A melhor escolha

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Eu nunca me cansarei do meu trabalho como professora do Kundalini Yoga. Como cientista de carreira, esta Tradição me oferece todos os meios para investigar um dilema, um problema ou um empasse sob seus vários ângulos psíquicos, físicos e espirituais. Os mapas do Kundalini Yoga foram emprestados do Sikh Dharma, e isso é ainda mais envolvente e espetacular – sobremaneira, o fato dessa cartografia do século XV ser ainda tão atual e servir para, inclusive, perscrutar e planejar o futuro ainda muito distante.

A educação, sem dúvida o elemento mais fundamental para nossa sociedade se erguer da desesperança e caos social, é um desses muito bem traçados mapas. Guru Nanak expressa a importância que dá ao professor: “Se centenas de luas no céu despontassem e milhares de sóis aparecessem, mesmo com tamanha luz haveria apenas breu sem a presença do Professor (SGGS p. 463). Qual seria a razão desse reforçado enaltecimento ao professor e ao seu papel educador? A resposta é simplesmente fenomenal.

Venha comigo entender a figura abaixo. Ela explica muito bem do ponto de vista da neurologia algo que é para o Kundalini Yoga o pilar do nosso trabalho.

 

 

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Os seis primeiros anos de vida, a contar da gestação, são fundamentais para a formação de uma identidade livre, soberana e criativa. A criança nestes primeiros anos sofre absoluta influência do meio porque seu cérebro, como uma esponja, absorve e registra todas as experiências tanto na família quanto fora dela, sem nenhum filtro. Neste período, criamos um sistema de defesa subconsciente, um programa muito poderoso, que ficará ativo pelo resto de nossas vidas guiando a maneira que respondemos aos desafios e o modo que processamos emocionalmente a vida.

Da gestação até os 2 anos, o cérebro da criança funciona apenas com a onda do subconsciente, ou seja, ele registra tudo de modo passivo. Dos dois anos até os seis anos, ela acrescenta à absorção subconsciente, a imaginação. A atividade de uma onda que permite uma consciência primária acontece apenas a partir dos seis anos, e a consciência só surge a partir dos 12 anos.

Isto revela algo muito importante: todo ser humano cria seu programa básico subconsciente nos seis primeiros anos de vida e se quisermos ajuda-la a criar uma identidade forte que não se sustente sobre pilares do medo, complexos de inferioridade e insegurança, precisamos investir na educação que saiba o que fazer neste período fértil.

Educar a família sobre a questão é também um desafio que esta escola não deveria se negar. Trabalhar com a criança nestes primeiros anos fará com que ela na vida adulta não tenha que se apresentar ao mundo de modo violento, ou em fuga de si mesmo, por não ter aprendido a apreciar sua origem e, principalmente, não ter aprendido a se fortalecer em sua essência com valores nobres e éticos que a acompanharão vida afora.

A Escola que precisamos nesta fase não é aquela que oferece apenas momentos lúdicos e entretenimento, mas aquela que entende profundamente a mente, a psique e o modo de utilizar métodos para auxiliar na educação destes futuros adultos.

A Escola Miri Piri Brasil utiliza precisamente recursos pedagógicos para cumprir esta tarefa com excelência. Além da metodologia clássica cognitiva, a utilização da Arte Marcial, do Kundalini Yoga, da Humanologia, da Música e das Artes fazem do programa educacional desta Escola algo espetacular para lidar efetivamente com a criança e a formação de sua identidade.

Miri Piri utiliza os mapas da cartografia da consciência traçados por clássicos mestres para educar a criança e ajudá-la a se tornar um Ser Humano completo, livre, criativo e soberano.

 

Wahe Guru.

Belo Horizonte, 12 de novembro de 2014.

 

Os tolos e seguros

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Este final de semana nossas crianças partiram para a Índia, sozinhas!

Há um ano estávamos todos no aeroporto nos despedindo delas com o coração na mão, mas cheios de fé. Foi nossa fé que as motivaram e foi nossa fé que as entregam novamente ao desconhecido. Neste ano, três outras se juntaram aos primeiros quatro rapazes, e eles decidiram seguir por conta própria. Puro destemor!

A jornada destas crianças me fez pensar muito sobre os adultos que não tiveram uma chance como esta. Cada ser humano nasce com um contrato de alma e muitas vezes, se não na maioria, jogamos fora cada precioso momento de existência sem sequer esbarrar numa dúvida importante – para que serve minha vida?

Como momentos de crise são críticos e ninguém gosta de sofrer, organizamos uma maneira de escorregar por entre as ruelas de nossas dores e dúvidas, para aterrissar novamente num suposto território da “alegria de viver”. Não é raro ver pessoas envoltas em “muitas coisas” e ter nisto a dose necessária para se anestesiar contra as incisões impiedosas da lâmina de nossa própria consciência.

As crianças brasileiras que estão vivendo esta aventura na Índia estão em busca de realizar seus destinos. A Escola da Índia ou a nossa Escola aqui no Brasil não é, em hipóteses alguma, o destino delas, como alguns apressadamente podem pensar. O destino delas está escrito em cada uma de suas testas, e deve ser decifrado por elas e isso requer treino. A Escola Miri Piri é apenas o meio pelo qual esse trabalho pode ser feito. Seria tolice pensar que a Índia seria o destino. Não, é o meio.

São poucas as crianças que podem ter o privilégio de obter, ao alcance de suas mãos, o modelo de educação de Miri Piri como meio. Nesta Escola, as crianças são treinadas para se identificarem, se conhecerem e se projetarem sem medo de serem quem são. Elas são treinadas para não temerem suas dúvidas e, nem tampouco, se prenderem a elas. Meios lhes são dados para que elas alcancem uma profunda relação entre suas vidas e o mundo cheio de contradição e arestas que lhes acolheu. Estes meios lhes possibilitam viver de  forma responsável e criativa, sem medo do amanhã e também lhes servem para se libertarem do jogos de sedução na busca de segurança e aceitação. Estas crianças aprendem a se valorizar além do corpo. Elas aprendem a valorizar o corpo como meio de expressão da força de seu espírito. Elas aprendem que seus valores precisam ser vividos e colocados em prática para que haja paz e justiça no mundo. Mas isso não acontece se elas não aprenderem a olhar para o lado, radialmente, e reconhecerem o seu entorno e agirem nele. Elas aprendem a arte de estabelecer e usar seu espaço sagrado para se projetarem a partir dele de forma única, radiante e efetiva no mundo. Elas se tornam  serem humanos concretos, e não tolos e fúteis mamíferos em busca de conforto e segurança fácil. Pessoas medrosas que desperdiçam suas vidas buscando segurança em formas rotas de relacionamentos, os quais moldam identidades cindidas, preconceituosas, que projetam dúvida na liberdade do outro.

Nossas crianças atravessaram mares e terras distantes para se assentarem soberanas na propriedade do Guru Ram Das. Elas foram abençoadas com uma estrela na testa. Elas não serão poupadas do confronto, pois elas colecionam seus pequenos traumas, muitos deles herança da inconsistência de uma sociedade de adultos infantis, comocionais e frágeis. Mas, neste confronto reside a lição maior de suas vidas, e sabendo que elas estarão protegidas e cuidadas, me sinto aliviada. Elas estarão no amor e no valor de professores que sabem que têm nas mãos a vida do futuro. Elas estão amparadas, porque  terão em mãos os Ensinamentos de Mestres que reconhecem que o destino de cada ser humano é único e cada ser humano é soberanos para retraçá-lo e percorrê-lo.

O traço do destino é uma matéria do currículo de cada aula de Miri Piri. Vocês sabiam que o traço do destino está presente no exercício diário das crianças, fora e dentro da sala de aula? Sabe por que? Porque a vida fora da escola não escolhe lugar para testar seu conhecimento acerca de seu destino. Porque não existe outra escolha para quem quer ser feliz a não ser caminhar, com as próprias pernas, o caminho escolhido pela sua própria consciência.

O que será o futuro destas crianças? Não podemos dizer. Mas, seja lá o que for, precisamos garantir agora que elas tenham tudo que precisam para traça-lo. O mais importante é lhes garantir que aprendam a serem fortes e claras para distinguir o certo do errado, sábias para colocarem em prática aquilo que sua experiência lhes ensinou, e divinas para discernirem o caminho extraordinário do ordinário, e seguirem com suas vidas de forma a fazerem sentido para si.

Assim, elas poderão evitar cair na armadilha surrada do mundo dos adultos, que para se sentirem seguros precisaram abrir mão de sua originalidade e acabaram se tornando tolos. Os tolos e seguros. Quanto tempo ainda este mundo se sustenta nas mãos de adultos tolos e seguros?

Acho que nossas crianças estão nos mostrando muito bem o caminho para sair desta tolice e abraçar a segurança viva de serem elas mesmas, livres, soberanas e maduras.

 

Wahe Guru, Sat Nam.

 

 

Belo Horizonte, 19 de agosto de 2013.