A Corte Sagrada

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

 

Os Gurus Sikhs e seus alunos esposaram e ensinaram a liberdade e a igualdade, não apenas para os homens mas principalmente para as mulheres. Em uma região do mundo onde os homens tinham e ainda desfrutam de privilégios imensos: educação, melhor comida, controle político, o Dharma do Guru Nanak ameaçou de fato suas vidas fáceis e cheias de regalias. Os Sikhs definitivamente foram os que chacoalharam os alicerces cultural da era moderna.

Como Aurangseb, que pensou poder destruir o hinduísmo na Índia convertendo todos os respeitados Cashmeres pandits, os jihadistas, fossem eles Mongóis, Persas ou Afeganos, também pensaram que ao destruir ou contaminar o Darbar Sahib – ou Golden Temple –, eles quebrariam a coluna dorsal dos Sikhs e os derrotariam, para ter sob controle a força livre deste Dharma.

Ao longo dos anos o Golden Temple sofreu muitos ataques, e teve seu Sarovar (lago cristalino de águas frescas) preenchido e contaminado com as carcaças de animais e seres humanos abatidos. Mas, como os lendários templos da China e do Japão, que foram demolidos e reconstruídos para garantir sua continuidade, o Golden Temple também se reergueu.

O Golden Temple tem uma arquitetura única e bela. Ele erguer-se das águas diáfanas de seu Sarovar, e suas paredes superiores, decoradas com placas de ouro, recebem ao alto o Dome – a abóboda em forma de Flor de Lótus – que reflete os raios do Sol e os espalha para o Infinito. O Sarovar é cercado pelo Parikarma, uma ampla e bela promanade em mármore decorada com pedras preciosas, por onde todos que ali chegam caminham em sentido horário. Circular ao redor do Sarovar em estado contemplativo antes de atravessar a ponte para o Templo é tido como uma forma de profunda limpeza e renovação. O Shabd Guru entoado de dentro do Templo ecoa através dos autofalantes pela promanade, e as águas límpidas ampliam sua frequência, fazendo com que as pessoas recebam os benefícios do Naad, o som primordial.

Guru Arjan planejou o Golden Temple com o recurso de uma arquitetura sagrada. Não apenas a flor de lótus ao topo, onde subentende-se ser o décimo portal, mas todos os chakras estão precisamente estruturados da base do templo até sua parte superior, onde os minaretes embelezam e garantem o fluxo da energia da Terra em direção ao céu. O templo foi desenhado para servir a todos, independente de limites religiosos, de classe, casta ou gênero, e por isso ele fez questão de ter quatro portais de entrada garantindo acesso a todos, de onde quer que venham.

Na época de sua construção, um famoso santo Sufi muçulmano chamado Hazrat Mian Mir foi convidado pelo Guru para assentar a pedra fundamental e dar início às obras, afiançando desde modo, desde seu nascimento, o compromisso à causa da paz, da diversidade e da irmandade entre todos.

O Golden Temple tem sido desde então o santuário vivo que ensina a todos superar as diferenças em paz e projetar e reconhecer o divino em tudo e todos.

Wahe Guru.

 

Belo Horizonte, 1º de Agosto de 2014.

Guru Arjan Dev Ji

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Em 1606, o imperador muçulmano Jahangir ordenou que o Guru Arjan fosse torturado até a morte por ter se recusado a retirar do Siri Guru Granth Sahib todas as referências islâmicas e hindus.

Guru Arjan compilou o Livro Sagrado do Sikh Dharma com poemas e composições de inúmeros sábios e santos de várias tradições, qualificando essa escritura como algo muito além de seu próprio tempo, devido a sua universalidade e tolerância.

A condição imposta ao Guru Arjan escondia no fundo uma raiva devido a muitos muçulmanos terem se convertido aos Ensinamentos do Guru Nanak e, segundo relato escrito naquele mesmo ano pelo padre jesuíta Jerônimo Xavier que presenciou acena da tortura, por também ter recusado pagar a multa de não ser muçulmano. Segundo este jesuíta, Jahangir buscava com a tortura desumana do Guru Arjan uma retratação e o pagamento, que confirmaria a soberania muçulmana na Índia.

Como o Guru não cedeu, ele foi colocado em uma lâmina de ferro incandescente, enquanto areia em altíssima temperatura era derramada sobre seu corpo. Depois de suportar toda a crueldade do imperador, no quinto dia de tortura implacável, ele foi levado para um banho no Rio Ravi. Sob os olhares de todos, ele entrou nas águas e jamais retornou ou foi encontrado. Seu desaparecimento permanece um mistério desde então.

Guru Arjan era amado por inúmeras pessoas de diferentes credos. Mesmo o Imperador Jahangir, antes de assumir o trono, teria se apresentado na Corte do Guru para ser abençoado. Guru Arjan era conhecido por sua forte inclinação para as línguas, artes e arquitetura. Como todos os demais Gurus, seu pontificado foi marcado por grande luta pela igualdade, justiça social e serviço à humanidade sem qualquer distinção. Como sucessor na linhagem do Guru Nanak, ele seguiu os passos de seu pai, Guru Ram Das, e vivia uma vida de trabalho, seva e meditação.

No auge de sua tortura, seus alunos e amigos imploraram para que ele interrompesse tudo aquilo, simplesmente parando de respirar, já que como yogi, ele sabia e podia muito bem fazer isso. Mas, ele lançava a todos um olhar compassivo e dizia que jamais faria isso, pois, no futuro distante, os alunos do Dharma, privados daquele momento, deveriam saber que ele não interrompeu a sentença escapando através do uso de seus poderes yógicos. Ele queria que todos soubessem que ele recebeu sua sentença sabendo ser verdade as palavras do Guru Nanak – tudo vem de Deus.

Sua passagem é revestida de uma monumental verdade: seja lá qual for as circunstâncias, cada ser humano pode se erguer acima delas e permanecer fiel à sua identidade e morrer pela paz!

Como está dito no Siri Guru Granth Sahib, “lute por aquilo que seja correto, ainda que isso implique em você permanecer só”.

Que o legado do Guru Arjan nos inspire a viver uma vida correta, digna e dedicada ao que é correto, sem medos ou sem nos corrompermos para sermos aceitos.

 

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 5 de Junho, 2014.