[GSK] Filhos e filhas do Dharma

por Gurusangat Kaur Khalsa

Nos registros sagrados da experiência humana, encontramos raramente o exemplo e testemunho de humildade e realeza como em Guru Gobind Singh. Para os Gurus Sikhs e seus alunos, a humildade é uma virtude vista e exaltada como um marcador divino. Sua mensagem universal transcende culturas e gerações e sua métrica ilumina o universo de fés, com um pulso que corta através de todos os dogmas exaltando sempre a presença divina em tudo, indiscriminadamente.

Guru Gobind eletriza as massas indianas do século XVII e as convoca a rejeitar costumes arraigados em modelos socioculturais excludentes e escravagistas, e práticas políticas que, combinadas à religião, ceifavam a dignidade humana e a livre identidade pessoal. Seu chamado era para a causa de defesa da honra, sacralidade e herança história da terra natal e de sua libertação das agruras dos ocupantes sanguinários muçulmanos, que contra todas as normas civilizadas, abertamente, violavam o direito da existência livre e soberana de todos indivíduos.

O Guru desafiou cidadãos de todas as fés e segmentos: (1) à Liberdade; (2) ao fim da injustiça e perseguição religiosa; (3) ao fim ao reinado político do terror; (4) ao fim dos governos autoritários e seu impiedoso zealot (zelo fanático); (5) à organização da autodefesa e garantia da educação e cultura a todos, como parte do direito sagrado da existência humana.

Guru Gobind entendeu a gravidade e a urgência dos tempos, os quais exigiam que as algemas do medo fossem quebradas para que as pessoas desmoralizadas e inferiorizadas pudessem resgatar a força interna e restabelecer a paz perturbada e a ordem social ferida por séculos de domínio muçulmano. Para que isso fosse possível, ele criou o Khalsa, uma Ordem dos puros de coração e mente para preservar o Dharma. Ele os batizou e os transformou em destemidos guerreiros e guerreiras da paz, com a missão de lutar por inocentes aterrorizados pelos poderosos exércitos do Imperador Mongol e pelos Rajputs, os reis indianos.

Em sua autobiografia, ele escreveu sobre o papel dos Khalsa: “para estabelecer e preservar o Dharma e eliminar o mal pela raiz. Rejeitar todas as divisões de casta, credo, etnia, nacionalidade e gênero. Dar um testemunho honrado aos Ensinamentos do Guru Nanak e seus nove sucessores. Sustentar e compartilhar a liberdade: de vida, de direitos e da dignidade humana. Defender a justiça, promover a paz, estender a boa vontade a todos os filhos de Deus. Liderar pelo exemplos e com a verdadeira compaixão, que transcende todas as barreiras criadas por homens que separam e dividem. Rejeitar diferenças e indiferenças que segregam e separam os seres humanos de Deus e um do outro. Meditar (Nam-Simran) no Nome de Deus e viver e honrar as lições do Dharma. Servir sem distinção, proteger, preservar e ser anjos de toda a Criação. Trazer honra para toda a humanidade e para Deus que sabe e vê todas as coisas. Manter Deus no centro de nossas vidas e se submeter à Sua Vontade em humildade e graça”.

Nestes tempos de grandes conflitos religiosos e morais, de corrupção e destruição, de abundância, de avanços científicos, mas também de grande medo, de covardia, de abuso de autoridade, de assaltos à cultura, à fé, à minorias étnicas, de assalto ao sagrado dos povos indefesos indígenas, enfim, nesse nosso tempo, o legado do Guru Gobind Singh pode ser útil e também uma esperança:

“(1) unam-se para causas maiores que vocês e abandonem seus interesses pessoais;
(2) construam um mundo livre de preconceitos e violência;
(3) dêem forma a um mundo ancorado na coexistência pacífica e responsabilidade compartilhada;
(4) guardem e preservem os bens coletivos como um direito da soberania universal;
(5) tenham em mente um mundo onde as iniciativas e possibilidades sejam para todos;
(6) imaginem um mundo onde a vida e a liberdade dos direitos inalienáveis do ser humano floresçam em segurança;
(7) que nossas paixões criativas sejam guiadas pela abertura do espírito e paz;
(8) que cada um esteja assegurado e reconhecido como uma parte fundamental da humanidade;
(9) quando o mal assumir sua forma e devastar o espirito humano causando medo, morte e destruição, então é necessário uma atitude corajosa de se levantarem contra a tirania usando as forças apropriadas da justiça e da diplomacia.”

São suas palavras ainda que “nós precisamos juntos tecer o tapete onde os tesouros da nossa humanidade encontrem uma recepção amiga e cada painel sagrado de nossa herança encontre um lugar seguro na magnificente completude de nossa cultura”.

Nós precisamos descobrir, apreciar e preservar os fios divinos que nos conectam e que nos colocam em cruzamentos inimagináveis, multiplicar nossas forças e bênçãos através do trabalho em solidariedade a outros encontrando respostas para as questões críticas de nosso tempo. Quando nos colocamos com este espírito universal, quando todos se mobilizarem com boa vontade para a causa universal, aí haverá a manifestação da Luz de Deus, antiga sabedoria, bênçãos de veneráveis mentores, almas iluminadas que guiarão a humanidade para uma civilização mais esperançosa e humana.

Sat Nam Wahe Guru

Porque sou Khalsa

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Há milênios, a prática de explorar níveis profundos da consciência estava intimamente ligada aos estudos da psique humana, da natureza do universo e das particularidades do corpo. Os yogis que viviam nas montanhas do Himalaia deram início a estes estudos e criaram um corpo muito sólido de conhecimento válidos ainda hoje universalmente.

Entretanto, a tomada das terras do Vale do Indus (sociedade matriarcal) pelos arianos criou uma tremenda mudança na acessibilidade a estas fontes.

Na medida em que o sacerdote se ascendia na hierarquia recém-criada, ele próprio estabeleceu que apenas os das altas castas poderiam estudar. Definitivamente privados desta oportunidade ficaram os demais indivíduos membros de outras religiões e as mulheres, já que no sistema védico elas são consideras menos do que animais.

A humanidade precisou aguardar séculos até que surgisse a voz de Guru Nanak Dev Ji denunciando a segregação e a discriminação inerentes a este sistema, que separava – e ainda separa – seres humanos por castas e gênero de forma a limitar o acesso e a experiência da expansão da consciência humana.

Os Ensinamentos do Guru Nanak e das outras nove emanações de sua luz presentes nos demais Gurus eram claros: restituir o direito de todos ao conhecimento e revogar indefinidamente a discriminação da mulher, lhe concedendo os mesmos direitos tanto nos estudos quanto na participação nos protocolos da vida espiritual. No ministério do Guru Nanak, Dharamsalas – salas de estudo do Dharma – foram abertas a todos, dando início a uma verdadeira revolução educacional em pleno século XV.

Séculos depois, a Índia se vê novamente tomada, desta vez pelos muçulmanos. Um de seus imperadores, famoso pela sua visão conservadora e radical do Alcorão e por sua impiedosa discriminação, deu início a uma política de conversão em massa ao Islamismo. Seu nome era Mohamed Aurangseb, e seu reinado perdurou de 1658 a 1707.

Dentre as várias restrições impostas por ele gostaria de destacar duas. A primeira foi proibir que as pessoas de outras religiões expressassem sua fé em público, e a segunda foi fechar qualquer Dharamsala, agora conhecida por Gurdwara (portal para o Professor).

Mais uma vez a voz do Guru Nanak se fez presente através do Guru Gobind Singh Ji. Após ter tido seu pai decapitado pelo Imperador Aurangseb em razão de sua defesa em prol da religião Hindu, que a propósito nem era a sua, Guru Gobind Singh declarou que os Gurdwaras eram, em sua essência, locais assegurados à qualquer indivíduo, independente de sua religião ou gênero, para que todos tivessem a chance de experimentar o Shabd Guru, uma forma universal de diálogo entre a consciência humana e a Consciência Divina. Bandeiras foram erguidas (Nishan Sahib) em todos os Gurdwaras para que se identificasse de longe aquele local como um templo aberto a todos. Além disto, os Gurdwaras teriam por obrigação alimentar e abrigar a todos, independentemente da casta, credo ou religião.

O Gurdwara se tornou, portanto, um lugar sagrado dedicado à meditação, à leitura, aos cantos de louvores ao Arquiteto do Universo, e a fim de servir a todos deveria ser também um local livre de qualquer ritual de adoração.

Os Ensinamentos dos Gurus são preservados nos Gurdwaras, e eles poderiam ser agrupados desta maneira;

  • Os Sikhs do Guru devem amar e servir a todos independente de qualquer predicado,
  • Ver Deus em tudo e servir Deus em cada ser existente,
  • Não temer,
  • Não ameaçar,
  • Não permitir crueldade e injustiça a ninguém,
  • Controlar seus desejos, sua mente, ter paciência e ser compassivo.
  • Ser um meio vibrante envolvido com a prosperidade de todos os seres no planeta (Nanak nam chardi kala, teri bani sarbt da bala)

Eu entendo o Gurdwara como um território soberano, livre e a serviço de todos para que possamos juntos vibrar na consciência do universo e corajosamente assumirmos nossa verdadeira identidade e servir para uma sociedade de paz e justiça social. É por isso que eu me tornei uma Khalsa e espero honrar meu compromisso até meu último suspiro nesta terra do Dharma.

 

Wahe Guru Sat Nam.

Santa Fé,  29 de Abril de  2014.

 

A festa Khalsa

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Ontem eu lia o pronunciamento do Primeiro Ministro da Inglaterra, feito de seu gabinete na Downing Street, em Londres, exaltando os pilares do Sikh Dharma, por ocasião da abertura das solenidades oficiais do Vaisakhi. Em várias cidades importantes do planeta, políticos renomados estão se juntando com  autoridades e pessoas simples do Sikh Dharma, com seus Kirtanees (músicos) e com os professores do Kundalini Yoga para celebrar Vaisakhi. Mas, o que é Vaisakhi e qual sua importância?

Vaisakhi, ou Baisakhi,  corresponde ao segundo mês do calendário Sikh Nanakshahi. Este mês tem início no dia 13 de abril e finda no dia 14 de maio. Este período é marcado por inúmeros festivais e celebrações. Os Hindus celebram a vinda de sua Deusa Ganga à Terra com banhos e rituais. Já os Budistas celebram o nascimento, a iluminação e a morte de seu Mestre Buddha Gautama.

Este mês tem uma importância singular para todos que se relacionam direta ou indiretamente com o Sikh Dharma. No Vaisakhi de 1699, Guru Gobind Singh, o décimo Professor desta Tradição, convocou todos seus seguidores e alunos para se congregarem em Anandpur no dia 13 de Abril. Foi colocada uma tenda sobre uma pequena colina, lugar hoje conhecido por Keshgarh Sahib, e uma grande multidão vinda de todas as regiões do Continente Indiano se apresentou para ouvir o que seu Professor teria de tão importante para dizer.

A primeira fala do Guru veio na forma de uma pergunta: “Quem sou eu para vocês?” E a resposta veio simples: “Você é nosso Professor”. Confirmando esta relação, ele teria perguntado: “E quem são vocês?” A multidão em uníssono respondeu: “Nós somos seus Sikhs (alunos)”.  Após lembrá-los dessa relação sagrada, o Mestre querido e símbolo de justiça e esperança, com uma voz penetrante e convicta disse: “O Professor de vocês hoje quer algo de seus Sikhs”. E a resposta foi vibrante:  “Hukam karo, sache Patshar!” O que quer dizer – “ordene, Verdadeiro Rei!”

Ele então firmou sua mão em sua espada e a envergou alto comandando que se apresentasse a ele aquele disposto a sacrificar sua cabeça. O silêncio reinou profundo e imperturbável… Ele pediu uma segunda e uma terceira vez. Finalmente um dos alunos de seu pai se levantou e se entregou. A multidão aterrorizada ouviu apenas o fulgir da lâmina cortando o ar e em seguida a cabeça do até então Daya Ram cair. Com a espada ensanguentada, ele saiu de sua tenda e pediu mais quatro voluntários, os quais certamente teriam o mesmo destino. Apresentaram-se nesta ordem: Himmat, Mohkam, Dharam, Sahib. Cada um deles era de uma casta hindu e formaram os Panj Pyares (Cinco Amados). Seus corpos foram trazidos para fora da tenda e dispostos aos olhos da Sangat. A multidão antes atônita, agora olhava a tudo com intenso interesse. Os cinco estavam majestosamente vestidos com roupas azuis e douradas. O Guru os colocou deitados sobre o chão com suas cabeças apartadas. A seguir, ele colocou as cabeças em corpos diferentes e ordenou que eles se erguessem. Diante da multidão, absolutamente paralisada, os cinco se levantaram e foram batizados pelo próprio Guru. Após o batismo,  Guru Gobind Singh pediu que os cinco o batizassem também. Ao final, Guru Gobind Singh disse a eles e a todos que ali estavam que: “de agora para frente, vocês não pertencem a casta alguma. Nenhum ritual hindu ou muçulmano é necessário, sequer a crença em superstição de qualquer espécie. Vocês devem apenas crer na presença de Deus, que é o mestre e protetor de todos, o criador e o destruidor. Na nossa nova ordem (Ordem Khalsa), o mais inferior de todos se colocará lado a lado com o mais superior. Este é o fim das austeridades e peregrinações e o início de uma vida pura de dono(a) de casa, e vocês devem estar prontos para o chamado do Dharma (justiça). Mulheres e homens devem ser tratados de forma igual em todos os sentidos”.

Neste dia fenomenal, centenas de milhares de mulheres e homens receberam seus novos nomes espirituais e se juntaram à nova Ordem Khalsa, os puros de coração e mente. Até mesmo o jornalista da Corte do Imperador Afegão, colocado no meio da multidão como espião, ao final do dia escreve ao Imperador o que acontecera com os Cinco Amados e, diante dos fatos inacreditáveis, pede demissão de seu cargo e se batiza, servindo longamente ao Guru.

A Ordem Khalsa se formou no século XVII com o intuito de criar um Estado livre e soberano, onde todos os seus cidadãos fossem iguais perante a lei, e sobretudo criar um modelo educacional da excelência para que mulheres, homens e crianças tivessem direitos iguais aos estudos e a prosperidade. Para tal, os Khalsas do Guru Gobind Singh, na forma de mulheres guerreiras e homens de fibra, deram suas vidas na luta contra o jugo Mongol de Delhi e a exploração dos senhores feudais indianos, que, combinados, formavam uma barreira absurda que impedia, sob força de vários recursos espúrios, o acesso aos bens e a uma vida digna e honrada.

Deixar que todos morressem na ignorância de suas crenças religiosas e submetidos ao absurdo regime de castas era o  meio mais natural. Lutar contra este sistema requeria espírito, coragem e esperança, não somente para si ou para aquele momento em si. O olhar dos Khalsas do Guru não se restringia ao uma região geopolítica, também não aos seus cidadãos imediatos. Eles miravam o futuro e os cidadãos do mundo. O sacrifício deles constituiu um legado que hoje celebramos e zelamos. Os Guerreiros da Paz deixaram para nosso mundo atual um exemplo de bravura e entrega aos ideias mais nobres da alma humana – compaixão a todos os seres, liberdade de ser e direito à prosperidade. Os Khalsas do Guru não eram de uma religião em particular. Eles abandonaram seus vínculos anteriores para se dedicar à criação de um mundo onde houvesse esperança e paz.

Suas vidas entregues a esta causa honram nossas lembranças com suas histórias e feitos. Sobre essa nobre gente, as palavras de quem mais os amou:

“All thee battles I have won against tyranny
I have fought with the devoted backing of the people;
Through them only have I been able to bestow gifts,
Through their help I have escaped from harm;
The love and generosity of these Sikhs
Have enriched my heart and home.
Through their grace I have attained all learning;
Through their help in battle I have slain all my enemies.
I was born to serve them, through them I reached eminence.
What would I have been without their kind and ready help?
There are millions of insignificant people like me.
True service is the service of these people.
I am not inclined to serve others of higher caste:
Charity will bear fruit in this and the next world,
If given to such worthy people as these;
All other sacrifices and charities are profitless.
From toe to toe, whatever I call my own,
All I possess and carry, I dedicate to these people”

Guru Gobind Singh Ji.

 

Wahe Guru Ji Ka Khalsa, Whae Guru Ji Ki Fateh

 

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte,  9 de Abril de  2014.

 

História em quadrinhos sobre os Khalsa

kaur_05 (1)

“Kaur” conta a história de uma guerreira Khalsa

Em novembro, recebemos a visita de Jamal Singh, um quadrinista e historiador em formação, natural de Natal, que veio a Belo Horizonte para lançar a revista “Máquina Zero”, no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ). Jamal Singh participou da coletânea com a HQ “Kaur”, que conta a história de Naara Kaur, “uma Khalsa que luta com seu pai, Dijiit Singh, no exército de Banda Singh Bahadur, contra os invasores Mogols*. A história se passa em 1713, durante o fim da campanha de reconquista de Punjab”, explica o quadrinista.

“Geralmente os siques são retratados como ajudantes ou como vilões nos quadrinhos do Ocidente. Um sique como protagonista de uma história e mulher, então, nunca vi num quadrinho”, afirma. A respeito de suas motivações em escrever a história, Jamal revela que inicialmente havia pensado em um roteiro de ficção científica. No entanto, quando soube que na coletânea haveria uma HQ sobre samurais, ele não teve dúvidas sobre a história gostaria de contar. “Na hora eu pensei: ‘Vou fazer uma sobre os Khalsa, pois eles são muito mais legais que os samurais! Eles lutam por toda a humanidade!'”. Entusiasmado, Jamal batizou a personagem protagonista com o nome de sua esposa e desenvolveu o roteiro numa noite — o qual, após aprovação, foi desenhado por Wendell Cavalcanti.

Com excelente recepção durante lançamento no FIQ, os últimos exemplares da revista podem ser adquiridos diretamente com os autores, através do e-mail estudiotot@gmail.com ou através do site do coletivo baiano Quadro a Quadro, em http://quadroaquadro.lojaintegrada.com.br/

[“O termo que uso no quadrinho é ‘Mogols’, explica Jamal. “Os Mogols são descendentes dos mongóis. Seu império tinha como base o atual Afeganistão. Os muçulmanos os consideram muqanafim, pois eles convertiam sob ameaça, o que é proibido por Mohamed”].

 

kaur_01

recorte da HQ “Kaur”

Com a palavra, Jamal Singh:

Conheci o Siquismo (como eu prefiro escrever) no fim de 2012. Estava estudando sobre a Índia para um outro quadrinho sobre religiões do mundo. A descrição sobre o siquismo que encontrei era aquele jargão do século XIX, sobre ser um sincretismo entre o islamismo e o hinduísmo. Mas havia um trecho que me deixou completamente incomodado: ‘O sikhismo ensina que os seres humanos estão separados de Deus devido ao egocentrismo que os caracteriza’. Essa frase ecoou em minha cabeça por muito tempo. Me fez querer pesquisar mais sobre o Siquismo e vi, então, o quanto aquela definição simplista estava errada. O que o Siquismo prega é o que eu acredito: igualdade entre homens e mulheres, independente de classe social, religião ou etnia. Viver uma vida com verdade e amor, sem medo e sem ódio. Que você que é o responsável por seus atos, não podendo culpar a demônios, espíritos obsessores ou qualquer outra desculpa. Que a fé não precisa ser proselitista para ser vivida. Fui pesquisando na internet, baixando os livros que eu podia. Quando encontrei um site com hukamnama diário, eu já estava com a minha barba, já meditava e agradecia a Waheguru. Nunca havia praticado yoga e só depois de um tempo é que ouvi sobre o trabalho de Yogi Bhajan.

Um dos meus motivos em vir a Belo Horizonte, além de participar do FIQ, era conhecer a ABAKY e finalmente conhecer pessoalmente Siques. E todos na ABAKY foram maravilhosos em tirar minhas dúvidas. Saí da ABAKY com meu Japji em inglês, usando turbante e com uma kara na mão. Atualmente mantenho uma página sobre o Siquismo no Facebook (www.facebook.com/Siquismo), na qual escrevo sobre os gurus e traduzo notícias sobre o Siquismo, pois, para a população brasileira em geral, os siques são invisíveis ou confundidos com muçulmanos.

1450844_699353786742151_2121066942_n

Jamal Singh e Naara Kaur

O cubano de Orlando

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Mais tarde, naquele dia de junho de 1983, eu pegaria um voo para São Paulo e, com duas amigas da faculdade, partiríamos direto para uma aventura inacreditável.

A OMS havia escolhido Cuba para sediar a Conferência Internacional de Saúde para Todos no ano 2000, como parte de sua agenda global desde 1991. Eu havia obtido por concurso minha vaga de docente na UFMG em 1982 e, portanto, gozava o direito de minhas primeiras férias. Eu era uma garota de 23 anos, curiosa e aberta e decidi embarcar naquela viagem, que me reservava acontecimentos de tirar o fôlego.

Eu não me lembro como fiz minha inscrição para este evento, uma vez que o Brasil não mantinha relações diplomáticas com Cuba. Justamente isto foi o que mais deu caráter à minha viagem. Nós teríamos que ter um plano para entrar em Cuba e ele tinha que ser sigiloso e secreto!

O plano foi traçado de forma divertida e sem maiores preocupações. Parecia perfeito, se não fosse o fato de eu ter dormido demais e minha amiga gastado mais do que devia seu espanhol. Você vai logo entender…

O plano: sair do Rio para Miami. Passar alguns dias na Disney (imaginem que desafio, afinal, éramos contra os EUA!) como ditosas turistas latino-americanas na Flórida. De lá, pegar um voo para o México e ficar hospedadas em um caro e requintado hotel no centro histórico da Cidade do México. Finalmente, de lá, fretar um voo para Havana. Soava como um filme de espionagem e o sentimento era esse também, só que milhares de vezes mais simples…!

Chegamos em Miami como planejado. Sem falar uma palavra de inglês, saímos do aeroporto e pegamos um ônibus até Orlando. Eu estava exausta, não por conta do voo, claro, mas por tudo que passara naquelas últimas semanas para poder estar ali. Logo que entrei no ônibus, me recolhi num assento confortável e dormi. E minhas amigas? Bem, uma delas fechou os olhos e sonhou com Cuba, imagino, sonhou acordada, evidentemente. Ela era militante do PC do B e aproveitava o Congresso da Organização Mundial da Saúde para conhecer o partido do Fidel, o Jornal “Granma” e fazer contatos. A outra, uma bonachona garota, parte punk parte hippie, queria apenas conhecer a Cuba do Fidel, já que ele era um herói para nós todos da época. Justamente ela falava um excelente espanhol e resolveu praticá-lo logo na primeira oportunidade.

Ao seu lado no ônibus viajava um cubano que vivia em Orlando, olha que sorte para treinar seu espanhol! Ah, não deu outra, com um sorriso largo, sua boca se abriu e não fechou enquanto ela não contou a esta pessoa todo nosso plano! Doce inocência. Na primeira parada do ônibus, o cara ligou para a polícia e passou todo o nosso sigiloso roteiro dizendo que éramos comunistas brasileiras… Isso foi o tempero que faltava, garanto a vocês. Quando o  ônibus parou em Orlando, da janela vi dois policias em pé a espera que a porta se abrisse. Não achei nada suspeito. Ao descermos, eles nos abordaram e pediram nosso passaporte; tomaram algumas notas e nos entregaram sem maiores problemas. Até aí só pensei que era uma rotina de checagem, afinal no Brasil isso era muito comum naqueles dias. Mas, não era nada rotineiro e ali mesmo tudo foi passado diretamente para a Polícia Militar do Brasil. Brasileiras comunistas indo para Cuba!

Por ignorar tudo que estava acontecendo, nossa viagem transcorreu como planejada, e preciso dizer que aproveitamos cada minuto em todos os lugares que fomos. Adoramos a Flórida e o México foi maravilhoso.

Cuba foi uma experiência que eu jamais esquecerei. Um misto de admiração e decepção. As pessoas eram tristes e belas. A vida era dura para a maioria delas e parecia que a promessa de paraíso ainda não havia se tornado uma realidade.

Ao final do Congresso da OMS, Fidel convidou a todos participantes para um jantar no Palácio de la Revolucion. Nós ficamos em êxtase, imagine encontrar o próprio Fidel ao vivo! Era demais. Ao chegarmos junto com ministros de Estados Europeus e muitas outras autoridades da saúde, fomos levados para um salão belo, amplo e iluminado. As portas se abriam para jardins cheios de palmeiras e, de uma porta ainda fechada, diziam, em breve chegaria o Comandante. Todos eram mais velhos, com exceção de nós três brasileiras. As autoridades foram se alinhando e nos deixando ficar ao fundo, do outro lado de uma longa e farta mesa. Não adiantava reclamar, nós nem ousaríamos. Ficamos ali esperando ver a figura carismática do Fidel de longe. Mas a sorte estava do nosso lado naquela noite.

Ele entrou,  deu uma olhada radial, virou-se para a linha de senhores e senhoras que o esperavam com certa agitação, depois deu uma olhada para nós três do outro lado da mesa, e mudou seu rumo, caminhando em nossa direção em vez de cumprimentar as autoridades. Foi indescritível. A gente se olhou rapidamente e uma das meninas apertou tanto minha mão que achei que teria quebrado meu mindinho! Ele parou bem na nossa frente, com um sorriso matreiro e, interessado, olhou nosso crachá e viu escrito “Brasil”. Ele então nos abraçou e perguntou quem éramos. Foi uma conversa rápida e eterna. Ao final, quebrou o protocolo e nos deu um abraço nas três ao mesmo tempo e seguiu adiante. Nós ficamos com vontade de gritar, mas nos comportamos.

Nossa volta foi exatamente como planejada, via Panamá até o Rio, onde eu desceria e as outras duas seguiriam no mesmo voo para São Paulo, onde pegariam outro voo para Uberlândia.

Eu saí normalmente da aeronave e caminhava para o controle de entrada de brasileiros quando vi sete homens fortes e sisudos – um colete os identificava – polícia, vindo em linha reta em minha direção. Eles nem me deixaram chegar próximo do guichê, já me pegaram pelo braço e me levaram para uma sala escondida no Galeão. Lá dentro algumas pessoas haviam sido detidas, uma delas a mulher do Brizola, todos vindos de Cuba. Eu não entendia por que estava ali. Aquilo era uma prisão? Era sim, alguém me disse. Você será interrogada e, depois, sabe Deus o que vai acontecer a nós todos.

E foi assim mesmo. Primeiro, eu entrei numa sala onde homens brutos e violentos pegaram tudo que me pertencia, abriram minha mala, velaram todos meus filmes, rasgaram meus registros de viagem, puseram fogo no meu diário e no convite de jantar de Fidel, que aliás eles riram e debocharam antes de queimar. Depois, puxaram uma ficha de um arquivo e disseram algo assim “você é uma dessas meninas da classe média que perdem seu tempo e gastam o dinheiro do pai viajando para visitar comunistas filhos da puta… Ah, foi arruaceira na universidade, e é neta de comunista.  ‘Cê ‘tá lascada, menina. Agora você vai aprender a não manchar a honra deste pais com vagabundices e imundices comunistas. Você vai se arrepender de ter feito o que fez”.

Eu só pensava na minha amiga do PC do B. Ela desceria em São Paulo e seria certamente pega com material do partido comunista de Cuba. Eles iam acabar com ela. Meu peito doeu só de pensar no que aconteceria a ela. Naquele momento, eu estava atordoada demais para pensar como eles tinham descoberto tudo. Foi só mais tarde, já por trás das grades que tive tempo de esfriar a cabeça e encontrar a resposta – havia sido o cubano de Orlando!

Depois de alguns dias, eles me liberaram sem que tivessem me agredido muito. Eu estava tranquila e determinada a existir na minha realidade e integridade. Na prisão, você é provocada para ceder e negar a si própria, mas eu saí de lá completa.

Eu tive que suportar por mais dois anos, até a eleição indireta que elegeu Tancredo Neves em 1985, grampos no meu telefone, espionagem em minhas aulas na UFMG, perseguição nas ruas, de carro: uma vigilância 24 horas a uma garota que ousou visitar o Congresso da Organização Mundial de Saúde em Cuba.

Agora me relembro que na sala com os militares, um deles me olhou e seu olhar revelava, ao seu modo, uma ponta de compaixão. Acho que ele foi sincero ao dizer “filha, muda de vida. Vai viver como uma menina normal. Não seja rebelde, não se exponha. Vá se casar e ter filhos e esqueça essa coisa de democracia. Escreve aqui de próprio punho uma carta ao Comandante do Exercito e peça desculpas e diga que sua viagem foi um engano. Eu te ajudo a sair daqui sã e salva e tudo vai ficar bem”.

Eu chorei naquele momento. Mas eu não estava com medo de nada.

Eu não sabia por que, mas eu não tinha a menor vontade de me render.

Eu não sabia por que, mas eu não tinha a menor vontade de me negar.

Eu não sabia como, mas dentro de mim encontrei uma calma além da dor e do medo.

Eu não sabia de nada, mas de dentro de mim veio uma luminosidade e eu resolvi segui-la.

Essa é a luz da Alma. Eu só aprendi isso mais tarde quando me tornei professora de Kundalini Yoga. Mais tarde, quando me tornei uma Khalsa, uma Guerreira da Paz, eu entendi que meu destino naquele momento já me conduzia à minha soberania e liberdade. Seguindo minha alma, eu segui meu destino que me levou a viver uma vida entregue a servir a todos e não descansar enquanto não houvesse justiça para todos. Neste Dharma, eu me qualifiquei para tolerar e ser compassiva, mas lutar com todo fervor por quem não tem força para se erguer. Lutar para que no reino da Terra se erga, em nome do amor, a igualdade entre todos.

É, foi o cubano de Orlando que me entregou, mas eu devo a ele também tudo. Porque se eu não tivesse sido testada naquele momento, eu não saberia a fibra que já me pertencia por direito, com a qual meu destino havia sido escrito.

Wahe Guru, Sat Nam!

Belo Horizonte, 25 de junho de 2013.