[GSK] Curando o estômago e projetando a identidade

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 31 de março de 2017

[GSK abre a aula]

Hoje nós vamos fazer uma aula que está no manual “Self Knowledge”, a aula é de número 21. O nome dela é “Curando o estômago”. Em toda ciência médica indiana, não só no yoga, mas também na medicina ayurvédica, o estômago e o cérebro são parentes íntimos. O estômago e parte inicial do intestino contêm praticamente todas as neurossubstâncias que a gente achava que só o cérebro tivesse. E o cérebro tem muitas substâncias que a gente imaginava que só o estômago tinha. Eles têm uma relação muito próxima e muito íntima. E todas as vezes no Kundalini yoga que a gente trabalha o estômago, ou quando vocês do Sat Nam Rasayan ou da área clínica estiverem com algum paciente cujo tema é o aparelho digestivo, vocês podem escolher trabalhar a distância o aparelho digestivo, trabalhando o cérebro ou o sistema nervoso central. Então esse é o tema da nossa aula aqui.

Essa aula toda é para aumentar o corpo radiante com asanas que vão gerar um tipo de efeito sobre o aparelho digestivo. E o tema do aparelho digestivo é a projeção da identidade. Na Era de Peixes, a projeção da identidade, imaginava-se que trabalhando o terceiro chakra, você estaria trabalhando a sua projeção. E essa é uma abordagem muito equivocada, porque ela faz uso de um impulso que vem do ego. Imaginem que vocês são um homem que, de acordo com os ciclos de vida, vai envelhecendo e, quando entra na andropausa, um dos mecanismos mais comuns que usa para compensação de estar perdendo vigor sexual, é buscar um estímulo sexual, especialmente mulheres jovens. Isso é um clássico. E esse clássico se baseia no engano de achar que a força da identidade, que vem do terceiro chakra associado à sua força de projeção mental, pode fazer com que você restaure a sua identidade espiritual. Isso não vai acontecer. A projeção mental desse homem é que toda mulher nova e jovem vai ser um estímulo para que ele possa superar a depressão hormonal. Então ele projeta mentalmente que aquilo que ele precisa é uma mulher jovem, ele pode projetar qualquer coisa, inclusive qualquer mulher, só para ele não estar sozinho. E uma mulher pode fazer a mesma coisa, ela pode projetar estar na presença de qualquer homem ou de qualquer outra pessoa, imaginando que aquela pessoa é que vai dar a ela a segurança e as condições necessárias para voltar a ser ela, baseada apenas no impulso que vem do plexo.

Isso causa um embrutecimento da pessoa e uma imaturidade espiritual muito grande, porque tudo que a pessoa consegue projetar é que precisa de algo ou de alguém para ser ela mesma e estar bem. Essa é a combinação da força do plexo e a projeção do ego. Vocês podem imaginar a energia que esse indivíduo, homem ou mulher, gasta para criar as condições ideais para mapear o meio e enganchar a pessoa. No momento em que engancha a pessoa que ela considera ideal, começam os jogos: o que eu vou te dar para você ser minha, ou o que eu vou te dar para você ser meu. Isso pode ser feito da maneira mais impressionantemente criativa, inclusive dando um ar de muita legitimidade para esse jogo. Vocês devem ter muitos alunos nessa condição. O mapa dessa condição é uma forte projeção mental, uma forte crença naquilo que está fazendo com uma forte atividade do sistema digestivo ou do terceiro chakra. Isso é que alimenta a projeção mental, porque estômago e cérebro são uma coisa só. Então a pessoa gasta toda sua energia. Se ele não alcança o objetivo dela, ela frustra. Ela deprime. Existem vários graus de depressão, mas é uma depressão. Até a pessoa entrar novamente no programa de autoconvencimento de que a chance apareceu novamente, e recomeça o ciclo de buscar outro alvo.

Isso é um esquema que um professor de Kundalini Yoga precisa conhecer profundamente: uma associação de sistema nervoso, sistema digestivo e projeção mental, e uma forte crença de que aquela pessoa pode dar aquilo que ele precisa, e vice-versa. Isso é tudo estabelecido pela pessoa, inclusive o que o outro está precisando. A única coisa que essa pessoa poderia realmente ter certeza é que ela está só e está precisando de alguma coisa, mais nada, mas ela crê e deduz no outro o que o outro está precisando. Isso nós temos que mudar. Isso é extremamente pisciano. Nós estamos vivendo hoje sob a influência da Era de Aquário, em que nós não nos relacionamos pela escassez. Então a gente não se relaciona porque em mim falta alguma coisa, em você falta alguma coisa, assim eu tenho o que você precisa e você tem o que eu preciso. Esse modelo de relação é pisciano. Isso não funciona na Era de Aquário. Então quando nossa psique se movimenta de modo pisciano na Era de Aquário, nós vamos adoecer gravemente. O primeiro adoecimento é uma perturbação mental, antes de chegar numa perturbação física. Vocês precisam compreender isso primeiramente em vocês porque alguns de vocês vivem isso ainda.

No outro modelo as engrenagens mudam. No outro modelo, a projeção mental está presente, o plexo solar está presente, porque ele é nossa identidade, mas há outros componentes presentes. Então um componente essencial da abordagem aquariana do relacionamento não vem do terceiro chakra, vem do coração. Não tem nada a ver com romance, aquele “eu te amo tanto, eu preciso de você”. É a inteligência que vem do coração, aquela que faz escolhas da alma. Tem a projeção, que é uma identidade mapeada pela compaixão, pela consciência. E no relacionamento, eu me projeto como aquele que não precisa de nada, que está dando. E no momento em que eu estou dando, se o outro quiser me dar, ótimo, se não quiser, paciência. Desobriga o outro de me servir. Isso é um crescimento, um amadurecimento. O outro não tem obrigação de te servir. Vocês compreendem esse mecanismo? É ele que vamos ajustar hoje. Vocês vão experimentar essas vias superiores. Esse processamento é chamado de processamento superior. Eu fui ler a psicologia para entender o que os psicólogos estudam sobre isso. Eu vi nos livros de psicologia, em artigos novos, que esse mecanismo de fazer escolhas conscientes, eles chamam de extrínseco. E o mecanismo de fazer escolhas subconsciente, eles chamam de intrínseco, ou seja, como se fosse natural a escolha do subconsciente, que é essa de fisgar do meio. No yoga, os dois mecanismos são intrínsecos, o de escolha subconsciente é mais automático porque passamos 95% no mundo subconsciente. O outro é intrínseco também, só que ele não é automático. É preciso que as vias neurais sejam desenvolvidas para ele ser acionado. Nós, como professores de Kundalini Yoga, temos muito que estudar, pois nossa ciência é muito ampla e vocês precisam se qualificar para não ficar repetindo abobrinha de banquinha de esquina.

Kriya Curando o estômago, manual Self Knowledge

Meditação: Em vajra, as mãos estão sobre as coxas, coluna ereta, queixo em jhalandabhanda. Incline a coluna ereta para trás, queixo em jhalandabandha. Permaneça 1 minuto na pose, controle o plexo para você ficar nessa pose. Retorne à posição inicial, coluna ereta, queixo em jhalandabhanda. Incline novamente para trás. Respire com consciência pelo plexo. Mantenha o plexo firme e ativo para manter a coluna ereta. A cabeça não cai para trás. Permaneça por 2 minutos. Inspire, expire e venha retornando para o centro. Quem consegue, continue em vajra. Aqueles que precisam, sentem em easy pose, vocês vão perder parte da pose, mas podem assentar. Mãos no peito, mão esquerda sobre o peito, mão direita sobre a esquerda. Vocês vão entrar no estado de Suni-e por três minutos e depois vão entoar juntos esse shabad. (Waheguru Simran, por Bhai Harinder Singh). Inspire, suave mulabhanda. Expire. Deite para o relaxamento.

[Encerramento]

Eu quero compartilhar uma coisa porque que sei que vocês formam e nunca mais voltam no livro um de vocês. A gente falou sobre as Eras de Aquário e de Peixes. Outro dia, o Siri Sahib estava apresentando o programa do nível 1 para a turma que começou agora. Eu fiquei impressionada com o que o Yogi Bhajan escreveu no primeiro capítulo do livro, no final dos anos 1970. É bom colocar isso em perspectiva para vocês terem uma noção do que ele falava, e hoje a gente pode computar muito bem. Está lá na página 4 do seu manual:

“Na última era, nós podíamos nos safar de muitos comportamentos fraudulentos, que poluem a esperança do outro e a natureza. As pessoas podiam se safar disso. Agora, a partir da entrada da Era de Aquário, isso vai se tornar impossível. No passado, a pessoa podia se embelezar ou embelezar uma persona, ou usar uma máscara e se mostrar ao mundo e ser conhecido no mundo através dessa máscara. Na Era de Aquário, qualquer tipo de persona estará sob auditoria. Não existe nem uma única persona que não estará sob auditoria. Cada ação que qualquer uma dessas pessoas fizer poderá ser rastreada e toda aquela aparência poderá ser dissolvida em questão de instantes. Cada transação financeira, cada negócio feito com base em dinheiro vai deixar para trás não só a marca dessa transação, mas também o caráter que esteve por trás dela. As pessoas serão conhecidas através desse tipo de ação. Na Era de Aquário, a persona que esteve em auditoria antes ou aquelas que observaram a auditoria do outro terão como chance abrir mão dessas personas e entrar no mundo aquariano com a sua verdadeira identidade, e a ação vai ser a linguagem do verdadeiro ser. Todo tipo de antigas defesas e manipulações baseadas em esconder e controlar serão deflagradas, trazidas à tona, clareadas na Era de Aquário. Você vai precisar muito compreender a capacidade de suas ações, as consequências delas, e agir sabendo que você vai ser revelado através das suas ações.”

Eu acho isso muito impressionante. E na página sete, ele fala algo importantíssimo para a gente considerar. Então compreenderam isso da persona, do ser autêntico e da auditoria? Não é porque a gente tem uma cara de professor de Kundalini Yoga que a gente estará livre dessa auditoria. A gente não está livre. Ela vai acontecer. Na página sete, no último parágrafo, ele fala: “A Era de Peixes foi a Era mais horrorosa que já tivemos. Ela foi uma Era em que o feminino foi arrancado de suas raízes e explorado pelo desejo do homem. A relação masculino e feminino não tinha nenhum tipo de força e caráter. Ela só existia sem nenhum tipo de gosto especial. As mulheres na Era de Peixes deram à luz criaturas, homens mais cheios de medo e inseguros, impotentes e supercondicionados por sexo. A desordem sexual foi pior na Era de Peixes do que nos últimos três mil anos. No último século, ela se fez ainda mais presente. Os hábitos sexuais mostravam o quanto o homem era raso e sem honra. E a mulher mostrou-se submissa e indulgente, tentando se fazer segura na presença de um homem sem caráter”. Essa relação precisa ser transformada, a mulher precisa se reerguer.

Eu acho que vocês deveriam ler o primeiro capítulo do livro de vocês, refrescar a memória e levar isso para seus alunos em sala de aula, sem um cunho ideológico, porque a auditoria vai acontecer em todos os meios e ramos. Tem um ano que estou dizendo que vai haver um processo profundo de limpeza. A gente não vai impedir esse processo tentando sair do desconforto imediatamente. O desconforto vai perdurar e nós temos de resistir, porque nesse desconforto reside a tal limpeza e nessa limpeza reside a esperança. Se não houver a limpeza não há esperança. O Yogi Bhajan falou sobre isso nos anos 1970, lembrem-se disso. Quando eu comecei a dar aula de Kundalini Yoga em 1995, era muito difícil falar sobre isso, porque nada disso acontecia. Era uma conversa muito teórica, era mais um preparo para aquilo que viria. Quando entrou o ano 2000, era quase impossível porque nós brasileiros achávamos que o mundo passaria por uma auditoria, mas nós não, que nós já tínhamos feito e que a nossa auditoria tinha sido a ditadura militar – tudo que a gente tinha que sofrer e expurgar, já tinha acontecido na ditadura militar. Ledo engano, a gente tem muita coisa ainda para expurgar.

Esse mecanismo “eu tenho o que você precisa e você tem o que eu preciso, vamos fazer um gancho para a gente se precisar” é o modelo que perpassa tanto a política quanto as relações humanas. É isso que precisa acabar, jogar fora. É muito incrível fazer parte desta tradição, em que o pé é tão inserido na realidade e prepara a gente tanto para ser realmente um instrumento de transformação, se é que vocês aceitam humildemente tomar a posição de um ator muito efetivo, porque tudo que a gente vai precisar fazer agora é manter a base para que as pessoas não sucumbam. Elas estão desesperadas, elas estão sofrendo. Hoje vou me encontrar com uma professora de Kundalini Yoga, uma psiquiatra que coordena uma ONG no Parque das Mangabeiras e atende aos moradores do aglomerado da Serra. Ela quer conversar comigo a respeito das pessoas que estão suicidando no aglomerado. Os pacientes psiquiátricos são mais sensíveis e o suicídio aumentou demais, então nós temos de fazer o nosso papel. Ter uma conversa que ajude as pessoas a se manterem, a transitarem nessa auditoria, porque ela é difícil, longa e aparentemente a gente perde muita coisa, e não sabemos o que vamos ganhar, mas ganhamos a chance de recomeçar com outras bases. A gente não pode ter pressa para construir o modelo que a gente acha que deve ser construído, porque a gente não tem menor ideia. A gente pode ser muito bem surpreendido com uma coisa infinitamente melhor e maior que a gente imagina que seja o bom. Esse é o papel do professor de Kundalini Yoga nesse momento. Explique essa aula para os seus alunos. Faça-os entender que nem tudo vem da projeção do ego com a força do plexo, tirá-los da depressão e fazê-los entrar na radiância do Guru, desse Professor Universal.

May the long time sun shine upon…

[Transcrição: Sada Ram Kaur]

[GSK] Dínamo para corpo prânico e amadurecimento emocional

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa no dia 30 de outubro de 2015

[GSK abre a aula]

Nós hoje vamos fazer um kryia que tem a ver com a defesa imunológica. Escolhi esse kryia porque estamos passando por uma transição climática, e ela debilita a gente, mas também porque a defesa imunológica no Kundalini Yoga nunca começa no corpo físico. A defesa imunológica começa no corpo prânico, que tem uma relação muito direta com seu amadurecimento emocional.

Do ponto de vista ideal, se nós pudéssemos ser formatados num laboratório e saíssemos de lá prontos, a medida que nos tornaria muito bem temperados e aclimatados para a vida na Terra seria se nós saíssemos desse laboratório com a nossa identidade cultural ressonante com a nossa identidade espiritual. Estou falando de uma programação genética com a qual nós não teríamos problemas de assumir, de forma única, a ausência de distâncias entre a nossa identidade cultural e a nossa identidade espiritual.

Todos aqui tem na sua identidade espiritual o desejo grande de luta para que haja igualdade, justiça, nós queremos um mundo justo e cheio de oportunidades para todo mundo. Então, digamos que essa seja uma identidade espiritual forte nossa. Nós não viemos para sermos recluso ou nos excluírmos socialmente para termos uma paz de espírito. E é por isso que vocês fazem Kundalini Yoga. Se vocês tivessem outra forma de prática espiritual, vocês viriam com outro traço espiritual. Mas o Kundalini Yoga te prepara para entrar na vida cheio de fogo e cheio de entusiasmo. E aí você poderia ter nascido em qualquer cultura e em qualquer tempo, esse traço espiritual se manifestaria e você não o recusaria. Imagine então que você nasça numa comunidade de monges tibetanos, você nasce com o traço cultural de querer abraçar a vida e transformar a vida, mas você tem uma identidade cultural. Como você aproxima isso?

A identidade cultural, num laboratório, poderia ser trazida muito próxima da identidade espiritual. Isso acontece? Rarissimamente. Tem um jeito de isso acontecer. Na verdade, nós já nascemos com esses traços. No momento em que você escolhe a mãe, você está escolhendo uma identidade cultural. Mas, antes de você escolher a mãe, você já é alma – uma identidade espiritual. É certíssimo isso que o Yogi Bhajan diz: “você não tem uma alma. você é uma alma com uma identidade cultural”. No momento em que você escolhe a mãe então, você agrega um espaço cultural à sua identidade espiritual, e ali começa uma jornada. E essa jornada vai ser cada vez mais a de testar se a sua identidade cultural e a sua identidade espiritual estão em ressonância ou não. O tempo todo. Mas a maioria de nós faz o que? Cada vez mais a identidade cultural e a espiritual se afastam. Não estou falando de identidade espiritual como professor vestindo paramentos. Não! Estou falando da identidade espiritual.

Uma das coisas que ajuda esse movimento de afastamento reverter é uma coisa muito básica chamada vibração da maturidade emocional. O pulso, ou o dínamo, que faz essa convergência, é a maturidade emocional. Quanto mais imaturo emocionalmente você for, mais a sua identidade espiritual se desagrega da sua identidade cultural. Esse elo que é a maturidade emocional, a base dele é o corpo prânico. E a base da sua defesa é o corpo prânico. Seja ela de cunho muito sutil, seja ela de cunho mais denso, como é, por exemplo, a sua defesa imunológica.

No próximo fim de semana do curso de formação, a Kirn Jot vai falar sobre prana e apana e tem uma pergunta que ela faz que é assim: “por que a respiração é o seu Guru?”. A história é assim: o corpo prânico é a base do ajuste dessas duas identidades. No momento em que você amadurece emocionalmente, você começa a fazer uma coisa que é básica para que você ajuste essas duas identidades, que é: você aceita o desconhecido. É você não temer o desconhecido. Na respiração, você inspira para colocar o desconhecido dentro de você e você expira para colocar o conhecido para fora. Então, a respiração é um desconhecido e o conhecido o tempo todo. E como é que esse ajuste é feito? O que facilita essa maturidade emocional? É a gente aceitar o desconhecido. Mas até aí é uma tese plausível.

Uma das coisas que facilita a gente a amadurecer emocionalmente é a gente abrir mão de duas coisas: a primeira delas é a gente não querer ter razão – não importa quem tem razão. Numa disputa, você não luta para ter razão, você luta para ter clareza. A segunda coisa é você criar em você uma linha de ação que seja consistente com a sua vida. O que estou querendo dizer? Vou dar um exemplo: digamos que vocês sejam professores de Kundalini Yoga, vocês se expuseram a esses ensinamentos de forma consistente, vocês estão aplicando e estão dando esses ensinamentos para várias pessoas. Então vocês estão por aí distribuindo esses ensinamentos e vocês, enquanto grupo, estão abrangendo desde a maternidade à idade adulta. Vocês estão abrangendo toda a psique do desenvolvimento emocional dessa coisa chamada humanidade. Mas você mesmo não aplica os ensinamentos em você. Ou tem alguma coisa na sua vida com a qual você decide que é muito melhor fazer uma outra coisa. Quando você faz isso, quando você não vive os ensinamentos – em inglês a frase é “walk the talk” –, quando você não faz aquilo que você fala, você cria dentro da sua psique uma distância enorme entre essas duas identidades e você deixa de amadurecer emocionalmente. A pergunta é: por quê?

Porque todas as vezes em que vocês forem testados para amadurecer emocionalmente, e o teste do amadurecimento emocional se chama confronto, todas as vezes em que você for testado nessa disciplina, você tem uma escapatória, você foge da sua zona de conflito e entra numa zona de conforto.

Por isso que o Yogi Bhajan dizia que se você pegar uma coisa e fizer essa coisa para o mundo inteiro, para você e os seus filhos e para as geração futuras, não tem jeito de você não conhecer tudo. O conhecimento de tudo parte do pressuposto de você pegar uma parte do tudo e descer nela profundamente. Como diz um ditado indiano, todos os dedos das mãos são diferentes, mas quando você vai profundamente neles, eles todos caem num lugar que é comum. Quando a gente começa a escolher duas, três, “n” coisas, quando você começa a segregar para criar uma zona de conforto, ou por querer experimentar de tudo um pouco, vocês nunca vão descer na unidade das coisas. O amadurecimento emocional não teme aprofundar na base onde tudo nasce. Muitas vezes a gente teme aprofundar porque a gente acha que está perdendo aqui, aqui, aqui e aqui. Começou um confronto aqui, você pula pra lá. Começou um confronto ali, você pula pra cá. Esse samba te deixa na superfície das coisas e te deixa imaturo. A aula de hoje é um dínamo no nosso corpo prânico para que a gente possa ter essa força de aprofundar. E a palavra de convergência é: ganhar consistência. Consistência. Ninguém vai acreditar em você se você ensina uma coisa e faz outra. Ninguém acreditará em você. Escolham! Façam uma escolha! E deixem de ficar fazendo “gamble”, parem de brincar com a sorte ou o azar. Escolham e se entreguem.

Uma das coisas maravilhosas dessa tecnologia do Kundalini Yoga é que ela é infalível. Se você for um bom canal, você vai atingir todo mundo e fazer sentido, mas você precisa atingir um sentido mais profundo para você mesmo.

Kryia: Manual de formação

Meditação: Treshula Tryia

May the long time sun shine

[Transcrição Hari Shabad Kaur Khalsa]

 

Eter na mente

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Eu era uma garota determinada e metida em muitas aventuras, me atirando de cabeça em todas elas. Um dia voltando do Conservatório, onde estudava piano desde os 6 anos de idade, senti algo muito ruim dentro do meu uniforme. Era um dia muito quente, minha cabeça doía um pouco, e eu tinha treino de vôlei no clube e estava atrasada. A voz da professora de solfejo martelava dentro da minha cabeça — “você vai ter que escolher: ou o piano ou o vôlei! Não existe pianista que jogue bola, ora!” .

A saia era verde de pregas até os joelhos, de tergal, claro. A camisa era de botões, gola alta e bolsinho perto do coração. Era também sintética, para não amarrotar. Não tinha gravatinha, não. Os sapatos eram pretos, da Vulcabrás, nome forte — eu amava aqueles sapatos pretos! Mas eles eram a única coisa que eu gostava naquele uniforme de ir ao Conservatório.

Atrasada, eu andava rápido e atormentada, com receio de perder meu treino e ter que aguentar vida afora as aulas no Conservatório. No caminho, uma pichação me prendeu. Estava pichado em um muro bem pintado a frase em preto: “eternamente, é ter na mente, éter na mente”. Eu fiquei ali parada, lendo e relendo, saboreando a fantasia do pichador e pensando no conteúdo dentro da minha mente naquele momento. Era só a ansiedade e o desconforto? Ou eu podia escolher ter na mente o éter? Eu achava que o éter devia ser muito bom… O que seria o éter? Eu não sabia, mas naquele momento decidi fazer uma escolha, e eu queria que minha mente ficasse livre, leve e totalmente feliz!

Eu nunca mais voltei ao conservatório desde aquele instante.

Passadas várias décadas, eu descobri com o Kundalini Yoga o que é ter éter na mente! Eu descobri também que, naquele dia, eu decidi ser eu mesma e cuidar da minha mente. Não sei porque eu fiz isso, mas isso não importa. O que importa, como diz meu professor Yoga Bhajan, é que eu agi!

“Entre nós, há mentes dispersas, mentes que estão tentando se focar, há mentes que têm medos, há mentes que são orientados para o sexo, existem outras que vieram apenas por curiosidade, há mentes que não entendem porque estão aqui e há mentes que estão muito felizes e contentes por estarem aqui . Há todos os tipos de mentes. Este mosaico de todos os tipos possíveis de mentes nos mostra todas as facetas da mente em seus diferentes estágios de desenvolvimento e consciência. Neste momento, eu não sei o quanto de lixo cada mente tem, e também não há razão alguma para querer saber. Mas há uma razão para agir.

Faça uma meditação que te purifique e te limpe. O fato simples de que você esteja aqui é suficiente para que você seja você. Você tem uma intenção, o que é suficiente. O próprio fato de que você tem a intenção de purificar-se e fazer a sua alma brilhar é motivo suficiente para a sua mente se concentrar. O próprio fato de você poder se concentrar lhe dará o poder para meditar, e o poder de uma atitude meditativa é samadhi em ação! A mesma energia necessária para se tornar divino pode ser usada para se tornar demoníaco. A mesma mente que adoece pode curar. Mente faz inúmeros trabalhos e sua atividade é ilimitada.

Nosso ponto de partida pode ser diferente, diferentes capacidades, diferentes problemas, diferentes esperanças e as diferentes qualidades da mente. Mas através da disciplina constante, o progresso é alcançado. As pessoas às vezes não entendem o que é a disciplina. Disciplina é a sua experiência da sua consciência, onde você se sente vivo. Essa é a maior de todas as experiências.”

 

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte, 4 de dezembro de 2013.