8,4 milhões de vida!

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

A trajetória de nossa alma é longa. Do momento que fomos projetados pelo sopro incognoscível do Infinito ao colo duro e atraente da vida na Terra muito aconteceu.

A alma, essa projeção concreta de Deus, viajou por 8,4 milhões de experiências para alcançar a forma humana. Assim está escrito em várias tradições, inclusive no Siri Guru Granth. Não é, portanto, de se admirar que o Guru Arjan, ao criar o projeto arquitetônico do Golden Temple, o tenha feito com uma ponte que liga o mundo das perambulações e emoções ao centro do coração (o templo em si), através da qual se caminha, em média, 84 passos. Cada passo exponenciado à grandeza de um milhão de vidas.

A alma inaugura-se no firmamento terrestre como partícula dura, mineral. Nesta forma, ela não se comunica, sequer se manifesta. Apenas se entrega ao jogo infinito da vida, na espera paciente do tempo, para que com a Graça de Deus, ela seja incorporada, após dissolvida de alguma maneira, nos tecidos tênues, delicados e comunicativos dos vegetais.

Como vegetal, ela não vegeta! Neste reino, surgem as primeiras formas vívidas de comunicação com o meio e com os seres mais altos na escala evolutiva. Dentro de uma planta, a alma pode se manifestar através da psique daquele ser. Ela responde, mas ainda totalmente presa na forma com que o vegetal responde ao meio. Se este é hostil, ela com o tempo sucumbe. Se minimamente adequado, ela responde com exponencial amor e vida. A vida insiste em viver a partir do reino vegetal.

Não sabemos como exatamente esta passagem é feita, mas uma coisa sabemos, com a Graça do Arquiteto do Universo, o momento chega em que aquela alma experimenta a vida animal. Um grau de liberdade e interação maior é adquirido. Porém, as algemas ainda são colocadas, o que impede a alma de se comunicar com a mente de forma a criar um pequeno espaço de liberdade para que esta se manifeste em sua forma original. O animal, embora mais solto para fazer escolhas, ainda se prende às condições do meio. Ele ainda depende totalmente da benevolência e do amor dos seres mais evoluídos.

Quando a alma, após incansáveis 8,4 milhões de vidas e mortes, consegue mérito suficiente para experimentar a vida humana, já não era sem tempo!

No espaço sagrado da constituição física e psíquica humana, a alma pode finalmente se libertar do grilhão que lhe tolheu a liberdade durante todo o tempo despendido nas formas anteriores, e agora ganha acesso privilegiado à consciência humana.

Porém, muito há de ser feito para que o ser humano consiga entender sua jornada e superar os arquivos que conforma seu comportamento, para que os instintos puramente animais sejam domados, e o medo e a insegurança superados.

A conversa entre alma e psique é notória, marcada por conflitos e crises. Sem elas jamais teremos a chance de olhar bem fundo para dentro e alcançar a dimensão e potencial de nossa vida enquanto seres humanos. É nesta relação que desvendamos nosso destino e finalmente conseguimos existir para além dos condicionamentos impostos pela biologia e pela cultura.

Quando a alma é escutada, nascemos de novo para uma vida criativa, autentica e livre!

A alma torna-se o guia, e a primeira lição a ser aprendida é: “o relacionamento tem um compromisso, e o compromisso tem um relacionamento”, como disse Yogi Bhajan.

Fique ligado para essa conversa na próxima semana… Até lá, paz em tudo e por tudo.

Wahe Guru.

Belo Horizonte, 7 de Agosto de 2014.

A Corte Sagrada

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

 

Os Gurus Sikhs e seus alunos esposaram e ensinaram a liberdade e a igualdade, não apenas para os homens mas principalmente para as mulheres. Em uma região do mundo onde os homens tinham e ainda desfrutam de privilégios imensos: educação, melhor comida, controle político, o Dharma do Guru Nanak ameaçou de fato suas vidas fáceis e cheias de regalias. Os Sikhs definitivamente foram os que chacoalharam os alicerces cultural da era moderna.

Como Aurangseb, que pensou poder destruir o hinduísmo na Índia convertendo todos os respeitados Cashmeres pandits, os jihadistas, fossem eles Mongóis, Persas ou Afeganos, também pensaram que ao destruir ou contaminar o Darbar Sahib – ou Golden Temple –, eles quebrariam a coluna dorsal dos Sikhs e os derrotariam, para ter sob controle a força livre deste Dharma.

Ao longo dos anos o Golden Temple sofreu muitos ataques, e teve seu Sarovar (lago cristalino de águas frescas) preenchido e contaminado com as carcaças de animais e seres humanos abatidos. Mas, como os lendários templos da China e do Japão, que foram demolidos e reconstruídos para garantir sua continuidade, o Golden Temple também se reergueu.

O Golden Temple tem uma arquitetura única e bela. Ele erguer-se das águas diáfanas de seu Sarovar, e suas paredes superiores, decoradas com placas de ouro, recebem ao alto o Dome – a abóboda em forma de Flor de Lótus – que reflete os raios do Sol e os espalha para o Infinito. O Sarovar é cercado pelo Parikarma, uma ampla e bela promanade em mármore decorada com pedras preciosas, por onde todos que ali chegam caminham em sentido horário. Circular ao redor do Sarovar em estado contemplativo antes de atravessar a ponte para o Templo é tido como uma forma de profunda limpeza e renovação. O Shabd Guru entoado de dentro do Templo ecoa através dos autofalantes pela promanade, e as águas límpidas ampliam sua frequência, fazendo com que as pessoas recebam os benefícios do Naad, o som primordial.

Guru Arjan planejou o Golden Temple com o recurso de uma arquitetura sagrada. Não apenas a flor de lótus ao topo, onde subentende-se ser o décimo portal, mas todos os chakras estão precisamente estruturados da base do templo até sua parte superior, onde os minaretes embelezam e garantem o fluxo da energia da Terra em direção ao céu. O templo foi desenhado para servir a todos, independente de limites religiosos, de classe, casta ou gênero, e por isso ele fez questão de ter quatro portais de entrada garantindo acesso a todos, de onde quer que venham.

Na época de sua construção, um famoso santo Sufi muçulmano chamado Hazrat Mian Mir foi convidado pelo Guru para assentar a pedra fundamental e dar início às obras, afiançando desde modo, desde seu nascimento, o compromisso à causa da paz, da diversidade e da irmandade entre todos.

O Golden Temple tem sido desde então o santuário vivo que ensina a todos superar as diferenças em paz e projetar e reconhecer o divino em tudo e todos.

Wahe Guru.

 

Belo Horizonte, 1º de Agosto de 2014.