[GSK] Perdendo o medo do desconhecido

Aula ministrada pela Gurusangat Kaur Khalsa em 21 de agosto de 2015

Bom dia, Sat Nam!

Hoje vamos fazer um kryia para equilibrar os chakras e os órgãos correspondentes. E eu gostaria de rever um pouco com vocês esse sistema de proteção e propulsão que nós temos. No Kundalini Yoga, não existe gafe maior do que um professor dizer assim: “Vou ajustar seu primeiro chakra porque o sétimo está muito ativo”. É uma gafe absurda descontextualizar os chakras.

Os chakras existem num contexto, e esse contexto tem dois grandes propósitos: proteção e propulsão. Quem fez o Coaching Aquariano sabe do que estou falando. Um é o modo de crescimento e outro é quando você está em modo de recuperação. Nós não precisaríamos dos sistema de chakras se fôssemos usar apenas nossa defesa animal, porque nossa defesa animal, aquela reativa, já está bem trilhada e formada em nosso corpo. Nosso corpo tem uma ação que na neurologia a gente chama de ação reflexa. O que acontece é que o outro tipo de defesa que o sistema de chakras se dispõe a fazer é muito qualificado e requintado. E o sistema de chakras surge no ser humano na medida em que a parte mais evoluída do cérebro surge.

Os animais têm um sistema de chakras muito diferente, em que o máximo deles é o nosso mínimo. E o máximo dos animais é o nosso triângulo inferior. Nós começamos evolutivamente no mínimo e evoluímos de uma forma tão requintada, tão fina no nosso sistema de defesa, que temos o triângulo superior, que foi uma evolução que surgiu junto com o cérebro. E é esse o lugar do sistema de chakras que está disponível para nosso uso. Mas acontece que a gente não faz uso dele (dos chakras superiores) para uma defesa animal porque não temos uma reação de defesa do triângulo superior que seja de forma reflexa. Então a forma reflexa da defesa do triângulo superior é algo que precisa ser conquistado. E conquistar esse triângulo superior é basicamente nosso objetivo na vida. No momento em que conquistamos esse sistema, uma coisa maravilhosa acontece conosco. Tudo que serve para nos chacoalhar, nos confrontar, nos tirar do lugar comum, e que numa defesa animal a gente rechaça, numa defesa superior, é justamente ali que está disposto para a realização do nosso destino.

Na medida em que você conquista uma ação reflexa no seu triângulo superior, você está garantindo realizar aquilo que você veio para realizar e pagar sua conta aqui. Para agirmos de acordo com a acão reflexa do triângulo superior a gente precisa de oportunidades. Falta oportunidade para alguém aqui para se sentir mal? Então, muitas vezes o que falta é tempo. Às vezes a gente precisa cair 500 vezes, às vezes precisa cair 500 mil vezes. O tempo é livre e é deslimitado. Por isso, o que a gente quer é acelerar esse processo e é pra isso que a gente vai trabalhar na aula de hoje.

Kryia ministrado: Equilibrando os Chakras e órgãos correspondentes (Livro: Transformation – volume I)

Observação sobre mantra “Har Wahe Guru Har Sat Nam”. GSK: Esse mantra pode mudar a sua ação reflexa. Ele elimina a dor na hora da morte. É uma morte a gente não se submeter ao desafio. Entoe com grande respeito.

Vamos fazer agora uma meditação (Aap Sahae Hoa) para comandar os cinco tattvas e perder o medo do desconhecido. Mas aí você diz: “Ah, eu sou uma pessoa muito destemida”. As pessoas muito destemidas tem um tipo especial de medo do desconhecido que é aquilo que as derruba: que as faz ficarem guerreiras, mas não santas guerreiras. A terem sempre uma visão míope e amedrontada de quem aos seus olhos aparece absolutamente errado. Um julgamento em que o outro é absolutamente errado se fundamenta no temor de entrar em contato com aquilo que é absolutamente diferente de mim. Isso fere o princípio que o Yogi Bhajan ensinou segundo o qual, numa comunicação consciente, não importa o que você sente, o que você sabe ou o você quer, importa o tanto que você conhece o outro e o quanto você pode entrar no outro. Uma das coisas que o Guru Gobind Singh mais ensinou na vida dele, o legado principal dele – além de ser a absoluta igualdade e o direito de todos existirem na excelência –, foi que você precisa entrar no universo do inimigo. Você precisa ser capaz de se sentar e conversar com seu inimigo sem nenhum tipo de medo.

O ideal é fazer essa meditação com a versão do Gurudass, porque ela tem uma freqüência que restaura o estado de graça. E é justamente essa radiância que leva a gente a respeitar o adversário. Preciso dizer uma coisa, eu gosto demais de séries de época e assistindo a uma delas esses dias, o personagem de um príncipe disse a seguinte frase: “Um dos sinais mais importantes da realeza é que a pessoa tem que ter generosidade e elegância”. E esse elemento foi algo que o Guru Gobind Singh trabalhou demais. E lembrem-se que o Guru Gobind Singh levou os párias para a realeza, seguindo o princípio do Guru Nanak completo: não vamos viver numa sociedade igual igualando todos por baixo, vamos viver numa sociedade igual distribuindo a riqueza. Uma das coisas importante para ele era a elegância – não só no modo de vestir, mas de falar e agir, essa elegância da casa real do Guru Ram Das –, e a generosidade. Vocês veem que não são só aqueles que nascem em uma casta que podem desenvolver isso. Nós também podemos desenvolver generosidade porque ela é base fundamental de nossa prosperidade. E uma das coisas que mais nos leva a nos recolhermos diante do desconhecido é a nossa falta de generosidade. Nós somos pouco generosos com o desconhecido. Esse mantra faz com que o nosso corpo radiante aumente tanto – um momento em que o corpo radiante explode é o momento em que não estamos mais inseguros –, que estamos cheios de infinito. Nesse momento é muito tranquilo lidar com a feiura da oposição.

Yogi Bhajan diz que a prática dessa meditação nos ajuda demais a lidar com a animosidade. Todas as vezes que a gente progride demais a gente atrai animosidade. São as quadraturas. Não tem jeito. A sombra é proporcional à luz. Nessa atração da animosidade você precisa não ficar reativo. Você precisa interagir. Esse mantra é para isso também.

May the long time sun shine upon you…

Sat Nam Wahe Guru

[Transcrição Hari Shabad Kaur Khalsa]

[GSK] Filhos e filhas do Dharma

por Gurusangat Kaur Khalsa

Nos registros sagrados da experiência humana, encontramos raramente o exemplo e testemunho de humildade e realeza como em Guru Gobind Singh. Para os Gurus Sikhs e seus alunos, a humildade é uma virtude vista e exaltada como um marcador divino. Sua mensagem universal transcende culturas e gerações e sua métrica ilumina o universo de fés, com um pulso que corta através de todos os dogmas exaltando sempre a presença divina em tudo, indiscriminadamente.

Guru Gobind eletriza as massas indianas do século XVII e as convoca a rejeitar costumes arraigados em modelos socioculturais excludentes e escravagistas, e práticas políticas que, combinadas à religião, ceifavam a dignidade humana e a livre identidade pessoal. Seu chamado era para a causa de defesa da honra, sacralidade e herança história da terra natal e de sua libertação das agruras dos ocupantes sanguinários muçulmanos, que contra todas as normas civilizadas, abertamente, violavam o direito da existência livre e soberana de todos indivíduos.

O Guru desafiou cidadãos de todas as fés e segmentos: (1) à Liberdade; (2) ao fim da injustiça e perseguição religiosa; (3) ao fim ao reinado político do terror; (4) ao fim dos governos autoritários e seu impiedoso zealot (zelo fanático); (5) à organização da autodefesa e garantia da educação e cultura a todos, como parte do direito sagrado da existência humana.

Guru Gobind entendeu a gravidade e a urgência dos tempos, os quais exigiam que as algemas do medo fossem quebradas para que as pessoas desmoralizadas e inferiorizadas pudessem resgatar a força interna e restabelecer a paz perturbada e a ordem social ferida por séculos de domínio muçulmano. Para que isso fosse possível, ele criou o Khalsa, uma Ordem dos puros de coração e mente para preservar o Dharma. Ele os batizou e os transformou em destemidos guerreiros e guerreiras da paz, com a missão de lutar por inocentes aterrorizados pelos poderosos exércitos do Imperador Mongol e pelos Rajputs, os reis indianos.

Em sua autobiografia, ele escreveu sobre o papel dos Khalsa: “para estabelecer e preservar o Dharma e eliminar o mal pela raiz. Rejeitar todas as divisões de casta, credo, etnia, nacionalidade e gênero. Dar um testemunho honrado aos Ensinamentos do Guru Nanak e seus nove sucessores. Sustentar e compartilhar a liberdade: de vida, de direitos e da dignidade humana. Defender a justiça, promover a paz, estender a boa vontade a todos os filhos de Deus. Liderar pelo exemplos e com a verdadeira compaixão, que transcende todas as barreiras criadas por homens que separam e dividem. Rejeitar diferenças e indiferenças que segregam e separam os seres humanos de Deus e um do outro. Meditar (Nam-Simran) no Nome de Deus e viver e honrar as lições do Dharma. Servir sem distinção, proteger, preservar e ser anjos de toda a Criação. Trazer honra para toda a humanidade e para Deus que sabe e vê todas as coisas. Manter Deus no centro de nossas vidas e se submeter à Sua Vontade em humildade e graça”.

Nestes tempos de grandes conflitos religiosos e morais, de corrupção e destruição, de abundância, de avanços científicos, mas também de grande medo, de covardia, de abuso de autoridade, de assaltos à cultura, à fé, à minorias étnicas, de assalto ao sagrado dos povos indefesos indígenas, enfim, nesse nosso tempo, o legado do Guru Gobind Singh pode ser útil e também uma esperança:

“(1) unam-se para causas maiores que vocês e abandonem seus interesses pessoais;
(2) construam um mundo livre de preconceitos e violência;
(3) dêem forma a um mundo ancorado na coexistência pacífica e responsabilidade compartilhada;
(4) guardem e preservem os bens coletivos como um direito da soberania universal;
(5) tenham em mente um mundo onde as iniciativas e possibilidades sejam para todos;
(6) imaginem um mundo onde a vida e a liberdade dos direitos inalienáveis do ser humano floresçam em segurança;
(7) que nossas paixões criativas sejam guiadas pela abertura do espírito e paz;
(8) que cada um esteja assegurado e reconhecido como uma parte fundamental da humanidade;
(9) quando o mal assumir sua forma e devastar o espirito humano causando medo, morte e destruição, então é necessário uma atitude corajosa de se levantarem contra a tirania usando as forças apropriadas da justiça e da diplomacia.”

São suas palavras ainda que “nós precisamos juntos tecer o tapete onde os tesouros da nossa humanidade encontrem uma recepção amiga e cada painel sagrado de nossa herança encontre um lugar seguro na magnificente completude de nossa cultura”.

Nós precisamos descobrir, apreciar e preservar os fios divinos que nos conectam e que nos colocam em cruzamentos inimagináveis, multiplicar nossas forças e bênçãos através do trabalho em solidariedade a outros encontrando respostas para as questões críticas de nosso tempo. Quando nos colocamos com este espírito universal, quando todos se mobilizarem com boa vontade para a causa universal, aí haverá a manifestação da Luz de Deus, antiga sabedoria, bênçãos de veneráveis mentores, almas iluminadas que guiarão a humanidade para uma civilização mais esperançosa e humana.

Sat Nam Wahe Guru

A festa Khalsa

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Ontem eu lia o pronunciamento do Primeiro Ministro da Inglaterra, feito de seu gabinete na Downing Street, em Londres, exaltando os pilares do Sikh Dharma, por ocasião da abertura das solenidades oficiais do Vaisakhi. Em várias cidades importantes do planeta, políticos renomados estão se juntando com  autoridades e pessoas simples do Sikh Dharma, com seus Kirtanees (músicos) e com os professores do Kundalini Yoga para celebrar Vaisakhi. Mas, o que é Vaisakhi e qual sua importância?

Vaisakhi, ou Baisakhi,  corresponde ao segundo mês do calendário Sikh Nanakshahi. Este mês tem início no dia 13 de abril e finda no dia 14 de maio. Este período é marcado por inúmeros festivais e celebrações. Os Hindus celebram a vinda de sua Deusa Ganga à Terra com banhos e rituais. Já os Budistas celebram o nascimento, a iluminação e a morte de seu Mestre Buddha Gautama.

Este mês tem uma importância singular para todos que se relacionam direta ou indiretamente com o Sikh Dharma. No Vaisakhi de 1699, Guru Gobind Singh, o décimo Professor desta Tradição, convocou todos seus seguidores e alunos para se congregarem em Anandpur no dia 13 de Abril. Foi colocada uma tenda sobre uma pequena colina, lugar hoje conhecido por Keshgarh Sahib, e uma grande multidão vinda de todas as regiões do Continente Indiano se apresentou para ouvir o que seu Professor teria de tão importante para dizer.

A primeira fala do Guru veio na forma de uma pergunta: “Quem sou eu para vocês?” E a resposta veio simples: “Você é nosso Professor”. Confirmando esta relação, ele teria perguntado: “E quem são vocês?” A multidão em uníssono respondeu: “Nós somos seus Sikhs (alunos)”.  Após lembrá-los dessa relação sagrada, o Mestre querido e símbolo de justiça e esperança, com uma voz penetrante e convicta disse: “O Professor de vocês hoje quer algo de seus Sikhs”. E a resposta foi vibrante:  “Hukam karo, sache Patshar!” O que quer dizer – “ordene, Verdadeiro Rei!”

Ele então firmou sua mão em sua espada e a envergou alto comandando que se apresentasse a ele aquele disposto a sacrificar sua cabeça. O silêncio reinou profundo e imperturbável… Ele pediu uma segunda e uma terceira vez. Finalmente um dos alunos de seu pai se levantou e se entregou. A multidão aterrorizada ouviu apenas o fulgir da lâmina cortando o ar e em seguida a cabeça do até então Daya Ram cair. Com a espada ensanguentada, ele saiu de sua tenda e pediu mais quatro voluntários, os quais certamente teriam o mesmo destino. Apresentaram-se nesta ordem: Himmat, Mohkam, Dharam, Sahib. Cada um deles era de uma casta hindu e formaram os Panj Pyares (Cinco Amados). Seus corpos foram trazidos para fora da tenda e dispostos aos olhos da Sangat. A multidão antes atônita, agora olhava a tudo com intenso interesse. Os cinco estavam majestosamente vestidos com roupas azuis e douradas. O Guru os colocou deitados sobre o chão com suas cabeças apartadas. A seguir, ele colocou as cabeças em corpos diferentes e ordenou que eles se erguessem. Diante da multidão, absolutamente paralisada, os cinco se levantaram e foram batizados pelo próprio Guru. Após o batismo,  Guru Gobind Singh pediu que os cinco o batizassem também. Ao final, Guru Gobind Singh disse a eles e a todos que ali estavam que: “de agora para frente, vocês não pertencem a casta alguma. Nenhum ritual hindu ou muçulmano é necessário, sequer a crença em superstição de qualquer espécie. Vocês devem apenas crer na presença de Deus, que é o mestre e protetor de todos, o criador e o destruidor. Na nossa nova ordem (Ordem Khalsa), o mais inferior de todos se colocará lado a lado com o mais superior. Este é o fim das austeridades e peregrinações e o início de uma vida pura de dono(a) de casa, e vocês devem estar prontos para o chamado do Dharma (justiça). Mulheres e homens devem ser tratados de forma igual em todos os sentidos”.

Neste dia fenomenal, centenas de milhares de mulheres e homens receberam seus novos nomes espirituais e se juntaram à nova Ordem Khalsa, os puros de coração e mente. Até mesmo o jornalista da Corte do Imperador Afegão, colocado no meio da multidão como espião, ao final do dia escreve ao Imperador o que acontecera com os Cinco Amados e, diante dos fatos inacreditáveis, pede demissão de seu cargo e se batiza, servindo longamente ao Guru.

A Ordem Khalsa se formou no século XVII com o intuito de criar um Estado livre e soberano, onde todos os seus cidadãos fossem iguais perante a lei, e sobretudo criar um modelo educacional da excelência para que mulheres, homens e crianças tivessem direitos iguais aos estudos e a prosperidade. Para tal, os Khalsas do Guru Gobind Singh, na forma de mulheres guerreiras e homens de fibra, deram suas vidas na luta contra o jugo Mongol de Delhi e a exploração dos senhores feudais indianos, que, combinados, formavam uma barreira absurda que impedia, sob força de vários recursos espúrios, o acesso aos bens e a uma vida digna e honrada.

Deixar que todos morressem na ignorância de suas crenças religiosas e submetidos ao absurdo regime de castas era o  meio mais natural. Lutar contra este sistema requeria espírito, coragem e esperança, não somente para si ou para aquele momento em si. O olhar dos Khalsas do Guru não se restringia ao uma região geopolítica, também não aos seus cidadãos imediatos. Eles miravam o futuro e os cidadãos do mundo. O sacrifício deles constituiu um legado que hoje celebramos e zelamos. Os Guerreiros da Paz deixaram para nosso mundo atual um exemplo de bravura e entrega aos ideias mais nobres da alma humana – compaixão a todos os seres, liberdade de ser e direito à prosperidade. Os Khalsas do Guru não eram de uma religião em particular. Eles abandonaram seus vínculos anteriores para se dedicar à criação de um mundo onde houvesse esperança e paz.

Suas vidas entregues a esta causa honram nossas lembranças com suas histórias e feitos. Sobre essa nobre gente, as palavras de quem mais os amou:

“All thee battles I have won against tyranny
I have fought with the devoted backing of the people;
Through them only have I been able to bestow gifts,
Through their help I have escaped from harm;
The love and generosity of these Sikhs
Have enriched my heart and home.
Through their grace I have attained all learning;
Through their help in battle I have slain all my enemies.
I was born to serve them, through them I reached eminence.
What would I have been without their kind and ready help?
There are millions of insignificant people like me.
True service is the service of these people.
I am not inclined to serve others of higher caste:
Charity will bear fruit in this and the next world,
If given to such worthy people as these;
All other sacrifices and charities are profitless.
From toe to toe, whatever I call my own,
All I possess and carry, I dedicate to these people”

Guru Gobind Singh Ji.

 

Wahe Guru Ji Ka Khalsa, Whae Guru Ji Ki Fateh

 

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte,  9 de Abril de  2014.

 

O Guerreiro da Paz*

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

​Eu sempre me encantei com a história da humanidade. Desde muito pequena, eu era um tipo de arqueologista ignorante do ofício e de seus riscos, deixando-me guiar pela inocência em meu coração. Adulta, descobri o que mais me encantava naquelas incursões no passado. Eu buscava gente, eu buscava o que elas pensavam e como elas viviam, mas buscava, principalmente, o que elas deixaram de substancial para minha vida.

Demorou quase três décadas para que eu encontrasse a natureza do que realmente buscava. Foi no Kundalini Yoga que encontrei a ciência que tanto me encantava na história da humanidade — a cartografia da psique humana!

Yogi Bhajan, meu professor, dizia que certas culturas produziam certos seres humanos, os quais poderiam produzir mapas de jornadas que nos serviriam como instrumentos de navegação por territórios desconhecidos no futuro. Esses mapas faziam parte da experiência estética, espiritual e social destes seres singulares e se tornariam parte de uma rica cultura cartográfica da experiência humana.
Houve um momento em que a vida dos meus dias cruzou os dias do passado de meu professor. Foi um encontro fugaz e original e, naquele instante inédito, em vez de seguirmos na diagonal das nossas histórias, decidimos seguir juntos. Claro que ele não poderia seguir comigo literalmente, já que tinha a vida de seus dias para andar; e nem eu poderia seguir com ele, porque, logo de início, ele comunicou na tensão do nosso amor que, “o professor não é a alternativa; o professor é o altar!”

Eu não tinha tempo para pensar, pois ele seguia sua rota e eu, a minha. Mas, eu sabia que não queria andar na diagonal para fora do seu amor e de sua inteligência. Foi aí que entendi sobre a cartografia e logo tomei seus mapas para mim, que seguiram comigo, de forma que ele nunca mais se ausentou dos meus dias.

A história que gostaria de compartilhar com todos é fenomenal. Trata-se dos mapas de um guerreiro da paz.

Sinto estar longe de fazer jus à intensidade de sua poesia e à exuberância de sua existência, mas, seja lá qual for a maneira que Deus me inspire a escrever, não tenho nada mais a fazer a não ser consentir.

O que mais me estimula é pensar nos meus alunos, nos amigos e familiares que já se acercaram da tecnologia dos Gurus Sikhs e que hoje a põem em prática em salas de aula como professores de Kundalini Yoga, nos seus negócios e em seus relacionamentos.

Se você quiser, vou te levar para as ruas da história e da poesia de um povo peculiar. Vou te trazer para perto de um santo-guerreiro que viveu apaixonadamente sua missão, amou com profunda entrega, fez a justiça viver nas artes, na educação e na diplomacia. Quando tudo isso falhou, ele enfrentou o inimigo da paz em campos de batalhas. É sobre este líder espiritual e sobre a historia de seu povo que gostaria agora de me deter.

O momento é inevitável. Existe uma profecia do pai do Guerreiro que diz “seremos 960 milhões puros de coração e mentes”. Nós podemos não ser meros espectadores nesta peça. A decisão paira no instante, e o tempo passa! A decisão é de cada um: andar ou não andar na diagonal daquele amor.

As cortinas se abrem…

Wahe Guru, Sat Nam.

* Prefácio do livro sobre o Guerreiro da Paz, Guru Gobind Singh Ji

Guru Gobind Singh Ji

Sat Nam Sangat Ji!

Ainda sobre nosso seminário “Jaap Sahib – A canção do santo guerreiro”, com a presença de Shanti Kaur Khalsa e Ravi Kaur Khalsa, Guru Sangat compartilha conosco uma introdução sobre a vida do décimo Guru. E, em seguida ao texto, temos o prazer de compartilhar também a gravação do Jaap Sahib entoado coletivamente em um dos dias do curso.

Wahe Guru Ji Ka Khalsa
Wahe Guru Ji Ki Fateh

Guru Gobind Singh Ji

gur15e

por Guru Sangat Kaur Khalsa

Guru Gobind Singh nasceu com o propósito divino de eliminar a tirania e preservar a solidariedade em uma sociedade pluralista aberta a todos os povos. Sua vida é um ode espetacular à liberdade e a prova da transformação social mesmo numa cultura ortodoxa como a Hindu, sob o jugo de um imperador mongol, impiedoso e fanático, de nome Aurangazeb.

Aos 9 anos de idade, quando seu pai, Guru Tegh Bahadur Sahib Ji, foi brutalmente assassinado por defender o direito religioso dos hindus, Guru Gobind Singh logo entendeu que o adversário pretendia riscar do mapa o Legado do Guru Nanak para a humanidade. E este legado que é o de criar e manter uma sociedade livre, igualitária e sem discriminação.

Numa Índia fustigada pela ignorância, superstição e medo, ele colocou em prática o modelo idealizado por Guru Nanak e o implementou numa cidade chamada Anandpur Sahib, onde as artes, a educação e os estudos serviam a todos: homens e mulheres sem qualquer diferença. Em sua corte, 52 poetas de várias nacionalidades foram contratados para despertar a sensibilidade inerente a todo ser humano e a explorar, deste modo, o potencial criativo em cada um. Para ele, “o ser humano é o ponto de interação entre o sensível e o espírito, onde os dois grandes ritmos desta tensão cósmica se encontram e interagem. O ser humano é a consciência e o valor do Universo”.

Guru Gobind Singh é o maior herói da história da Índia. Ele tinha uma charme magnético que transformava um pássaro ordinário em um falcão, e sua bondade era também legendária. As pontas de suas flechas eram cobertas com ouro, pois caso ele tivesse que lança-las em seus oponentes, suas famílias teriam como se manter.

O guerreiro do cavalo azul, o Senhor do Falcão Branco, o Rei que vestia plumas, Guru Gobind Singh era um homem profundo, vigoroso, generoso e cheio de fé. Sua presença instilava e exaltava o espírito – chardi kala –, e fazia com que o mais simples mercador, ou agricultor, ou a mais simples dona de casa, se imbuíssem da grandeza de seus espíritos e adquirissem uma força sobre-humana. Ele era também um estudioso e filósofo. Sua obra literária – escrita em 4 diversas línguas, as quais dominava profundamente –, tornou-se um veículo de regeneração e cura de um povo deprimido e humilhado.

Na história da civilização, Guru Gobind Singh exerceu um papel crucial e nos deixou um legado de como um santo-guerreiro pode lutar contra a tirania monstruosa no mundo e ainda sim permanecer sereno e confiante nos desígnios divinos.

Estudar o Jaap Sahib, poema composto quando ele tinha apenas 16 anos, nos dá a medida de sua arte, sua visão e sua fé inabalável em um Deus que é a alma humana. O potencial libertador de sua arte está no fato de reconhecer uma unidade entre todos e tudo, independente de qualquer limite social, cultural ou político. Jaap Sahib é um Shabd que invoca o espirito divino dentro de tudo, porém, não através da vertigem de uma recitação mecânica, mas pela prodigiosa presença do verbo que convoca à ação! O Deus da ação.

01-Baba Banda Singh Bahadar - marched towards Punjab from Nander with 5 arrows and 5 Sikhs

Na imagem acima, Baba Banda Singh Bahadur, um dos comandantes do exército de Guru Gobind Singh