[GSK] Perdendo o medo do desconhecido

Aula ministrada pela Gurusangat Kaur Khalsa em 21 de agosto de 2015

Bom dia, Sat Nam!

Hoje vamos fazer um kryia para equilibrar os chakras e os órgãos correspondentes. E eu gostaria de rever um pouco com vocês esse sistema de proteção e propulsão que nós temos. No Kundalini Yoga, não existe gafe maior do que um professor dizer assim: “Vou ajustar seu primeiro chakra porque o sétimo está muito ativo”. É uma gafe absurda descontextualizar os chakras.

Os chakras existem num contexto, e esse contexto tem dois grandes propósitos: proteção e propulsão. Quem fez o Coaching Aquariano sabe do que estou falando. Um é o modo de crescimento e outro é quando você está em modo de recuperação. Nós não precisaríamos dos sistema de chakras se fôssemos usar apenas nossa defesa animal, porque nossa defesa animal, aquela reativa, já está bem trilhada e formada em nosso corpo. Nosso corpo tem uma ação que na neurologia a gente chama de ação reflexa. O que acontece é que o outro tipo de defesa que o sistema de chakras se dispõe a fazer é muito qualificado e requintado. E o sistema de chakras surge no ser humano na medida em que a parte mais evoluída do cérebro surge.

Os animais têm um sistema de chakras muito diferente, em que o máximo deles é o nosso mínimo. E o máximo dos animais é o nosso triângulo inferior. Nós começamos evolutivamente no mínimo e evoluímos de uma forma tão requintada, tão fina no nosso sistema de defesa, que temos o triângulo superior, que foi uma evolução que surgiu junto com o cérebro. E é esse o lugar do sistema de chakras que está disponível para nosso uso. Mas acontece que a gente não faz uso dele (dos chakras superiores) para uma defesa animal porque não temos uma reação de defesa do triângulo superior que seja de forma reflexa. Então a forma reflexa da defesa do triângulo superior é algo que precisa ser conquistado. E conquistar esse triângulo superior é basicamente nosso objetivo na vida. No momento em que conquistamos esse sistema, uma coisa maravilhosa acontece conosco. Tudo que serve para nos chacoalhar, nos confrontar, nos tirar do lugar comum, e que numa defesa animal a gente rechaça, numa defesa superior, é justamente ali que está disposto para a realização do nosso destino.

Na medida em que você conquista uma ação reflexa no seu triângulo superior, você está garantindo realizar aquilo que você veio para realizar e pagar sua conta aqui. Para agirmos de acordo com a acão reflexa do triângulo superior a gente precisa de oportunidades. Falta oportunidade para alguém aqui para se sentir mal? Então, muitas vezes o que falta é tempo. Às vezes a gente precisa cair 500 vezes, às vezes precisa cair 500 mil vezes. O tempo é livre e é deslimitado. Por isso, o que a gente quer é acelerar esse processo e é pra isso que a gente vai trabalhar na aula de hoje.

Kryia ministrado: Equilibrando os Chakras e órgãos correspondentes (Livro: Transformation – volume I)

Observação sobre mantra “Har Wahe Guru Har Sat Nam”. GSK: Esse mantra pode mudar a sua ação reflexa. Ele elimina a dor na hora da morte. É uma morte a gente não se submeter ao desafio. Entoe com grande respeito.

Vamos fazer agora uma meditação (Aap Sahae Hoa) para comandar os cinco tattvas e perder o medo do desconhecido. Mas aí você diz: “Ah, eu sou uma pessoa muito destemida”. As pessoas muito destemidas tem um tipo especial de medo do desconhecido que é aquilo que as derruba: que as faz ficarem guerreiras, mas não santas guerreiras. A terem sempre uma visão míope e amedrontada de quem aos seus olhos aparece absolutamente errado. Um julgamento em que o outro é absolutamente errado se fundamenta no temor de entrar em contato com aquilo que é absolutamente diferente de mim. Isso fere o princípio que o Yogi Bhajan ensinou segundo o qual, numa comunicação consciente, não importa o que você sente, o que você sabe ou o você quer, importa o tanto que você conhece o outro e o quanto você pode entrar no outro. Uma das coisas que o Guru Gobind Singh mais ensinou na vida dele, o legado principal dele – além de ser a absoluta igualdade e o direito de todos existirem na excelência –, foi que você precisa entrar no universo do inimigo. Você precisa ser capaz de se sentar e conversar com seu inimigo sem nenhum tipo de medo.

O ideal é fazer essa meditação com a versão do Gurudass, porque ela tem uma freqüência que restaura o estado de graça. E é justamente essa radiância que leva a gente a respeitar o adversário. Preciso dizer uma coisa, eu gosto demais de séries de época e assistindo a uma delas esses dias, o personagem de um príncipe disse a seguinte frase: “Um dos sinais mais importantes da realeza é que a pessoa tem que ter generosidade e elegância”. E esse elemento foi algo que o Guru Gobind Singh trabalhou demais. E lembrem-se que o Guru Gobind Singh levou os párias para a realeza, seguindo o princípio do Guru Nanak completo: não vamos viver numa sociedade igual igualando todos por baixo, vamos viver numa sociedade igual distribuindo a riqueza. Uma das coisas importante para ele era a elegância – não só no modo de vestir, mas de falar e agir, essa elegância da casa real do Guru Ram Das –, e a generosidade. Vocês veem que não são só aqueles que nascem em uma casta que podem desenvolver isso. Nós também podemos desenvolver generosidade porque ela é base fundamental de nossa prosperidade. E uma das coisas que mais nos leva a nos recolhermos diante do desconhecido é a nossa falta de generosidade. Nós somos pouco generosos com o desconhecido. Esse mantra faz com que o nosso corpo radiante aumente tanto – um momento em que o corpo radiante explode é o momento em que não estamos mais inseguros –, que estamos cheios de infinito. Nesse momento é muito tranquilo lidar com a feiura da oposição.

Yogi Bhajan diz que a prática dessa meditação nos ajuda demais a lidar com a animosidade. Todas as vezes que a gente progride demais a gente atrai animosidade. São as quadraturas. Não tem jeito. A sombra é proporcional à luz. Nessa atração da animosidade você precisa não ficar reativo. Você precisa interagir. Esse mantra é para isso também.

May the long time sun shine upon you…

Sat Nam Wahe Guru

[Transcrição Hari Shabad Kaur Khalsa]

Dhan Dhan Ram Das Gur

Adaptado do artigo de Pritpal Singh – Sikh Dharma Internacional

Guru Nanak sempre foi acompanhado de músicos maravilhosos. Após a morte de seu notório companheiro Mardana, que tocava a rabeca, dois jovens talentosos, Balwand e Satta, foram incorporados à Corte. Eles se tornaram referência do Shabd Guru e serviram até o quinto Guru, Arjan.

Era uma tradição nesta Corte doar dinheiro aos músicos quando estes tivessem enriquecido a experiência meditativa da sangat. Certo dia, quando a neta de Satta iria se casar e a família precisou de mais dinheiro, Balwand e Satta procuraram pelo Guru Arjan. Guru Arjan, que acabara de assumir o Trono e ainda não tinha acesso ao dinheiro da Corte, deu a eles o que tinha pessoalmente. Aconteceu que o valor não cobria os enormes custos do casamento, e os músicos se enfureceram. O sentimento era que eles mereciam muito mais, pois sem eles não haveria a Corte. A importância deles era, segundo eles mesmos, superior à do próprio Guru.

No dia seguinte, quando Guru Arjan mandou chamá-los para tocar em sangat, eles se recusaram e começaram a tecer críticas a todos os Gurus. Guru Arjan disse que não tinha nenhum problema em ouvir suas críticas, mas ofensas ao Guru Ram Das, e por extensão ao Guru Nanak, não seriam toleradas. Assim, Guru Arjan anunciou que os músicos não pertenciam mais a sua Corte. Essa foi uma grande mudança, já que Balwand e Satta eram músicos históricos na Corte dos cincos primeiros Gurus. Foi, a propósito, nesta época que o Guru iniciou um treinamento musical, ensinando a todos seus alunos o Kauri Kriya, o qual consiste em cantar a escala de 19 notas de forma meditativa. Ele também passou a tocar nas meditações da sangat o instrumento que então criou, a Sarinda.

Neste momento, Guru Arjan definiu claramente as qualidades que cada Ragi deveria manifestar:
1) clareza mental e devoção a Deus no coração;
2) serviço à sangat;
3) cinco virtudes: verdade, contentamento, fé, compaixão e paciência;
4) ausência de orgulho e hipocrisia;
5) presença neutra de paz e alegria.

Quando Balwant e Satta viram o quanto a Corte florescia mesmo sem eles, e sinceramente perceberam o erro cometido, procuraram Guru Arjan e pediram para serem readmitidos na Corte. Isso, contudo, lhes foi negado seguidamente. Eles então compuseram o Balwand di Var, descrevendo seu desejo sincero de estar na presença do Guru. É dentro desta composição que se encontra o Shabd Dhan Dhan Ram Das Gur. Com extrema humildade, eles esperaram pelo chamado do Guru. Ao ouvi-los, o Guru admitiu o quanto a composição era elevada espiritualmente, e declarou que ela deveria ser incluída no Siri Guru Granth Sahib mesmo não sendo Balwand e Satta seres divinos.

Este Shabd tem sido entoado pelo menos uma vez por dia no Golden Temple nos últimos 400 anos. Não é incomum ouvir as pessoas entoá-lo quando estão andando pelo mármore do templo dourado. Este Shabd é notoriamente reconhecido pela intervenção milagrosa do Guru Ram Das àqueles que o entoam com pureza e sinceridade. Graças ao Siri Singh Sahib Yogi Bhajan, milhares de pessoas pelo mundo afora têm a chance e a benção de se conectar com a força poderosa do Guru Ram Das, através do Naad deste Shabd, e receber sua sublime ajuda.

Feliz aniversário de nascimento do Guru Ram Das e que este Shabd traga a você, aos seus amigos, familiares e alunos as bênçãos dele.

Wahe Guru.
SS Gurusangat Kaur Khalsa
Belo Horizonte, 1 de Agosto de 2014.

Não me enterrem antes

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Esta é a estação que toda a comunidade do Kundalini Yoga e do Sikh Dharma celebram a vida, a obra e o legado de Guru Ram Das Ji. Muito significativo para nós todos é que há 10 anos esta mesma época se tornou também aquela dedicada a celebrarmos a vida do nosso venerável Mestre e Chefe Espiritual, Siri Singh Sahib Yogi Bhajan.

Guru Ram Das era o Professor Espiritual do Yogi Bhajan. Eles tinham uma relação de profunda unidade, amor e respeito. Desde o primeiro desafio que Yogi Bhajan foi submetido, ao trazer todos os Ensinamentos sagrados do Kundalini Yoga para o ocidente, foi no Guru Ram Das que ele buscou amparo e orientação. Em seus momentos de dúvida, era a ele que recorria, e lá estavasempre seu Professor em seu corpo sútil para guiar seu aluno.

Foi também com seu Professor que ele celebrava a vitória de seus alunos e da comunidade espiritual 3HO, que aos poucos crescia em várias frentes para carregar o legado desta tradição. Eu me lembro muito bem, o dia em que nós, em Berlim, recebemos a notícia dando conta de que Yogi Bhajan cancelara sua vinda para sua temporada de verão na Europa, porque havia adoecido gravemente e sua vida estava sob risco. Isto era o início dos anos 90, quando sua saúde deteriorou demais, em resposta à sua incansável dedicação a compartilhar os Ensinamentos do Kundalini Yoga e do Dharma com todos, e também sua dedicação total à criação de negócios aquarianos para que as gerações do futuro soubessem, sem dúvida alguma, que era possível e muito necessário a prosperidade alinhada com os valores mais nobres da vida humana e do planeta. Ele trabalhou sem parar sob a orientação de seu amado Professor, o Guru.

Nesta época ele nos advertiu seriamente: “quando eu morrer, nem pensem em me velar ou cremar antes de pelo menos três dias. Eu provavelmente voltarei!”. Isto aconteceu de fato três vezes. Tê-lo de volta a vida era sempre um susto, e uma felicidade sem palavras. Ele dizia que nesta aparente morte ele tinha a oportunidade de se instruir mais precisamente com seu Professor para que seu trabalho pudesse ser realizado de forma mais precisa, e com maior impacto. Ele realmente fez muito por todos e pelo Planeta.

Finalmente, quando sua saúde se abalou fortemente, ele nos avisou que o momento chegara. Ninguém queria acreditar, pois tantas outras vezes ele acabava retornando para nós. Mas, admitir que talvez naquelas últimas semanas de setembro de 2004, ele estivesse de fato partindo era necessário, pois muito precisava ser preparado para sua passagem.

Uma semana antes de morrer, ele ainda deu sua aula semanal de sua cama. Sua voz era trémula, mas sua consciência vibrante. Lentamente seu coração foi dando sinais de falência e ninguém estava certo da razão pela qual ele ainda permanecia em meio a todos, mesmo sob tanto sofrimento. No dia 6 de outubro, ao cair da tarde, ele finalmente descansou e partiu. Durante três dias, os últimos ritos em sua homenagem foram realizados, e no dia 9 de Outubro ele foi cremado. Naquele momento, todos compreenderam porque ele esperara tanto para partir. Ele queria ser cremado exatamente no dia em que Guru Ram Das havia nascido. Ele quis se dissolver nos braços daquele que nascera para guia-lo e guiar todos seus alunos no ocidente.

Após sua morte, Siri Singh Sahib Harbhajan Singh Khalsa Yogi Ji se juntou a poucos seletos, como Dr. Martin Luther King Jr., Madre Tereza, Papa João Paulo II, e foi homenageado pelo Congresso Americano, com honrarias estampadas numa resolução criada em homenagem a sua vida e trabalho.

Por isso, o mês de outubro se tornou duplamente importante para nós. Celebramos a vida do Guru e seu discípulo: o Guru e o Mestre.

Que todos possam ser abençoados pela consciência de ambos, que se mistura à nossa neste época de celebração para experimentarmos suas qualidades retratadas na inclusão, justiça, bondade, compaixão, entrega, excelência, e amor.

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte, 1 de Outubro de 2014.

Reflexões de uma Khalsa

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Às vezes não acredito, mas se prova verdade logo que eu me lembro que está garantido. Estou falando da mão invisível e protetora de Guru Ram Das, e hoje tivemos mais uma vez a prova dela.

A primeira expedição à Índia, na companhia do Siri Singh Sahib Yogi Bhajan, aconteceu em 1972. Mais de 80 alunos o acompanharam naquele Yatra (viagem sagrada) à Casa do Guru Ram Das, o Golden Temple. Não sei se você que me lê pode imaginar o que isso na época representou. Vou tentar tecer uma imagem: hippies, cabelos longos, magros, brancos de olhos claros, a maioria com um amontoado de panos cobrindo a cabeça dando a entender que se tratava de um turbante, ao lado de um homem de dois metros de altura, impecavelmente bem vestido em sua túnica branca, seu turbante bem colocado, meticulosamente combinando suas joias sobre um tamanco holandês branco, que os conduzia orgulhosamente através do parkarma (pátio ao redor do lago, cujo centro recebe o tempo dourado).

A imagem continua… os milhares de indianos, de todas as religiões, que circulam diariamente no Golden Temple não se contêm e olham descaradamente, pegam, riem, trocam olhares, caretas, as sobrancelhas de uns se levantam em espanto, a boca cai, outros ficam sorrindo sem graça e admirados ao mesmo tempo! Quem serão estas pessoas tão estranhas ao lado deste Sahib?

Pela primeira vez em suas vidas, estas pessoas foram levadas a experimentar um estado de puro êxtase sem o uso de LCD ou maconha. Eles entraram e pisaram no chão onde o Shabd Guru pode ser sentido, quase tocado. Eles se banharam nas águas cristalinas e puras do Sarovar, eles se prostraram diante do Guru, eles foram meditar ao lado dos minaretes no telhado do templo. Eles se extasiaram com a frequência daquele lugar, e tudo parecia simplesmente fluir divinamente, digamos, quando os problemas começaram.

Em pé, falando para a sangat em um dos gurdwaras dentro do Golden Temple, Yogi Bhajan começou a explicar para o indianos o valor sublime daqueles jovens mal-ajambrados. Ele dizia que muito diferente deles indianos, aqueles “ungresis” (termo usado pelos indianos para nós estrangeiros) eram disciplinados, se assentavam e meditavam no amrit vela, faziam yoga, praticavam o bem, serviam e vivam o Dharma de uma maneira viva, enquanto os indianos se escondiam atrás de aparências, corrompidos pelo desejo de possuir e perdidos numa hipocrisia religiosa que criava uma separação entre o momento do tempo e a vida em si.

Na medida em que ele discursava a tensão só aumentava. Dava para sentir a atmosfera pesada e a multidão dentro do Gurdwara se irritando. Eles trocavam olhares entre si, ouvia-se murmúrios indignados, até que um deles irrompeu por entre a multidão e, com uma espada na mão, partiu para cima do Yogi Bhajan. Ele já sabia e antevira tudo e sabia o que o esperava. Imediatamente, Shanti Kaur partiu para protegê-lo, junto com outros da equipe de segurança, tomando a espada do agressor e levando todos para fora daquele espaço, onde foram colocados numa sala reservada dentro do Golden Temple e lá se trancaram.

Do lado de fora, a multidão furiosa nao arredava o pé e mandara avisar que eles não sairiam dali impunemente.

O Yogi disse aos seus alunos que o momento era difícil, que havia confrontado a hipocrisia religiosa de muitos e que eles estavam sob perigo, mas que o Guru Ram Das haveria de achar uma solução. Assim dito, ele se retirou para um cochilo, sob olhos incrédulos da maioria – “como ele pode dormir numa situação desta!”. Passado algum tempo, ele abre os olhos e diz: “Guru Ram Das apareceu para mim pessoalmente e me disse para entoarmos este mantra: Guru Guru Wahe Guru, Guru Ram Das Guru”. E todos se assentaram e entoaram a noite toda. No Amrit Vela, houve um grande silêncio do lado de fora. Eles espiaram e viram que havia nenhuma pessoa sequer vigiando a porta. Todos tinham ido para o outro lado do Templo, acompanhar a carruagem do Guru, a qual o traria de seus aposentos para o centro da corte. Eles abriram a porta e saíram em absoluta segurança, atravessaram o portal do templo e foram para casa.

Talvez você esteja pensando que aquelas pessoas não teriam feito nada com os ungresis e que tudo não passara de uma ameaça. Yogi Bhajan não acreditava nisto. Aqueles eram anos duros, quando a Índia e seus cidadãos viviam na barbárie das guerras. O Paquistão estava em guerra com a Índia, a guerra fria entre EUA e URSS estimulava ainda mais a rivalidade e a violência na região. O que aconteceu naquela noite foi de fato limítrofe e nos ensinou desde então uma coisa:
> Que ninguém deve deixar de proteger e enaltecer os santos, por mais que as aparências digam o contrário.
> Que ninguém deve alimentar o preconceito em si ou do outro.
> Que ninguém deve se retirar sem proteger sua palavra e sua identidade.
> E que tudo isso pode causar confrontos e, consequentemente, problemas, e que quando eles surgirem não devemos nos esquecer do mantraque espalha e irradia amor – Guru Guru Wahe Guru, Guru Ram Das Guru.
Este é o mantra pessoal de proteção para todos que, em suas vidas se sintam ameaçados e acurralados. Ele nunca falha!

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 21 de Fevereiro de 2014.

Vand ki Chakna – Todos têm o mesmo direito!

SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Existem três princípios universais que regem a vida no Sikh Dharma. Eles foram ensinados por Guru Nanak Dev Ji e por todos os seus sucessores na Corrente Dourada. A vida pautada na ética universal, revelada no zelo pelos direitos humanos, pela igualdade e pela compaixão entre todos os seres, só pode ser alcançada gradualmente, na medida em que nos educamos.

Nam Japa é o ato de se levantar antes do sol, contemplar o Infinito e meditar na unicidade de todas as coisas. Estas são as horas ambrosiais (amrit Vela), entre 4h e 7h da manhã, período em que a energia solar está de tal forma angulada com a Terra que, se nos alinharmos nesta frequência, poderemos canalizá-la em nós para aumentarmos nosso vigor e nossa disposição durante o dia. Acorde mais tarde e você verá a diferença. Este é o momento de nossa sadhana.

Dharam di Kirat Karni é o trabalho honesto que nos traz dinheiro com o suor de nossa testa para nossa prosperidade. Os Gurus ensinavam que jamais devemos mendigar, e nos aconselhavam a termos sempre o suficiente para sermos o primeiro a doar.

Vand ki Chakna, o terceiro princípio, é o ato de agir de forma generosa, compartilhando o que se tem com quem não tem, e se envolver de forma prática para que todos os seres possam prosperar e viver dignamente.

Logo nos primeiros meses em que Siri Singh Sahib Yogi Bhajan havia se mudado da Índia para os Estados Unidos, uma primeira oferta de trabalho surgiu. Uma senhora muito distinta de Los Angeles, conhecedora de algumas escrituras sagradas, lhe convidou para dar uma aula de Kundalini Yoga em um clube fino da cidade. Ele aceitou de bom grado o convite, que vinha também com um pagamento de 50% do que se arrecadasse naquele dia. Seria para ele o primeiro pagamento por seus serviços desde que deixara a Índia. Talvez um começo, pensou ele, e sem dúvida este dinheiro viria em boa hora, pois tudo que pôde trazer consigo da Índia foram US$ 30, e, destes, só lhe restavam alguns centavos.

A sala estava cheia. A senhora, muito gentil, o apresentou, todos assistiram e participaram devidamente, e ele ficou muito satisfeito com o resultado. Ao final, sua anfitriã estava tão feliz que o convidou para jantar como forma de lhe agradecer pelo êxito do evento. Antes que saíssem para o restaurante, ela lhe passou US$ 150, o que correspondiam à metade do que fora arrecadado. Ele guardou o dinheiro no bolso de sua curta (túnica típica de Panjab) e agradeceu a ela e ao Guru Ram Das!

Durante o trajeto, a senhora foi lhe apresentando o que sabia sobre vários assuntos ligados à espiritualidade e ele ficou muito impressionado com seu conhecimento. Ao se aproximarem do restaurante, estacionaram o carro e caminharam alguns metros até a entrada. Logo, ele avistou um homem muito peculiar parado junto a um poste, com um tabuleiro de lápis dependurado no pescoço. Este homem chamou sua atenção. Ele era negro e estava bem-vestido, e suas mãos seguravam firmemente o grande tabuleiro de madeira, repleto de lápis muito bem apontados. O homem dizia em voz alta: “Por favor, peço que comprem meus lápis, pois com eles estou ajudando a alimentar minha família. Me recusam trabalho, por isso, vendo lápis que eu mesmo produzo”.

Yogi Bhajan, sem pestanejar, se dirigiu até ele do outro lado da rua, pegou um lápis e deixou na caixinha todo o dinheiro que tinha no bolso. Ele agiu de forma natural, afinal, para ele o ato de se solidarizar e compartilhar o que lhe pertence com o outro, muito mais do que um ato de grandeza, era um compromisso de vida no Dharma. Mas, não foi o que sua anfitriã pensava.

Num instante, toda elegância daquela intelectual se fraturou em milhares de cacos pontiagudos e cortantes de raiva e indignação. Ela disse de modo ríspido: “Você deu todo o dinheiro que ganhou, alias, o único dinheiro que você tinha, para aquele homem? Você pagou US$ 150 por um único lápis? É isso que vocês fazem conosco; vocês estragam tudo, vocês alimentam a vadiagem dessa gente!”. Yogi Bhajan não esperava essa atitude daquela cálida senhora e, calado, decidiu seguir para o restaurante, porque estava realmente com fome e a comida parecia muito boa naquele self-service. Incrédula, a mulher foi atrás dele e continuou com seu rompante dizendo: “Quero ver agora como você vai pagar sua conta. Eu é que não vou pagar nada para você, só para você aprender a lidar com o dinheiro de forma responsável!”

Ele pegou um prato na pilha ao lado do buffet e seguiu tranquilo o ritual do self-service. Pesou, pegou o ticket que indicava o valor devido e foi para a mesa. Sua anfitriã sentou-se calada e comeu ao seu modo. Ao final do almoço, Yogi Bhajan começou a pensar em como pagar sua conta. Ela, que já terminara, se virou para ele e disse com escárnio: “Quero ver de onde virá o dinheiro!”. Ele, então, pensou em si e na situação e, depois, sorriu para ela dizendo calmamente: “Sou filho do Guru, e é dito em todos os versos divinos que o Guru não deixará seus filhos na mão”. Ela revirou os olhos…!

A seguir, uma das garçonetes do local se aproximou e Yogi Bhajan pediu pela conta, esperançoso de o Guru fazer algo, é claro. A moça então disse gentilmente, “Oh, não se preocupe, pois sua conta já está paga”, ele arregalou os olhos e perguntou: “Por quem?”. “Havia um de seus alunos aqui, ele não quis perturbar seu almoço de trabalho, por isso, pagou sua conta e se retirou”, disse a garçonete. “Quer dizer que ele pagou a conta? Pagou a conta dela também?”, peguntou Yogi Bhajan, se referindo à mulher irada ao seu lado. A moça respondeu que sim, que tudo estava pago e que, inclusive, havia sobrado um dinheiro, e lhe entregou então US$ 50 de troco. Ele olhou para sua anfitriã com um largo sorriso matreiro no rosto, pegou o troco e o deu inteiro para a garçonete, que, de tanta felicidade, saiu saltitante dizendo: “Graças a Deus, Deus é bom! Ganhei meu mês!”.

Claro que ninguém sabe o que aconteceu com a anfitriã depois disso. E ele, Yogi Bhajan, bem, suas histórias continuam e cada uma delas mais surpreendentes do que a outra. Todas, sem dúvida, relatam a vida de uma pessoa que viveu o que ensinou e confiou que na bondade reside a fortuna e que no compartilhar reside a fartura.

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 02 de julho de 2013.