[GSK] Sofisticando sexualidade e espiritualidade

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 7 de abril de 2017

[GSK abre a aula]

O nome da aula de hoje é “Sofisticando a sua sexualidade e a sua espiritualidade”. Isso não tem nada a ver com você eliminar a sexualidade. Esse título, dado pelo Yogi Bhajan, quer dizer que toda manifestação nossa na vida, seja através da palavra, da comunicação, seja absorção através do olhar, sejam os filtros que a gente coloca para absorver a realidade, seja a nossa percepção seletiva, quando você tem isso tudo, mas é pouco requintado ou é apenas filtrado pelo seu ego. Essa manifestação nossa na vida e a absorção nossa da vida em nós diz respeito a uma energia ainda muito pouco refinada, pouco sofisticada da sexualidade.

A energia sexual é uma matéria, uma força pouco lapidada. Quando nós requintamos essa energia dita sexual, e fazemos dela algo sofisticado para absorver o mundo e nos manifestarmos no mundo, essa energia se transformou, de uma pedra bruta, apenas destinada à reprodução, para uma qualidade dessa energia muito sofisticada, que é a espiritualidade. Não tem a ver com eu conter minha energia sexual, e eu experimentar apenas essa energia do ponto de vista espiritual. Isso não tem sentido, não se pode explicar isso. Como você explica o ser humano que é capaz de fazer sexo de modo absolutamente requintado, sofisticado. A energia sexual está lá, só que ela foi transmutada, deixou de ter uma qualidade bruta para ganhar uma qualidade sofisticada. Essa sofisticação tem a ver com a maneira que você põe o mundo para dentro e como você projeta você mesmo no mundo. Não é abstrair, mas absorver.

Se você estiver vibrando muito numa energia pouco sofisticada, como é que você vai colocar o mundo para dentro? Você vai tirar das experiências que você tiver no mundo aquelas que respondem às suas necessidades. E no Kundalini Yoga, a nossa missão é sair desse humanismo dos anos 1960 e 1970, em que se dizia que a coisa mais sagrada é o ego, e a coisa mais importante é acabar com o altruísmo, porque ele é a negação da felicidade de si próprio. Nietzsche falou disso. Quando uma cultura está morrendo, alguns, na agonia dela, tentam exacerbar, tentam reacender o vigor daquilo, mas já está acabando.  Quando a nossa percepção é tal que a gente só tira, só seleciona do meio aquilo que serve a nós, nós estamos vibrando numa energia pouco refinada, pouco sofisticada da realidade. A gente gostaria de transitar por esse lugar para vocês compartilharem com seus alunos que a felicidade humana, a liberdade humana está justamente em nós sustentarmos os valores coletivos, é servir ao outro. Nesse sentido, Kundalini Yoga é totalmente anti-humanista. Por favor, entendam o que eu estou falando. Não é acabar com a humanidade. O ápice dos  valores humanistas é o ser humano, de tal modo que é o ser humano para si, e nunca para o outro. Eu trouxe uma frase que é para vocês entenderem o que eu estou falando. A filósofa norte-americana Ayn Rand diz: “Considero o altruísmo maléfico. O homem deve pensar apenas por si próprio e para si próprio. O altruísmo é imoral porque manda amar todo mundo sem discriminação. Devemos amar apenas aqueles que merecem”. Isso se assenta numa moral religiosa muito fortemente. Quem determina quem merece?

Nós do yoga queremos fazer o trabalho que é justamente o contrário. Queremos amar especialmente aqueles que não merecem. E esse modelo de amar só quem merece vigora na psicanálise, nas políticas, na ideologia, em todos os tecidos sociais. Por isso que nós somos muito esquisitos, porque falamos contra isso, usamos turbante, andamos de bana. Mas nós somos a esperança da Era de Aquário. A gente precisa fazer uma revolução. Vocês precisam estar preparados. E essa aula é para inspirar vocês a terem conexão e não olharem o mundo a partir dos seus filtros pueris, infantis, pequeno-burgueses: minha casinha, meu carrinho, minha escolinha, meu filhinho, minha mamãezinha, meu paizinho, meu namoradinho. A gente precisa olhar para o mundo e ver o mundo, estar no mundo, senão vamos ter mortes agonizantes demais. É isso que nós temos de fazer. Essa que é a esperança. Por isso que eu me coloco aqui para vocês, nessa falação. É para ver se, pelo menos quando a gente se encontra na sexta-feira, a gente reordena nossos valores e vai para o mundo tendo mais compaixão. Agora, por favor, vocês não podem selecionar por quem vocês vão ter compaixão, e muitas vezes a experiência de vocês vai levar para o seu quintal o mais abjeto. E aí o que vocês vão fazer com o abjeto? Chutar? O teste é como amar o abjeto, que não tem separação. Eu quero pedir a vocês professores, que estão ficando muito famosos, vocês têm mil alunos, vocês dão mil cursos, falam em todo lugar… Vocês precisam se lembrar que vocês são os professores, vocês não são donos de ninguém. Vocês precisam dar o exemplo, vocês precisam servir, vocês precisam se colocar na base disso tudo. Por isso que a gente precisa de um lugar para render a cabeça. Vocês não são donos de ninguém. O máximo que vocês podem fazer é colocar as coisas corretas à disposição, e a pessoa ainda assim tem de escolher. Isso também é uma forma de amor. Especialmente quando a pessoa escolhe aquilo que você não considera o que deveria ser.

Aula passada eu estava falando para vocês sobre as altas taxas de suicídioa. Nós estamos diante de uma situação em que a densidade é quase tangível e vocês são o farol, vocês precisam se manifestar na vida como o farol, vocês precisam estar disponíveis para se colocar fortemente. Vocês entendem que você tem de fazer a sua parte bem feita, mas a decisão soberana ainda é do outro e você só pode rezar, que é o que a gente vai fazer, rezar. Vocês não são a bússola das pessoas, vocês não vão pegar essa pessoa, rodar e fala para ela: vai por aqui. Vocês não vão fazer isso. Vocês são apenas aqueles que servem à navegação daquela pessoa. Suicídio é um caso extremo, mas vocês viram bússola das pessoas por causas muito pequenas. Todo tipo de assédio é você virar bússola da pessoa. É quando você pega aquela pessoa e fala: “não olha para aquilo não, olha para mim”: assédio! Ainda mais um assédio vindo revestido da moral pseudocristã: “eu sou a sua salvação, eu sou o caminho e a luz”. “Eu, vem pra mim”. Não podemos fazer isso, não podemos fazer com que as pessoas façam aquilo que a gente quer que elas façam, porque não temos a menor noção do que elas precisam. Do extremo da pessoa precisar ter um probleminha ao extremo da pessoa precisar acabar com a própria vida para ela talvez experimentar esse inferno. O pior professor de Kundalini Yoga é aquele que se veste com aquele manto santo e apodrecido do “eu sou a sua salvação”, querendo apenas ter um interesse. Gancho em todo mundo, como disse o Yogi Bhajan, no curso de Comunicação Consciente. Muitas vezes nossa posição vai ser dura e árida porque muitas pessoas procuram a gente querendo ouvir: “eu sou a sua luz”. Se vocês não estiverem fortes em si, vocês vão caminhar para aquilo que estão te oferecendo e aí você se engancha.

Kriya: “Sofisticando a sua sexualidade e a sua espiritualidade”, do manual Self Knowledge

Meditação: “Removendo medo do futuro”, do manual Self Knowledge

Se vocês tiverem pessoas em grande desespero ou partido através de suicídio, o mantra Dhan Dhan é o mais indicado. Vocês podem entoar ou colocar para tocar. A única coisa que me fez de novo a voltar para o meu centro depois de tudo que eu vivi foi uma prática que eu fiz de 62 minutos com esse mantra. Eu quero dizer para vocês que no curso do Japji que vamos ter em junho, nós vamos poder falar das yugas, porque tem uma era em que o ego foi para o altar, que é a Kali Yuga. Nós já saímos da Kali Yuga. Nós vamos estudar isso com o Guru Nanak. Mas vocês sabem que quando a gente transita de um estado onde essa cultura amadureceu por quase cinco mil anos – é muito tempo, que nós tivemos sob a influência dessa cultura – é muito comum ainda entrarmos uma nova cultura trazendo todas as maledicências da anterior. Nessa nova sociedade que a gente está para criar, nesses novos tempos, se a gente se basear apenas nos desejos do nosso ego, nós jamais vamos criar uma civilização com cidadãos, a gente vai sempre criar consumidores.

A gente tem de colocar a alma como referência. Vocês contemplem essa possibilidade de colocarem em prática na vida de vocês para não ficarem muito tempo fingindo, só dando aula. Ponham isso em prática para vocês acelerarem essa mudança. Ninguém se realiza no ego. A gente só se realiza na alma. E a cultura leva a gente a pensar assim. Existe um artigo científico na internet muito bom que se chama “O cérebro de um suicida”. Está em inglês. São estudos do Canadá que mostram que o que sai do cérebro do suicida é uma neurossubstância chamada Gaba, e a gente produz demais, nosso cérebro é cheio de Gaba. E essa substância é que tira a gente da depressão quando o meio é muito inóspito. E no cérebro do suicida não tem Gaba, e a falta de produção dela é epigenético, ou seja, não é determinado no gene, é determinado pelo meio. E normalmente isso vem da mãe, dos anos formativos. Quando você já recebeu da mãe, na sua amamentação, “ai, o que é que eu estou fazendo no mundo…” e você ainda você está em uma cultura que só enaltece sua realização pessoal e ter sucesso, isso é potencializado. É isso que nós temos de reverter. Enquanto houver um ser em sofrimento, nós não temos sucesso, não é possível eu ter sucesso. É isso que a gente tem de reverter e trabalhar para que seja mudado.

O Brasil nas estatísticas está competindo no quinto lugar como país mais depressivo. Existe uma forte onda depressiva. Quem acha que está fazendo um grande bem em fazer o movimento para acirrar ainda mais essas divisões precisa sair desse lugar e compreender o macro, porque nós vamos embora, estamos morrendo. Talvez esteja chegando o momento de a gente compreender muitas coisas. Sábado faremos um pequeno Gurdwara para criar esse contraponto. A gente está querendo criar entre ao Gurdwaras mensais um pequeno Gurdwara para fazer o contraponto, porque a frequência está muito ruim e pesada. Para ajudar nesse contraponto, os católicos têm a oração de São Francisco que abre o campo de prana para o coletivo, e tira a gente do medo da morte e do medo da perda. Vocês do Kundalini Yoga podem entoar o Dhan Dhan, que é excelente. Abre o espaço, ele traz muita compaixão e esperança. O suicídio nunca é um passo necessário para o desenvolvimento da alma. Se acontecer é o famoso escorregão. A gente tem de tentar tirar da pessoa a ideia do suicídio. Só lembra que ninguém retira uma pessoa suicida do processo só rezando e dando floral de Bach. É necessário um psiquiatra. Homeopatia tem limites, a medicina ayurvédica tem limites. Tem um limite, um ato que você não vai poder impedir, mas o que a gente puder trabalhar para restaurar a saúde, a gente deveria fazer, mas nem sempre é possível. O prana que foi dado para a gente é para cumprir nosso propósito. E se a gente vai antes, tira a vida antes, não cumprimos o propósito e ainda ganhamos outro, que é ter que pagar por essa consequência. Então, tudo é ótimo, inclusive aquilo que vocês acreditam que não seja ótimo, como, por exemplo, medicação. Tem caso que necessitam de medicação.

May the long time sun shine upon you…

[Transcrição Sada Ram Kaur]

Sexualidade e espiritualidade

por Guru Sangat Kaur Khalsa

“Espiritualidade não é apenas a porta para o templo;

mas é o aprender a viver dentro do templo” I Coríntios, 3:16-17

Yogi Bhajan define espiritualidade de uma forma simples e, ao mesmo tempo, inconvencional. De alguma maneira, sua mensagem contém a luz de uma verdade radical. Na minha experiência como professora, sua abordagem faz toda a diferença no compartilhar de seus Ensinamentos, uma vez que as pessoas são atraídas por aquilo que é natural e de fácil compreensão, o que não significa, de modo algum, algo fácil de se incorporar. Para isso, o importante é a educação que vem com a experiência.

O que seria de fato espiritualidade segundo seus Ensinamentos? Nada mais nada menos do que uma jornada inacreditável pelo território do nosso ser habitual, também chamado de ser oculto, em direção ao nosso ser real. Essa ideia se traduz de modo simples na seguinte fórmula: “eu em mim, para mim, dentro de mim, por mim”.

Para sermos capazes de conhecermos e experimentarmos nossa mais verdadeira e profunda identidade, uma jornada de aventuras precisa ser empreendida. Sair de um lugar convencionalmente reconhecido rumo ao cerne de nossa identidade verdadeira requer coragem e vontade. Esse lugar, essencialmente original, fica muito além de qualquer tipo de determinações, sejam elas biológicas, pessoais ou culturais, como gênero, por exemplo.

Nascemos em corpos femininos e masculinos. Quanto a isso, não há dúvida. E continuaremos a depender desta qualificação biológica, que regionaliza nossos territórios, porquanto perdurar o poder de nossos sexos em nos definir. Entretanto, com o tempo, tudo isso se desloca e nossa identidade sexual dá lugar a uma identidade muito mais universal em sua natureza.

Esse deslocamento acontece com o envelhecimento, no qual as diferenças entre homens e mulheres tendem a desvanecer, ou acontece quando buscamos conscientemente o território vasto de nossa identidade espiritual, a alma.

Não há nenhuma surpresa no fato de que a busca pelo amadurecimento espiritual requer a rendição da mente e do corpo ao domínio da alma, que, intrinsecamente, está além de determinações de gênero, já que é parte da Consciência Infinita. Em outras palavras, o preço pela viagem para dentro de si — feita por você, em seu território e tendo você como companhia — é a abertura para uma visão de si e do mundo muito vasta e despida de preconceitos.

Quando alcançamos nosso Ser Real, não mais precisamos reafirmar nossa identidade apenas com base em nossos gêneros. No espaço sagrado de nossa Verdadeira Identidade, não somos apenas nossa biologia, nem o que nossa mente nos fez crer que sejamos por sentir, desejar ou acreditar nas particularidades. Nós aceitamos tais particularidades e as entregamos no coração de nosso Ser Real, que, por ser parte da Grande Inteligência que governa cada uma das finitudes, as toma como parte integral de um todo, que agora se expressa pela vontade da nossa consciência.

Como Yogi Bhajan comumente dizia, você estará na sua Verdadeira Identidade quando não mais precisar das referências e cada vez se voltar para as reverências. Aqui, sua psique não mais precisa da orientação biológica, social e cultural. Ao contrário, você se torna um com a Jot (Luz Divina) e sua projeção vibra independentemente.

Neste ponto, você se encontra além, muito além das determinações sexuais e dos rótulos das condições finitas. O sexo ou sua sexualidade, ou mesmo sua educação, não mais definirão, de modo exclusivo, sua identidade.

Se Sat Nam (Realidade Verdadeira) torna-se um com Wahe Guru (caminho para luz) e se, desta unificação, Saibhang (iluminação) é adquirido, em termos práticos, gênero, cultura, sexualidade são apenas meios técnicos através dos quais damos a largada para tal jornada. No momento em que nos aproximamos do território da alma, cada vez mais eles se tornam secundários em nossas vidas. Caminhar para além das nossas habituações ou dos enquadramentos culturais é um bom começo para restaurar nosso direito de existir na Graça de Deus e na nossa Identidade Divina.

Ver o mundo através dos “olhos do Guru” nos força a aceitar homens e mulheres como puro sopro de Deus e, consequentemente, além de julgamentos morais. Gênero vai se desbotando na medida que nos afastamos da linha de largada e deixa de ser também uma vantagem ou desvantagem na nossa Maratona Divina na Terra.

Portanto, é correto dizer que gênero não é o visto de permanência nas terras de nossa espiritualidade. Ele é apenas o recurso preliminar necessário em direção daquele portal que nos permite entrar no reino soberano e livre de nossa consciência.

Nunca se ouviu de nenhum santo ou sábio que o gênero é o resultado de um plano divino para a encarnação humana, ou mesmo uma simples condição para a mesma. Gênero é apenas uma das muitas artes de Deus, moldada pela biologia e condicionada pelas emoções, que ajudam indivíduos a se moverem no mundo naqueles estágios inaugurais.

Nas terras de nossa espiritualidade, como dizia Yogi Bhajan, o individuo auto-iniciado pode ser conduzido pelas mãos do Guru (professor espiritual) apenas até à entrada; neste átrio somos nós que decidimos abrir ou não a porta. O teste da nossa espiritualidade requer que conquistemos aquele minúsculo hiato entre nosso ser habitual e nosso ser real, pois justo ali reside a liberdade de girar a maçaneta e entrar.

Sendo espiritualidade o resultado de uma jornada radical, em partir de sua periferia e aterrissar no seu núcleo Divino, homens e mulheres precisam superar o supérfluo e abraçar o campo de tensão disponível na união entre o Ser Real e o habitual. Neste encontro, vergonhas, inseguranças, culpas serão aceitas e realinhadas para que elas fomentem o espirito amoroso e compassivo da jornada.

A jornada deve ser sempre lembrada de uma maneira simples e pungente: Sua vida não é você. Você é sua vida!

Sat Nam Wahe Guru!

Belo Horizonte, 14 de agosto de 2013.

O cheiro do meu corpo

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Quando a brisa entrou pela porta da varanda, eu estava sentada fazendo minha sadhana. Aquele sopro me envolveu por inteira, batendo suave no meu rosto e me fazendo sentir um perfume suave vindo de mim. O perfume de uma yogini, pensei com uma pitada de orgulho, admito. Aquele aroma despertou em mim uma miríade de sentimentos e recrutou de minha memoria várias passagens de minha vida.

O cheiro doce e pungente da minha identidade moldada pela força de Deus em meu destino e por minha determinação de abraçar meu propósito. Eu sou um milagre! Poderia ter dado tudo errado, mas parece que está funcionando, pensei.

E a brisa continuou me soprando detalhes da vida. Eu tive imensa gratidão. Tudo tão belo e perfeito! Wahe Guru! Quantos anos não estão ali contidos? Quantos amrit velas? Quantos ishnans e quantos desafios? As águas geladas do Engenho, o delicado esfregar da pele com o óleo de sândalo que me traz à mente a presença maravilhosa do meu Professor. Esse era seu óleo preferido. E aquele espelho enorme servindo ao meu olhar para investigar tudo. Um dia ele disse: “uma mulher deve ser capaz de se olhar nua no espelho e se admirar”. Eu sorri e balancei a cabeça em sincera concordância e pensei – algumas vezes isso é tão difícil…

Eu posso escolher e escolho me entregar ao Infinito. Ouvir o Infinito sempre foi desafiador e maravilhoso ao mesmo tempo. A conversa com Deus é preciosa porque Deus é sempre tão vasto, tão universal, tão livre e tão inconvencional. Que aprendizado!

Meu cheiro contém tudo: dores que passei, injustiças que suportei e presenciei, as mentiras que contei, como me enganei…! Mas também este perfume de yogini me conta das vezes em que, apesar de tudo, não me retirei, não fingi, mesmo quando o momento propiciava ou mesmo quando claramente burlei e, por mais difícil que seja admitir, ainda assim, me rendi. Talvez soubesse que não havia outra saída ou talvez soubesse que, se houvesse uma outra, ela seria mais dolorosa e longa do que encarar meu erro com dignidade. Quanta coragem o Guru me deu e eu nem sabia que já andava sob sua proteção… Como é inspirador olhar tudo isso à distância!

Posso dizer que vivi com sinceridade cada força e cada fraqueza. Assim, porque milagres existem para aqueles que criam, eu cheguei aqui onde vocês estão. Eu sou uma yogini, uma professora, uma khalsa e me sinto em paz.

O cheiro da manhã em meu corpo é como o Amrit Sanchar* –  a lâmina de aço penetrando sem parar o néctar; a mistura se transformando em uma substância que desperta, em quem a recebe, compaixão e destemor, elegância e vontade. Esse meu cheiro revela tudo sobre por que estou aqui.

Toda a fúria de uma mente guerreira, ansiando pelo justo e pelo belo se aplaca na calma constatação de que, para a alma, tudo flui com a inteligência que floresce e transcende o cotidiano. Estar no Dharma não faz ninguém maior, apenas confere uma força de viver como se deve, cada dia como ele chega. Algo tão simples que parece banal.

Eu sou o que sempre quis ser e tudo dependia só de mim. Eu mesma escolhi vagar, eu precisei vagar? Não sei. O que sei é que estou chegando onde queria, onde sonhei, e era verdade: tal lugar existe!

Este é um momento decisivo para a transição de eras, de modelo de pensar, de modo de agir, de forma de negociar, de modo de servir à consciência do outro. É o fim da exploração, fim de enganos e manipulação. É o começo de uma era na qual poderemos usar da inteligência humana a serviço da grandeza do Espirito Universal.

Conto com as orações de vocês pois agora a batalha terá inicio. Cada pensamento de elevação vindo de vocês fará a diferença. Sintam seu perfume, admirem-se diante do espelho e vivam para florescer no outro sentimentos de paz e esperança, coragem e determinação.

[Escrito pela autora desta coluna em 20 de setembro de 2009, por época em que o Conselho Diretor do Sikh Dharma Internacional, da qual ela é uma das diretoras, entrou na justiça norte-americana contra o esquema de corrupção corporativa que colocava sob risco o Legado material e espiritual de Yogi Bhajan. Este processo foi concluído em 2012 dando vitória plena aos Conselheiros!]

* Amrit Sanchar é a cerimônia de batismo no Dharma

Amor e bênçãos,

Wahe Guru, Sat Nam