tudo, indiscriminadamente.

Guru Gobind eletriza as massas indianas do século XVII e as convoca a rejeitar costumes arraigados em modelos socioculturais excludentes e escravagistas, e práticas políticas que, combinadas à religião, ceifavam a dignidade humana e a livre identidade pessoal. Seu chamado era para a causa de defesa da honra, sacralidade e herança história da terra natal e de sua libertação das agruras dos ocupantes sanguinários muçulmanos, que contra todas as normas civilizadas, abertamente, violavam o direito da existência livre e soberana de todos indivíduos.

O Guru desafiou cidadãos de todas as fés e segmentos: (1) à Liberdade; (2) ao fim da injustiça e perseguição religiosa; (3) ao fim ao reinado político do terror; (4) ao fim dos governos autoritários e seu impiedoso zealot (zelo fanático); (5) à organização da autodefesa e garantia da educação e cultura a todos, como parte do direito sagrado da existência humana.

Guru Gobind entendeu a gravidade e a urgência dos tempos, os quais exigiam que as algemas do medo fossem quebradas para que as pessoas desmoralizadas e inferiorizadas pudessem resgatar a força interna e restabelecer a paz perturbada e a ordem social ferida por séculos de domínio muçulmano. Para que isso fosse possível, ele criou o Khalsa, uma Ordem dos puros de coração e mente para preservar o Dharma. Ele os batizou e os transformou em destemidos guerreiros e guerreiras da paz, com a missão de lutar por inocentes aterrorizados pelos poderosos exércitos do Imperador Mongol e pelos Rajputs, os reis indianos.

Em sua autobiografia, ele escreveu sobre o papel dos Khalsa: “para estabelecer e preservar o Dharma e eliminar o mal pela raiz. Rejeitar todas as divisões de casta, credo, etnia, nacionalidade e gênero. Dar um testemunho honrado aos Ensinamentos do Guru Nanak e seus nove sucessores. Sustentar e compartilhar a liberdade: de vida, de direitos e da dignidade humana. Defender a justiça, promover a paz, estender a boa vontade a todos os filhos de Deus. Liderar pelo exemplos e com a verdadeira compaixão, que transcende todas as barreiras criadas por homens que separam e dividem. Rejeitar diferenças e indiferenças que segregam e separam os seres humanos de Deus e um do outro. Meditar (Nam-Simran) no Nome de Deus e viver e honrar as lições do Dharma. Servir sem distinção, proteger, preservar e ser anjos de toda a Criação. Trazer honra para toda a humanidade e para Deus que sabe e vê todas as coisas. Manter Deus no centro de nossas vidas e se submeter à Sua Vontade em humildade e graça”.

Nestes tempos de grandes conflitos religiosos e morais, de corrupção e destruição, de abundância, de avanços científicos, mas também de grande medo, de covardia, de abuso de autoridade, de assaltos à cultura, à fé, à minorias étnicas, de assalto ao sagrado dos povos indefesos indígenas, enfim, nesse nosso tempo, o legado do Guru Gobind Singh pode ser útil e também uma esperança:

“(1) unam-se para causas maiores que vocês e abandonem seus interesses pessoais;
(2) construam um mundo livre de preconceitos e violência;
(3) dêem forma a um mundo ancorado na coexistência pacífica e responsabilidade compartilhada;
(4) guardem e preservem os bens coletivos como um direito da soberania universal;
(5) tenham em mente um mundo onde as iniciativas e possibilidades sejam para todos;
(6) imaginem um mundo onde a vida e a liberdade dos direitos inalienáveis do ser humano floresçam em segurança;
(7) que nossas paixões criativas sejam guiadas pela abertura do espírito e paz;
(8) que cada um esteja assegurado e reconhecido como uma parte fundamental da humanidade;
(9) quando o mal assumir sua forma e devastar o espirito humano causando medo, morte e destruição, então é necessário uma atitude corajosa de se levantarem contra a tirania usando as forças apropriadas da justiça e da diplomacia.”

São suas palavras ainda que “nós precisamos juntos tecer o tapete onde os tesouros da nossa humanidade encontrem uma recepção amiga e cada painel sagrado de nossa herança encontre um lugar seguro na magnificente completude de nossa cultura”.

Nós precisamos descobrir, apreciar e preservar os fios divinos que nos conectam e que nos colocam em cruzamentos inimagináveis, multiplicar nossas forças e bênçãos através do trabalho em solidariedade a outros encontrando respostas para as questões críticas de nosso tempo. Quando nos colocamos com este espírito universal, quando todos se mobilizarem com boa vontade para a causa universal, aí haverá a manifestação da Luz de Deus, antiga sabedoria, bênçãos de veneráveis mentores, almas iluminadas que guiarão a humanidade para uma civilização mais esperançosa e humana.

Sat Nam Wahe Guru

Kundalini Yogis dos Andes

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Museu de Arte Contemporânea de Salta. Em uma de suas mesas de calçada, à moda argentina dos cafés, aprecio o vai e vem dos “saltenos”. Os anos dourados do país estão perfeitamente preservados em seus museus, hotéis, galerias e restaurantes ao redor da grane plaza central. Poderia ser certamente Paris se não fosse os traços inconfundíveis do colonial espanhol.

As pessoas parecem desconsiderar qualquer importância que teriam meu turbante e minha Bana índigo blue, o que me faz sentir, ilusoriamente, como uma outra qualquer. Você pode imaginar, não pode? A discrição dos argentinos me agrada bastante. Depois de cinco dias no alto das montanhas silenciosas e majestosas pré-andinas, em um lugar chamado Cachi, este vai e vem de carros e gente me agrada e reforça meu sentimento de que há beleza em tudo e que cada coisa carrega a força de sua própria identidade.

Quando Guruteg Bahadur Singh, lá em Bakala, meditava na imensidão do desconhecido e projetava suas orações ao ocidente, muitos da época não entendiam. Por que rezaria um Budsatwa da sua magnitude voltando-se para a direção dos intocáveis estrangeiros? Em sua serenidade constituída por uma profunda certeza, ele respondia simplesmente “é lá que encerra o futuro do Dharma”.

Não sei porque ainda me surpreendo ao visitar estes cantos mais remotos das Américas, encontrar neles a gente que se referia o Guru. Sim, os yogis do Dharma estão mesmo nascendo nestas terras distantes, as terras do por do sol…

Os yogis chegam de todos os lugares e a sala vai se enchendo de caras totalmente desconhecida que carregam um sorriso sincero no rosto e uma enorme gratidão no coração. Eles se assentam e olham para mim e se encantam com tudo que vêm e escutam. De meu lado, me entrego a servi-los do que há de melhor neste Dharma e Ensinamentos. Há uma empatia, e tudo flui naturalmente e nos embala como o colo de uma mãe sábia e poderosa que não se abala com nenhum desafio. Os Ensinamentos os alcançam e eles saboreiam, e eu me encho de bênçãos e gratidão. Para muitos, provavelmente, este será nosso primeiro e último encontro, mas há nos olhos de todos um apelo para mais.

O tempo se encarrega de transformar tudo e tornar tudo real. A única coisa que não é engolida pela língua ávida do tempo é a intenção do coração de quem experimentou um encontro sincero. Se este coração é de um professor, então sua oração tem poder e nela são envolvidas todas as criaturas que por um instante fizeram parte da eternidade de um encontro de amor.

Que todos os seres sejam abençoados a caminhar em seus destinos e que nesta jornada eles todos encontrem a presença encorajadora e luminosa do professor.

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 27 de novembro e 2014.

O cheiro do meu corpo

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Quando a brisa entrou pela porta da varanda, eu estava sentada fazendo minha sadhana. Aquele sopro me envolveu por inteira, batendo suave no meu rosto e me fazendo sentir um perfume suave vindo de mim. O perfume de uma yogini, pensei com uma pitada de orgulho, admito. Aquele aroma despertou em mim uma miríade de sentimentos e recrutou de minha memoria várias passagens de minha vida.

O cheiro doce e pungente da minha identidade moldada pela força de Deus em meu destino e por minha determinação de abraçar meu propósito. Eu sou um milagre! Poderia ter dado tudo errado, mas parece que está funcionando, pensei.

E a brisa continuou me soprando detalhes da vida. Eu tive imensa gratidão. Tudo tão belo e perfeito! Wahe Guru! Quantos anos não estão ali contidos? Quantos amrit velas? Quantos ishnans e quantos desafios? As águas geladas do Engenho, o delicado esfregar da pele com o óleo de sândalo que me traz à mente a presença maravilhosa do meu Professor. Esse era seu óleo preferido. E aquele espelho enorme servindo ao meu olhar para investigar tudo. Um dia ele disse: “uma mulher deve ser capaz de se olhar nua no espelho e se admirar”. Eu sorri e balancei a cabeça em sincera concordância e pensei – algumas vezes isso é tão difícil…

Eu posso escolher e escolho me entregar ao Infinito. Ouvir o Infinito sempre foi desafiador e maravilhoso ao mesmo tempo. A conversa com Deus é preciosa porque Deus é sempre tão vasto, tão universal, tão livre e tão inconvencional. Que aprendizado!

Meu cheiro contém tudo: dores que passei, injustiças que suportei e presenciei, as mentiras que contei, como me enganei…! Mas também este perfume de yogini me conta das vezes em que, apesar de tudo, não me retirei, não fingi, mesmo quando o momento propiciava ou mesmo quando claramente burlei e, por mais difícil que seja admitir, ainda assim, me rendi. Talvez soubesse que não havia outra saída ou talvez soubesse que, se houvesse uma outra, ela seria mais dolorosa e longa do que encarar meu erro com dignidade. Quanta coragem o Guru me deu e eu nem sabia que já andava sob sua proteção… Como é inspirador olhar tudo isso à distância!

Posso dizer que vivi com sinceridade cada força e cada fraqueza. Assim, porque milagres existem para aqueles que criam, eu cheguei aqui onde vocês estão. Eu sou uma yogini, uma professora, uma khalsa e me sinto em paz.

O cheiro da manhã em meu corpo é como o Amrit Sanchar* –  a lâmina de aço penetrando sem parar o néctar; a mistura se transformando em uma substância que desperta, em quem a recebe, compaixão e destemor, elegância e vontade. Esse meu cheiro revela tudo sobre por que estou aqui.

Toda a fúria de uma mente guerreira, ansiando pelo justo e pelo belo se aplaca na calma constatação de que, para a alma, tudo flui com a inteligência que floresce e transcende o cotidiano. Estar no Dharma não faz ninguém maior, apenas confere uma força de viver como se deve, cada dia como ele chega. Algo tão simples que parece banal.

Eu sou o que sempre quis ser e tudo dependia só de mim. Eu mesma escolhi vagar, eu precisei vagar? Não sei. O que sei é que estou chegando onde queria, onde sonhei, e era verdade: tal lugar existe!

Este é um momento decisivo para a transição de eras, de modelo de pensar, de modo de agir, de forma de negociar, de modo de servir à consciência do outro. É o fim da exploração, fim de enganos e manipulação. É o começo de uma era na qual poderemos usar da inteligência humana a serviço da grandeza do Espirito Universal.

Conto com as orações de vocês pois agora a batalha terá inicio. Cada pensamento de elevação vindo de vocês fará a diferença. Sintam seu perfume, admirem-se diante do espelho e vivam para florescer no outro sentimentos de paz e esperança, coragem e determinação.

[Escrito pela autora desta coluna em 20 de setembro de 2009, por época em que o Conselho Diretor do Sikh Dharma Internacional, da qual ela é uma das diretoras, entrou na justiça norte-americana contra o esquema de corrupção corporativa que colocava sob risco o Legado material e espiritual de Yogi Bhajan. Este processo foi concluído em 2012 dando vitória plena aos Conselheiros!]

* Amrit Sanchar é a cerimônia de batismo no Dharma

Amor e bênçãos,

Wahe Guru, Sat Nam