[GSK] Abraçando o infinito

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa, em 5 de fevereiro de 2016

[GSK abre a aula]

Esse é um ano especial e crítico, então é muito importante ganharmos uma coesão no espírito. Criar e aprofundar ainda mais os nossos elos, especialmente de confiança. Estive refletindo ontem sobre o tema de trabalho para esse semestre e tive vontade de propor para vocês um tema que dê à gente certa disciplina e certa disposição para abraçar o desconhecido. E o abraço do desconhecido pressupõe que a gente confie. E confie onde não há garantias. Pressupõe que a gente abra dentro de nós um campo para entrarmos em relação com o desconhecido, sem nenhuma garantia. Isso é um pouco o tônus que se requer de um Khalsa, uma pessoa pura de consciência e de mente. É uma disposição. Pode ser que esse abraço com o desconhecido nem ocorra, mas a pessoa tem uma disposição e ela confia. E vocês podem agora perguntar: “confia em quê?” E a pergunta mais pueril e mais romântica seria: “confiar em mim mesma?” Isso é um pressuposto já garantido. Não é confiar em si mesmo, não é confiar no outro, não é a confiança do lugar comum, que talvez a gente pudesse estar falando se essa aula não fosse de Kundalini Yoga. Então, onde estaria essa confiança?

Essa confiança está na relação que você quer ter com o desconhecido. É a confiança de que o desconhecido é a fonte. É a fonte daquilo que você precisa. Confiar no desconhecido. Se a gente desenvolve uma disciplina e uma disposição para confiar no desconhecido, a gente vai reduzir fortemente a carga estressora que atua sobre a gente, porque a confiança dá um certo relaxamento, e a gente vai aumentar fortemente as chances de resolver problemas. Tanto aumenta a criatividade quanto diminui a carga de estresse. É difícil fazer isso? É difícil! Aí entra a tendência das características de cada um. Eu, por exemplo, tenho a tendência a me preocupar. Eu preciso me convencer, me disciplinar e me lembrar que eu confio no desconhecido. Cada um de vocês vai conhecer uma característica própria que impede vocês de se relacionarem profundamente e em paz com o desconhecido. E é isso o que a gente vai fazer esse ano, e como que isso vai se refletir no corpo da gente e como nós vamos deixar que o corpo cristalize essa dificuldade. Porque isso é que é o Kundalini Yoga. Ele usa o corpo, que cristaliza a dificuldade, que cristaliza a alegria, que cristaliza tudo, e a gente trabalha no corpo para dissolver.

A gente usa aquilo que é mais denso e mais palpável para a gente poder fazer um trabalho que tenha um reflexo nos campos sutis da pisque, da mente e da alma. Nós temos razões para fazer isso. Não é uma aventura futurística, não. Nós temos razões de sobra para neste ano querermos abraçar o desconhecido o mais rápido possível. É um ano desafiador. Lembrem, é um ano 9. A tônica deste ano é: tudo pode se desorganizar, reorganizar, todos os conflitos e desafios podem acontecer, mas a gente permanece na nossa identidade. Assim vai ser esseano: o teste da identidade. E justamente por isso nós vamos ser esse canal que espalha essa radioatividade. Qual a radioatividade que vamos espalhar? A da confiança no desconhecido. E um dos importantes recursos que temos para isso é o Gurdwara. Nós vamos precisar demais dos Gurdwaras e vamos precisar de uma linha de Shabads que cria demais esse espírito da vitória. Precisamos reverter uma depressão que está instalada na psique de muita gente. E nós seremos os terapeutas desse processo. As nossas aulas de sexta-feira são importantes porque estabelecem uma frequência para a semana que começa e o Gurdwara vai ser muito importante com o shabad porque a gente precisa espalhar em larga escala.

Então, vamos começar o nosso kryia?

Kryia: Ajuste do Corpo para Elevar o Espírito, do livro The Fountain of Youth.

Meditação: Four-Stroke Breath for Meditative Balance,  do Manual Praana Praane Praanayam.

Essa meditação dá uma forte capacidade para a mente se desligar de tudo o que é tensão, dúvida, polaridade e elementos desnecessários, e ela volta para um lugar que a mente conhece e que é o campo dela própria, que é o infinito. Então essa meditação é muito importante para criar uma relação nossa com o desconhecido. Deixar a mente ir para o infinito ao invés de deixar ela nas inúmeras finitides que ela tem para se preocupar.

Esse ano nós vamos precisar criar uma unidade e uma grande maturidade emocional para a gente não andar por aí, como: a gente compra uma sacola de papel de artesanato desses que tem até pedigree e enche-a de água, e anda por aí carregando água numa sacola de papel. Então vai dar para a gente andar por aí carregando água em sacola de papel. Vocês entendem o que estou dizendo? “Ah, eu não sabia que era água! Ah, eu não sabia que não podia colocar água na sacola de papel, eu não sabia que a sacola era de papel”. Não dá mais para a gente dar mais esse tipo de desculpa para os nossos próprios erros. Não é que a gente não vai cometer erros, mas é muito importante que a gente assuma e diga “poxa vida, que mancada! como fui tola!”.

O tema de abraçar o infinito carrega um valor: consciência aplicada. Na hora que pisou na bola, consciência aplicada. Assumir. Não vamos dar espaço para a mente criar uma fantasia, uma intriga que mais uma vez aponta o problema para o outro. Quanto mais a gente dá desculpas, mais presos no finito nós estamos, mais longe de sermos criativos e maduros estamos e mais distante estamos de criar um impacto radioativo do bem à nossa volta. Quanto mais presos em desculpas, mais enclausurados estamos em nosso finito, mais você se decepciona, porque o campo da matéria e do finito é capcioso. É uma frase do Yogi Bhajan. Não sei por que, mas a gente teme que o infinito passe uma rasteira na gente. Mas quem passa a rasteira na gente é o finito. Ele é instável, volátil. Vocês entendem isso?

Quando a gente for meter água na sacola de papel a gente vai assumir que a sacola vai furar e que é só uma questão de tempo. Vocês escutam uma coisa dessas (de colocar a água na sacola de papel) e pensam “mas é claro que isso não existe”.  Mas eu, que escuto vocês várias vezes ao dia, posso garantir: isso acontece, e acontece o tempo todo. A todo tempo. Compreendem isso?

Tem um caso clínico interessantíssimo que eu ganhei para trazer para essa aula. Eu sabia que a sacola ia furar, mas eu não sabia que ia ser tão rapidamente. Tem uma moça aí, e nessa coisa de internet e conexão, ela resolver criar uma relação virtual com um estrangeiro. Ele se separou recentemente e a história dele para essa moça foi: “você sabe, o meu casamento foi arranjado pelo Yogi Bhajan e não deu certo. Eu estava casado há vinte anos, mas agora separei. Tem muito tempo que nós já estávamos separados, esse separando já aconteceu há muito tempo. Que maravilha que você apareceu na minha vida”.

Cinco meses atrás essa moça veio me contar que estava muito feliz que finalmente apareceu o homem da vida dela: um khalsa. E me perguntou: o que você acha? Eu disse: “tudo bem, fala para ele primeiro vir aqui, conhecer a sua sangat. E não crie nenhum outro tipo de expectativa”. Cinco meses se passaram e ela sumiu. E eu pensei: “é claro que alguma coisa está acontecendo”. Antes de sairmos de férias, eu fiquei sabendo que ela estava indo para Espanhola para se encontrar com ele. Com tudo acontecendo no Brasil – o dólar alto, a Petrobras falida, o desemprego aumentando, e tudo o mais que vocês sabem bem – tenho certeza que ela disse: “Vem você primeiro para o Brasil”. Ele respondeu: “Não posso, porque tenho medo de viajar longas distâncias”. Um khalsa que tem medo de viajar longas distâncias e disse que a única distância que ele viaja é entre Los Angeles e Espanhola. Aí ela entrou no modo mãe. “Ah, coitadinho”, “Ele está precisando de mim demais”, “Gamei”. E ela então compra a passagem para ir para Espanhola. E o que aconteceu? O romance acabou no dia seguinte. Ele diz: “Eu achei que eu estava pronto, mas eu não estou pronto. Estou indo a Espanhola para rever a minha mulher”.

Não existem garantias. Não adianta o cara ser khalsa. E não adianta a garota ter um certificado de professora de Kundalini Yoga, com horas de conversa comigo. Não adianta. Nós ainda somos livres para fazermos a bobagem que queremos fazer. Então, eu disse para ela: “Se ele não vir aqui, é uma sacola de papel que você vai carregar água”. Então, o que aconteceu? Ao invés de ela admitir que fez tudo errado e que pisou na bola, o que ela fez? Virou a vitima, a enganada. E escreveu um email para ele citando o primeiro pauri do Japji, citando o Guru Nanak… vocês podem imaginar. Então, gente, aprendam, vocês não vão para um conflito com a cabeça. Por favor, num conflito, resgatem o espírito de vocês porque só o espírito de vocês é capaz de fazer uma gatka.

Ela veio conversar comigo e me contou o que ela escreveu e eu disse: “agora você fecha a sua boca e me escuta: tudo errado! tudo errado! Se você acha que esse homem ainda pode ter a graça da sua luz como uma mulher, se você acha que esse homem pode ainda ser ajudado, você, como uma Shakti, se é que você ainda quer viver no espírito de uma mulher, você tem uma última coisa a fazer, que é mandar isso para ele”. E aí eu escrevi umas cinco linhas, que é dar a ele ainda uma chance de viver e habitar o espírito de um homem, e não só um corpo e uma psique de um homem.

Eu disse a ela: você não tem nada a perder, você já perdeu, e pelo menos você resgata a sua graça e a sua dignidade. Quando vocês forem comunicar em conflito, não comuniquem com a cabeça, “blablabla”. Comuniquem com o espírito. Assumam o erro e comuniquem do lugar do espírito. Não existem garantias. A questão é como você vai garantir a sua graça e aplicar a sua inteligência. Não existe coisa fácil. Eu achei que esse negócio iria se enrolar um pouquinho mais, mas ele acabou em cinco meses. Se você vai andar com a sua sacolinha de papel com água dentro, saiba que ela vai furar. Depois não acuse ninguém. O filme preferido do meu pai era “Acusada de morte”. Era o filme preferido quando ele queria falar que a gente tinha feito uma grande cagada, quando a gente pisava na jaca e nós não assumíamos. Quando você decreta a própria morte em não assumir é a “cusada” de morte

Aluna: Realmente esse papel da vítima é o que mais tem por aí e é o que mais a gente vê. Fala a verdade.

Aluna: É um padrão muito forte que a gente tem, não sei se só dos latinos, mas qualquer coisa acontece e a gente entra nesse lugar.

GSK: Acho que de um modo geral. Porque ele também, que não é latino, fez o papel de vítima. É o jogo de vítima da psique masculina. Que é o comum, a maioria dos homens faz esse jogo.

Aluna: E o jogo da mulher é que ela é especial.

GSK: Ah, é! Qual é a fantasia da mulher? É a conexão, é reconectar. No momento em que ela é retirada do útero, ela foi cortada da outra metade dela, que é a mãe. Ela quer reconectar. Mulher reconecta. E a história é que a reconexão só pode se dar completamente pelo espírito e a mulher acha que a reconexão vai se dar pelo corpo, ou pela cabeça. E o que o homem quer é se autoafirmar o tempo todo. É um jogo muito precário e primário, mas nós estamos jogando ele o tempo todo. Em conflito, espera-se que a gente faça igual à cabra do filme “O Pequeno Buda”. A cabra está morrendo, mas ela ensina. Mesmo morrendo, ela ensina. A gente não faz igual ao cordeiro, que fica dando desculpa. A posse do seu vigor e da sua inteligência é ser universal. Seja espírito. Vai morrer, morre com dignidade. Está certo?

May the long time sun shine upon you

[Transcrição Hari Shabad Kaur Khalsa]

O Toque do Mestre

Sat Nam queridos e queridas!

É com grande entusiasmo que anunciamos o lançamento de “O Toque de Mestre”, tradução para português do livro “Master’s Touch”, de Siri Singh Sahib Yogi Bhajan Ji.

A nova tradução é uma publicação da Abaky, que contou com o trabalho do tradutor e professor de kundalini yoga Sat Bhagat Singh Khalsa. O livro pode ser adquirido no Empório Nanak e pelo site: http://www.emporionanak.com.br/o-toque-do-mestre.html

Apresentação
“Este livro é voltado para todos os alunos da Verdade. Qualquer que seja seu caminho, estes ensinamentos o ajudarão a entender o verdadeiro significado do que é ser mestre. Nesta série de conferências chamada “O Toque do Mestre”, Yogi Bhajan, um dos professores espirituais mais pragmáticos dos nossos tempos, explica o caminho do professor – com humor, compaixão e senso prático dos desafios da vida cotidiana.
Aqui estão reunidos ensinamentos incisivos e inspíradores da Era de Aquário e para a Era de Aquário. Os alunos serão desafiados e revigorados com os exercícios de yoga, além de elevados com a prática das meditações. Yogi Bhajan oferece neste livro uma visão de mundo e um alcance de consciência diferentes de tudo que você já viu, proporcionando descobertas únicas sobre a personalidade humana.
– A mestria de Yogi Bhajan é multifacetada. Ele foi mestre de Kundalini Yoga, Mahan Tântrico e Chefe Religioso e Autoridade Administrativa do Sikh Dharma no Ocidente. Ele ensinou para pessoas no Ocidente e as inspirou durante quase 30 anos. Obteve o título de Ph.D. em Psicologia da Comunicação, usando-a com perfeita maestria em seus ensinamentos.
 
Diferente de qualquer professor dos tempos modernos, Yogi Bhajan usa a ciência sagrada do Kundalini Yoga para solucionar preocupações e problemas concretos do mundo moderno. Ele ensina que “A felicidade é um direito nato de todo ser humano”. Criou a Fundação 3H0 (Healthy, Happy, Holy Organization) para ensinar professores a compartilhar a tecnologia do Kundalini Yoga. Há mais de 2 mil professores de Kundalini Yoga em mais de 38 países.

capa

[GSK] Choque de realidade

Aula ministrada pela professora Gurusangat em 07 de agosto de 2015.

Vamos trazer as mãos em prana mudra, assentem-se de maneira elevada, expandida, com a coluna ereta e o peito aberto, queixo em ligeira jalandabhanda. Assuma sua identidade e postura yogica, e deiea fluir a partir dessa certeza.

(Entoam-se os mantras de abertura).

Sat Nam,

Vamos iniciar com um pequeno aquecimento para a coluna.

Em seguida passamos para o Kriya para elevação (Manual do professor página 17).

GSK: Yogi Bhajan gostava de dizer que por mais de dois mil anos nós temos sido enganados, porque há mais de dois mil anos tem sido dito para nós que alguém virá nos salvar. Nós estamos esperando um salvador. Ai fomos capturados nessa grande pegadinha; por que se alguém vem para nos salvar, nossa psique se acostumou com a ideia de termos um tutor, um Salvador daqui-Dalí, para tirar a gente da enrascada que nós nos colocamos. Aí ele fala assim: “Desculpa, mas ninguém vem para te salvar, você tem que se salvar! É você mesmo que precisa fazer isso!”. Essa chave cultural que nós temos – que é religiosa, mas que se tornou tão forte a ponto de virar um traço cultural, essa ideia de que alguém vem para nos salvar – por mais que você seja ateu, ou outra coisa qualquer, ou sikh ou budista ou xamanista, católico ou o que for, por mais que você não acredite nisso intelectualmente, quando se torna um traço cultural, passa a não depender do seu intelecto: você absorve aquilo e aquilo vira parte de você. Isso na nossa cultura é muito forte. Talvez por que na nossa cultura nós estejamos muito mais ligados ao que foi a tradição do barroco católico mineiro do que nós gostaríamos. Então isso, em nossa cultura, é muito forte: a ideia de termos um tutor, nós vivemos sob tutela e queremos ser tutelados. No Kundalini Yoga, que é uma tradição que vem do Dharma – em qualquer Dharma não existe a ideia de tutela. Você entrou aqui por que você quis; por que você concordou em entrar, você tinha um acordo e você concordou com aquele acordo, você veio e você vai aprender na conjunção da linha do espaço e do tempo. Essa é a regra desse plano – existe uma convergência de espaço e de tempo, em que você concordou, então agregue naquela convergência de espaço e de tempo a sua vontade, você. Então tudo que nós fazemos nessa vida é fazermos o que bem entendemos, a gente faz o que a gente pensa que a gente deveria fazer, nesse espaço e nesse tempo. Mas quando a gente entra nessa cunha de espaço e tempo, a gente sabe que existe uma vontade que é a nossa, e a vontade da nossa encarnação, que é o nosso contrato de alma – e é por ele que a gente está aqui, e a gente sabe que a gente se esqueceria dele. É um negócio bem ferrado!

(Alunos riem.)

GSK: Como a gente tem uma vontade, a gente tem um compromisso e quando a gente entra nessa cunha de espaço e de tempo a gente sabe que vai se esquecer dele. E aí então a gente penetra nesse mundo e vamos ter que ajustar nossa vontade – que a gente se torna consciente dela – com a vontade que a gente resolveu chamar de “vontade de Deus”, que na verdade nada mais é que a nossa própria vontade antes de nascermos. Mas como ajustar essas duas coisas é um negócio é muito difícil, é mais conveniente a gente esperar pelo salvador. Por que o salvador viria e diria: “não, vem cá, vou te mostrar, não é por aqui não, é por ali, e eu vou te levar lá…”. E isso não existe. Ninguém vai fazer isso por nós. No Kundalini Yoga, a gente faz isso na medida em que compreende duas coisas: a primeira é que não é errado ter desejo, de forma nenhuma, o desejo é uma coisa importantíssima. Por que os desejos são o que para a alma? O combustível. O desejo é um combustível, é um prana importantíssimo. O negócio é que os nossos desejos não deveriam ser atendidos para servir apenas ao nosso narcisismo. Essa é a história. O nosso desejo deveria ser combustível para que ao ser realizado, a gente se realize junto com muitos outros. Essa é a distinção. Quando você é capaz de nessa cunha de espaço e de tempo sentir o seu desejo, e dar vazão ao seu desejo, realizar o seu desejo de modo que não só você seja atendido, você está atendendo a vontade da sua alma, a vontade de Deus, a vontade do desconhecido. Então é fácil! A dificuldade vem justamente pelo segundo elemento – uma força interna, uma força prânica, que reverbera na linha do arco, que serve para podermos ter força de vontade e discernimento. Por que o conhecimento a gente tem, o negócio é no momento em que a gente é colocado para sentir o desejo, a gente optar ou não por aquilo que responde ao nosso narcisismo. Então a meditação é para gente aumentar essa linha do arco. E essas são as razões pelas quais a gente vê toda hora pessoas que tem todo o conhecimento, toda a beleza, toda a radiância, fraquejarem e se entregarem a uma caminhada narcísica. A nossa jornada na linha do tempo e do espaço que atende só a nós é paupérrima! Ela não traz mudança!

Essa tomada de consciência que causa um choque. Como é que é?

Hari Shabad Kaur Khalsa: A tomada de consciência causa um grande choque.

GSK: A tomada de consciência causa um grande choque. Mas acho que vocês ainda não entenderam.

 A turma ri.

GSK: Essa cunha, essa vida que apenas é vivida para trazer prazer para gente, ela já era! Mas a gente toda hora cai e tem recaídas. Então o que a gente precisa é de uma forte radiância na linha do arco. Porque é essa linha do arco (no entorno da cabeça) que faz a gente discernir o que é correto para mim e o que é correto para minha alma. A linha do arco aqui de baixo, que as mulheres têm (que vai de mamilo a mamilo), é a linha do arco que vai ajudar as mulheres a saberem a quem o coração delas vai se entregar – que tipo de conexão amorosa eu farei?; que escolhas que eu faço, afetivas, que vão dar força ao meu propósito de alma? Afinal, uma história é discernir e a outra é como você se entrega, com quem você cria parcerias. A mulher tem essa outra linha do arco justamente para escolher quem serão seus parceiros, a quem ela vai dar o seu coração. Então vamos meditar.

 Meditação para auto-benção e orientação através da intuição. (Manual do professor página 115).

 GSK: Essa é uma meditação para nos autoabençoarmos e nos orientarmos pela nossa inteligência intuitiva.

Nós estamos precisando discernir e aplicar nossa inteligência porque as circunstâncias estão muito caóticas, então essa meditação ajuda a manter um alinhamento e uma tranquilidade.

É crucial para vocês nesses tempos difíceis – e tempos difíceis são maravilhosos, porque são eles que nos mostram o quão diferenciado nós estamos e o quão a gente pode realmente fazer algo espetacular nos tempos difíceis. Mas é um teste.

Há um caso que eu estou orientando no momento. É uma pessoa casada que se apaixona doidamente. O casamento depois de algum tempo – e quem é casado há algum tempo sabe – o casamento muda demais o tipo de envolvimento, não é a mesma coisa. E o Yogi Bhajan fala: “amor que encolhe não é amor, é paixão. O amor sustenta o insustentável”. Então chega num determinado momento em que o casamento muda de qualidade, a relação muda, a relação sexual muda, tudo muda. E aí essa pessoa continuou buscando, ela continuou buscando o quê?

Alunos: Paixão.

GSK: O desejo dela está ainda servindo apenas ao prazer narcisista dela. Ela se apaixonou por outra! E então abandona tudo. Mas quanto tempo isso iria durar? Vocês estão achando que isso é uma coisa pequena, parece ridículo ao ser contado e visto por essa ótica, mas esse tipo de coisa é característica dos tempos atuais. Precisamos selecionar as nossas relações, usar a linha do arco para criar um filtro. No momento em que a gente decide criar uma conexão com alguém, o fio de conexão não pode ser o do desejo sexual. Não pode ser. O fio de conexão tem de ser o propósito daquelas duas existências estarem unidas – um propósito maior. Por que se o fio da conexão for o sexo, quando ele acabar, acabou o fio de conexão.

Esse poder de discernir, você pensa bem, alguém colocar a própria vida num jogo amoroso, e aí quando o jogo amoroso acaba essa pessoa perde a vontade de viver. Essa pessoa está sofrendo muito, mas do que essa pessoa precisa? Sendo como vocês, conhecendo a tecnologia como vocês. Essa pessoa precisa do quê? Do choque da tomada de decisão! Ela precisa por a mão dentro da tomada de decisão e levar um choque! BUZZZZ! Por que a tomada de decisão dá fortes choques. E essa pessoa precisa tomar uma decisão que a alinhe de novo com o propósito da alma dela, e não dos órgãos sexuais dela!

(A turma ri.)

GSK: Que psique tem a “pitchuna”?

(A turma ri.)

GSK: Qual que é o dharma da “pitchuna”?

(A turma ri.)

GSK: Ela tem de ser inserida num conjunto, numa Sangat muito maior, nessa Sangat chamada organismo. Onde todas as partes desse organismo têm uma psique. Cada parte tem uma psique, cada parte tem o seu Dharma, cada parte passa pela sua dúvida, cada parte passa pela sua necessidade de realização. Pense nos nossas zilhões de células, imagine se cada uma delas quisesse alguma coisa? Todas elas trabalham sob um comando, o comando da mente. Por que a vagina ou o bráulio não vão trabalhar sob um comando? O comando da alma. O pênis tem uma psique. O que ele quer? Além de fazer xixi.

(A turma ri.)

Existe um momento em que temos de alinhar isso tudo com um comando muito maior. Porque os seres humanos que vivem a vida pautada pelos comandos do pênis e da vagina vão viver como animais. Claro!

É como o Yogi Bhajan ensinou: o comando é animal. E ele também diz que 10% são as circunstâncias, 10% é a nossa inteligência e 80% é o desconhecido! Então no desconhecido nós seremos totalmente testados. O nosso tempo-espaço com a nossa intenção. E o nosso teste vai ser: o que eu quero para mim?, e o que minha alma quer para mim? Nessa resposta, nessa confluência, está a sabedoria. Como eu garanto o que eu quero para mim sem desonrar o que minha alma quer para mim? Por que é uma parte importante minha. Só que não necessariamente elas querem a mesma coisa.

E aí então uma pessoa como essa vai ser capaz de confrontar o sofrimento dizendo: “Eu realmente estou sofrendo, mas isso é ridículo. Deixa eu me recolocar diante do infinito. E fazer escolhas de novo”. A sorte dessa pessoa é que ela veio conversar isso com a professora dela. Que saiu igual um raio de trovão cortando o ar para trazer a realidade de novo à tona!

Esses são os tempos. Esses são os tempos em que nós estamos sendo colocados diante de uma realidade que nós não quisemos olhar com olhos da neutralidade. Isso está doendo?  Sim. As escolhas já estão aí para serem feitas? Não, ainda não estão. Não existe ainda, nós vamos ter de construir essas escolhas. Nós vamos ter de elaborar internamente e trazer para realidade política e social novas escolhas. O momento é auspicioso demais, porque ele é uma desconstrução total. E não existe nada melhor para uma desconstrução total do que a chance que ela dá para uma reconstrução. Nós não temos de lamentar. Os tempos agora estão exigindo que a gente tenha contenção. É igual quando você está numa postura muito difícil e você quer ir até o final. Você vai passar por aquilo pensando: esse negócio vai acabar, eu só vou manter minha resiliência. Nós estamos só precisando manter a contenção e não desesperarmos. Não ir desalinhado da alma e de você mesmo, para vocês poderem ajudar todos que precisam. E as pessoas vão precisar muito.

Esse semestre vai ser muito duro, nós temos que servir, alinhar as pessoas, nós temos que levar esperança, nós temos que ser catalizadores dessa mudança, e nós podemos fazer isso com a nossa presença e com a nossa frequência. Mas para isso precisamos estar alinhados, sempre com um sorriso no rosto e sempre lembrando que o caos social e político que estamos vivendo é como na vida da gente: quando ele acontece dá uma chance para gente se recolocar. É um momento importante para revermos as nossas posições e o nosso olhar crítico para irmos para a realidade. Temos de ter vigor na realidade.

Nós não tememos a escuridão. E a gente não quer só a luz. A gente sabe que esse é um ciclo.

May the long time…

Grade de horários de Kundalini Yoga em BH

Sat Nam!

Confira a grade de horários de práticas regulares e para iniciantes nos centros de Kundalini Yoga de BH e região. Os endereços e contatos dos centros podem ser encontrados na aba Centros de Yoga – https://abakyblog.wordpress.com/centros-de-yoga/

Grade de Horários Centros de Yoga

 

[GSK] Quem sou eu?

Aula ministrada pela professora Gurusangat em 03 de julho de 2015.
Nosso esquema não é nada clichê. Pelo contrário, é ultra revolucionário. E há uma pergunta que a gente deve se fazer, e que o Yogi Bhajan sempre inspirou nós professores a nos perguntarmos e nos prepararmos para perguntarmos aos nossos alunos. Porque a resposta que você der a essa pergunta vai determinar o estilo da sua vida, vai determinar a característica que você vai imprimir na sua vida. Dependendo da resposta que você der a essa pergunta, você vai saber se vai construir uma vida baseada na escassez ou não, na pobreza ou não, e muito mais importante – na coragem ou na covardia. Então depende somente de um tipo de resposta sua. E a pergunta que parece clichê, vocês sabem qual é? “Quem sou eu?”. É uma pergunta clichê – “quem sou eu?”. E se vocês acharem que passaram os anos oitenta bem vividos (quem não viveu os anos oitenta vive na sombra dos anos oitenta, tipo os ídolos ainda são aqueles dos anos oitenta), e quem conhecer e for intelectual o mínimo o suficiente para achar que a sociedade Vitoriana foi superada, onde a gente agora pode se expressar livremente e sem tabu, pode achar que está dando uma grande resposta dizendo: “eu não sou o que você pensa que eu sou, eu sou eu. Eu sou eu.” E essa é a resposta que vai construir sua vida na amargura. A sua vida na pobreza e a sua vida na covardia.

E porque você identificou você, a sua identidade, com seu ego, “eu sou eu”, você vai achar que tem direito de fazer tudo que seu Eu pedir. E isso traça uma rota kamikaze.

Mas se você está se comparando com a sociedade Vitoriana, responder “eu sou eu” é um grande passo. Só que nós não estamos mais no inicio do século XX, nós não estamos mais em 1920. Nós estamos no século XXI, então esse modelo já é o quê?

Alunos: Ultrapassado!

GSK: Isso! Totalmente démodé. E é baseado nesse modelo que nós construímos uma experiência no século XX, e o resultado dela é a amargura que nós estamos vivendo no século XXI. Vocês compreendem isso?

Alunos: Sim.

GSK: Mas tudo bem, nós caminhamos, a humanidade está aprendendo. Porque a gente é burro, então a gente demora a aprender. Então a resposta “eu sou eu” e “tudo que eu fizer para alimentar o desejo do meu e, é legítimo” é que nos trouxe para onde estamos agora.

Mas se em vez de você responder essa pergunta “Quem sou eu?”, hoje no século XXI, onde, como a gente canta lá no nosso Song of the Khalsa: “Se não existir Khalsa esse mundo não vai ter salvação”, e não pense que Khalsa vão ser aqueles que andam com o turbante na cabeça, e vestidos dessa maneira. Khalsa vão ser aqueles puros de mente e coração. A gente canta isso. Então hoje se você responder essa pergunta com “Eu sou Vós”, você irá determinar um outro curso para sua vida. Porque “Eu sou Vós” é você se identificar completamente com a luz da sua alma, porque a alma é Vós. A alma é tudo. E se você se identifica com aquilo que aparentemente, fisicamente, você não identifica como seu, você se identifica com a luz da sua alma, com tudo, você então jamais vai ter de passar pela miséria de não ter, pela miséria da frustração e pela miséria da covardia.

Então no Kundalini Yoga isso é básico, mas essa experiência de “Eu sou vós” é uma experiência muito nova socialmente. Nós não temos ela. A gente tem alguns núcleos na experiência da humanidade que criaram esse modelo – por exemplo, o modelo de Buda, o modelo de Jesus, o modelo dos Guru Sikhs – são modelos de “Eu sou vós”: “eu vivo para uma causa muito maior que a minha. Eu vivo para dar sentido a algo muito maior do que Eu”. Embora sejam bolsões na história, a gente não incorporou isso culturalmente. Por que? Por causa de uma pegadinha do nosso Ego, do nosso intelecto. O que o nosso intelecto diz que essas pessoas são ou foram?

Alunos: Santos!

GSK: Santos! “E eu não sou santo, então eu não tenho que viver esse modelo”. Só que isso pode ser verdade para a Igreja Católica, isso pode ser verdade pro Buda que ganhou isso quando iluminou, mas isso não é verdade no Kundalini Yoga que vem desse rio chamado Sikh Dharma. Porque nesse rio do Sikh Dharma, a primeira coisa para acabar com essa mentira foi dizer o que?

Aluna: Somos todos um.

 GSK: Não! Estou falando a respeito da ideia de alguém ser santo, e eu não sou ele, então vou viver de qualquer jeito. Nessa linha que eu estou falando.

Aluna:  Eu não me rendo.

 GSK: Não! Foi dizer que nenhum de nós viveria uma vida CELIBATÁRIA! Porque a vida celibatária monástica está associada a você só fazer isso porque você está dentro do mosteiro. Vocês entendem a cabeça do Guru Nanak? Ele rompe com aquilo que era a base de uma vida celibatária e que justamente afastava um ser humano comum de alcançar aquele mesmo modelo. E ai ele diz: Nenhum de nós é celibatário e todos nós somos santos.

Então quando vocês identificam a identidade sua com Vós – a minha vontade pessoal é a vontade divina, vocês vão caminhar uma outra estrada. E lembrem-se: eu estou explicando uma coisa que vocês vivem há anos, mas nunca tinham pensado nela.

Tem um mantra que nós entoamos no tantra que diz: “I’m thine in mine myself Wahe Guru”. Olhem essa frase – Eu sou vosso em mim mesmo; ou seja “eu sendo eu, sou vosso, sou de Deus.” É muito radical! É muito radical. Trás a política para um outro lugar, trás a sociologia para um novo lugar, trás a psicologia para um outro lugar, trás tudo para um novo lugar – um lugar de unicidade, um lugar onde não há separação. E nesse lugar, nesse lugar onde a gente identifica a gente mesmo com esse modelo – ou é o modelo do Eu, que é ultrapassadíssimo – e a gente vai cair nesse modelo ainda várias vezes, mas eu espero que se lembrem que quando você é vós, você não deixou de ser você. Você só está se ampliando para ser além de você – ser tudo. Entenderam?

Então a aula de hoje é para deixar vocês claros como um cristal, para que na meditação vocês possam expandir a consciência de que vocês são a vontade de Deus.

E todas as vezes que vocês tentarem caminhar contra a vontade divina, vocês vão caminhar igual… quem foi mesmo na Bíblia que foi engolido pela baleia?

Alunos: Jonas.

GSK: Igual Jonas! Vai ser cuspido exatamente na praia onde ele tinha que ir, só que vai demorar demais para chegar lá. Porque a vontade de Deus é a vontade da sua alma, é o seu contrato de alma. Você sabe disso, só que você esqueceu.

Tá certo? Esse é o tipo da pergunta clichê que tem uma resposta sublime, e desencadeia uma análise sublime da realidade. Ok? Alguma pergunta?

Vamos começar:

KRYIA MINISTRADO:
“Becoming Crystal Clear”.
Livro “Transformation”, volume 1, p. 5.

GSK:

Vocês compreenderam a aula de hoje? Essa aula poderia dar a vocês um espaço dentro da psique onde vocês poderiam acessar o sentido do que nós falamos hoje sem ser de uma forma intelectual. Acessar o sentido sem ser intelectualmente. Da mesma maneira como é muito tranquilo culturalmente a gente identificar a nossa psique – o que é fácil porque tudo que a gente sente de imediato é identificado pela nossa psique. A coisa mais importante que a gente tem de fazer é uma pergunta sobre a origem e o destino dos sentimentos. A origem do sentimento é você, não há dúvida disso. Se o destino é para você: oh oh! Preste atenção! Você está caindo na pegadinha. A origem do sentimento é sua, mas se o destino não é necessariamente você, talvez você esteja caminhando para o lado certo. Uma coisa que a gente precisa lembrar é que todo sentimento nosso é filtrado, ele não é puro! Ele não vem de uma identificação clara, porque nós temos nosso subconsciente filtrando tudo aquilo que a gente percebe e consequentemente como a gente sente. Então sentimento é um recurso muito irreal nosso. Ele não corresponde à realidade, ele corresponde à realidade dos seus filtros e de como eles estão filtrando a realidade. Então tem uma maneira que a gente pode realmente fazer alguma coisa por nós e por essa humanidade que é, quando você sente, ao invés de você se identificar imediatamente com a origem do seu sentimento e com a realidade que eles transparecem, é você qualificar a sua visão, o seu destino. Entenderam gente?

Por isso que no nível 2, no programa de Comunicação Consciente, o Yogi Bhajan ensina que a comunicação consciente não se baseia naquilo que você, qual a primeira coisa que ele fala? Ela não se baseia naquilo que você?

Alunos: Sente.

GSK: Sente. Isso mesmo. Ele continua, ela também não se baseia naquilo que você?

Alunos: Sabe.

GSK: Sabe. E ela tampouco se baseia naquilo que você? Quer. É “sente, quer e sabe”. Porque se não é naquilo que a gente sente então poderia ser naquilo que você quer. Mas não, também não é. E nem tampouco naquilo que você sabe. Por que você acha que sabe. Não se baseia nisso. Ele derruba três pilares! Três pilares da “ferração” do mundo.

Alunos riem.

GSK: Porque senão nós seremos todos como políticos corruptos e fanáticos. Só que representando a nossa ideologia. Cada um de nós. Devemos comunicar então: não aquilo que eu sinto. Não aquilo que eu?

Alunos: Quero.

 GSK: Não aquilo que eu?

Alunos: Sei.

GSK: Nossa comunicação deve se basear no quanto você conhece do outro. Ou no quanto você está disposto a virar Um com o desconhecido – que é o outro. Essa é a realidade.

Então é assim, essa é a história. E o papel do professor… Eu não posso reclamar, o Yogi Bhajan estava quase morrendo e ele olhava para seus alunos e dizia: “Tem vinte e cinco anos que eu estou com vocês e vocês fazem as mesmas loucuras!” Ele falava…

 Alunos riem.

GSK: Então eu não posso reclamar. Vejo cada coisa assim…! Mas há muita esperança, porque o papel do professor é… (Se dirigindo para Hari Shabad Kaur Khalsa): No seu livro novo há um Haikai chamado Egomaniac, que é assim:

Quando meu ego me fizer

vestir uma fantasia puída

e não menos ridícula

por favor, me toque no meu ombro

me sopre no ouvido

não me deixe de bunda de fora.

GSK: esse é o papel do professor. O papel do professor é sempre tocar no seu ombro e sussurrar no seu ouvido: você está de bunda de fora!

Alunos riem.

GSK: Sua bunda está de fora! E aí vocês não querem ouvir isso. Mas o papel do professor, o papel de vocês é dizer: sua bunda está de fora, você quer continuar andando de bunda de fora? Sua bunda está de fora…

Não é um papel muito bom, porque é um pouco constrangedor dizer: “não é por nada não, mas sua bunda está de fora”.

Alunos riem.

GSK: Por isso que o Guru fala que ‘Ainda que mil sóis se levantem, e centenas e milhares de luas brilhem no céu, ainda haverá profunda escuridão sem a presença do professor’. Porque vocês vão achar que vocês estão se lascando de bom, e estão com a bunda de fora. Está tudo bem aqui na frente e a bunda está de fora. Então esse é o papel do professor.

E para vocês se treinarem nesse papel, vocês têm de começar a exercer esse papel. E esse papel é exercido na compreensão de que vocês vão ser confrontados, e é direito seu de se fazer essa pergunta: ‘Quem eu sou?’. Eu sou eu? Ou eu sou vós? Reflitam nas férias de vocês o que significa na sua vida “I’am thine” – eu sou vós. O que isso significa. Lembrem do que vocês sentem quando entram em um Gurdwara.

Há uma frase do Yogi Bhajan, que eu compartilhei com os pais dos alunos de Miri Piri, que é uma coisa impressionante, ele fala algo como “Se você quer carregar uma coroa, você tem de ter a musculatura do pescoço muito forte. Mas se você quer ler a história, você pode ler a história, se você quer escrever a história, você pode escrever a história. Mas se você quiser fazer a história, você tem de ter ombros para carregar o mundo de forma ampla”. Carregar a sua coroa, vocês já carregam, seus pescoços já são fortes. Agora a história é que nós vamos fazer história, e para fazer história a gente tem de preparar os ombros para carregar o mundo, para sermos capaz de ensinarmos para outras gerações o que temos ensinado em Miri Piri. Como aconteceu com uma de nossas alunas aqui, que identificou um sentimento muito estranho nela, e perguntou para sua mãe por que ela havia reagido de uma certa maneira quando viveu uma situação com um colega dela, perguntando por que ela quis o colo da mãe, e outras coisas mais. Ela não conhecia aquele sentimento. Imagina uma criança nessa idade (4 anos) e querer entender esse sentimento, porque não foi um sentimento que ela achou bom. E a mãe dela explicou o que era – aquilo era ciúmes. Então essa é a parada e o autocontrole. Coisa que sinceramente nenhuma outra escola ensina às crianças. As escolas deveriam ter esse conteúdo que vocês conhecem – e esse conteúdo tem de ser ensinado a essas crianças. E elas vão fazer coisas maravilhosas com isso. Coisa que nós adultos ainda lutamos por fazer. Pensem bem nesse futuro! Se é que nós temos de ter alguma esperança, ela está aqui nessas crianças. Mas deixou de ser uma esperança romântica: ‘ah o futuro vai ser brilhante com esses jovens índigos!’. Como se os meninos índigos fossem descer numa cultura dançada e se tornar índigo. Já imaginaram o que é um potencial índigo numa cultura ferrada?! Que poder esses índigos vão ter de autodestruição. Vocês engolem esse negócio de que o mundo está salvo por que as crianças são índigos? Não existe nenhum ser humano que desce nesse planeta que não vai ser formatado nesse planeta. Se esse planeta não se tornar índigo, todas as crianças índigos que entrarem aqui vão se tornar representantes muito bem qualificados da destruição. Então vocês precisam pensar e sair do romantismo! As crianças desse novo mundo precisam realmente de instrumento para fazer esse mundo diferente. E esse instrumento é a escola. É a escola. E são os anos formativos. Então vamos ter clareza disso e vamos por nossa força nisso. Esse é o nosso legado. E é maravilhoso. A consciência oscila – a gente precisa de um instrumento neutro que é a escola, para ensinar essas crianças a se autorrefletir, como nossa aluna fez. Já imaginou ela quando for adulta e sentir ciúmes de um namorado? Ela nunca vai relacionar com o ciúmes da mesma maneira que vocês se relacionaram. Ela nunca vai se corromper com isso. Só queria lembrar vocês disso. Em agosto nos sentaremos para entendermos a pedagogia da Miri Piri Brasil em detalhes. Vamos fazer isso publicamente.

Gurusangat aborda algumas possibilidades de trabalho para o próximo semestre – visando a construção da consciência de uma identidade universal e um tema que o Yogi Bhajan trabalha de forma radical é que na Era de Aquário, o terceiro olho irá morar no plexo solar. Gurusangat diz como teria sido banal se ele tivesse dito que o plexo solar migraria para o terceiro olho, mas o que o Yogi Bhajan fala é o contrário. Essa talvez seja uma possibilidade de tema para o 2o semestre desse ano. O tema do primeiro semestre foram os corpos sutis e o corpo radiante.

Vamos manter a esperança viva, e a forma de fazer isso é manter nosso compromisso. O compromisso é a base da felicidade, é a base de tudo.

Com essa aula a gente conclui o trabalho desse semestre.

Vocês são alunos do Guru, eu só venho aqui repassar o que ele manda. Retornamos em Agosto.

May The Long Time Sun…

Transcrição: Hari Bhagat Singh Khalsa

[GSK] Experimentando a própria força

Aula ministrada pela professora Gurusangat em 26 de junho de 2015.


Gurusangat Kaur Khalsa inicia a aula explicando que, ao entoar o mantra de abertura,
Ong Namo Guru Dev Namo, os professores precisam ficar atentos para não deixarem caír o tom na hora de entoar o “Deeeeeev”. Alguns professores, segundo ela, acabam com o naad ao começar a entoar o “Dev” aberto e baixar o tom ao chegar ao pico, como se uma onda fosse formada. Ela reitera diversas vezes que, ao entoar, não podemos fazer uma curva descendente – as vogais são sempre abertas e sem oscilar a nota, pois descer o tom equivale a se retirar no momento de receber a frequência mais sutil do naad.

(Começa a transcrição):

Bom, a gente hoje vai experimentar nossa própria força. Antes, porém, eu gostaria de dar uma geral no tema e trazê-lo para a vida prática.

Tudo que a gente quer no Kundalini Yoga é desenvolver uma força interna, como vocês viram na aula passada o Yogi Bhajan falando: a psique da gente pode funcionar tanto no modo careless quanto no modo carefree. Então se a psique está no modo careless, do tipo “não estou nem aí, só estou aí para mim”, você se transforma o centro de toda a importância – não necessariamente você, às vezes seu núcleo familiar, ou o que for. Você desenvolve uma série de intrigas para justificar aquilo que está defendendo. E aí você desenvolve muita força interna, porque se você não desenvolve força interna, não consegue sustentar nem o seu modo careless. Quem não tem força interna não está carefree nem careless, não tem nenhum poder. Então quando a psique funciona em um desses dois modos, ela tem uma força interna, e é isso que vocês confundem: vocês acham que só tem força interna quem vive no modo carefree, que é aquele que coloca em seu altar o outro, em vez de si próprio. Quem está no modo “dane-se o mundo, eu vou justificar minha emoção”, essa pessoa tem muita força interna, só que a força interna que ela gera é guardada para ser usada na sua defesa.

Qual é o problema disso? Ou melhor, qual é a vantagem disso? Vamos começar pela vantagem. A vantagem é desenvolver uma superforça interna para defender seu próprio domínio. Eu estou falando isso de um modo bem negativo, porque não tem nenhum problema você defender o seu domínio quando ele estiver ameaçado. O que estou falando é você se tornar uma defesa egoísta da sua posição. Qual é a vantagem disso? A capacidade de fazer o que você precisa fazer. E a força interna vai ser gerada e usada onde? Onde essa pessoa careless sustenta sua posição? Onde no corpo? No intelecto. Só no intelecto. Não tem força de plexo nenhuma, ela gera uma força interna e em vez de coloca-la à disposição do serviço, ela põe no intelecto, e essa força interna levada para o intelecto dá a essa pessoa a capacidade de fazer uma boa argumentação. Para fazer uma boa argumentação, ela precisa ter gerado muita intriga mental. Então a força está aí, entenderam? Entenderam esse caminho?

Quando vocês estão em disputa, então pode ser tanto a questão do museu discutida em Brasília quanto definições banais da vida da gente, como qual médico escolher, qual escola escolher, qual dentista escolher, qualquer coisa que envolva a nossa vida pessoal, todas as vezes que eu pego a realidade do meio, filtro-a de acordo com o meu interesse, crio uma linha de argumentação para justificar minha posição evitando me entregar para o possível confronto que poderia depurar a situação, eu estou usando a minha força interna para gerar uma linha de argumentação, uma justificativa. Qual é a consequência disso na era de Aquário? Essas pessoas geram um tipo de frequência que atrai gente que está na mesma situação, então o dia em que ela se frustra e tudo dá errado, ela se sente isolada, se perguntando o que aconteceu consigo e ainda assim não admite que foi ela quem iniciou tudo isso, ela ainda se justifica. O problema disso na era de Aquário é que a gente gera karma instantâneo, e quem vai pagar pelo nosso karma instantâneo? Quem gerou a força interna? Não. Se a força interna é muito grande, a pessoa não paga o karma imediatamente, pode até pagar daqui a pouco, o karma chega para ela, mas ela gerou uma força interna de defesa, e esse karma não recai sobre ela imediatamente, mas no núcleo dela, nas pessoas que são mais fracas e mais vulneráveis. Entenderam isso?

E aí assim, lentamente, quando essa pessoa fica vulnerável porque aquele karma está se espalhando no seu entorno, ela então começa a se enfraquecer. Por isso que os mestres todos dizem que existe – o Guru Nanak no Japji fala – existe um ensinamento na dor, a dor também ensina. Porque aquela pessoa que gerou uma linha interna de defesa muito grande para poder justificar suas posições muito confusas, ela finalmente sucumbe. É a chance. Está certo?

Agora vamos para o outro lado da questão. Eu estou nessa falação toda porque essa aula gera força interna para ser usada em qualquer lugar. Por isso que estou fazendo uma advertência. Tá certo? Então agora a pessoa gerou força interna e vai usá-la na psique do carefree, ou seja, ela está confiante em Deus, está livre, leve e solta, confia na mão de Deus, ela tem conflito, tem situação difícil, em qualquer âmbito – no ambiente de um projeto trabalho, no âmbito pessoal, na família, no âmbito que envolve os filhos, mas essa pessoa honra o processo insistentemente. Ela não deixa de confiar no processo, entendeu? Então ela está lá, trabalhando firmemente para alcançar uma vitória. A força interna que ela gera vai ser usada não para ganhar intelectualmente da outra pessoa, mas para espalhar uma coisa que chama confiança, fé, determinação. Ela não duvida do objetivo. Se o objetivo está criando um obstáculo, ela não desiste do objetivo – esse é o determinante se a pessoa está usando sua força interna para viver de um modo egocêntrico ou de um modo altruísta. Ela não duvida do objetivo. Vocês estão entendendo o tanto que vocês, em conflito, começam a duvidar do objetivo? Essa pessoa não duvida do objetivo e então permanece envolvida na construção de um processo para atingir aquele objetivo que é honroso. O processo pode ser duro porque às vezes o objetivo é tão nobre que ele implica numa depuração de quem está envolvido.

Só que às vezes a nossa tendência é buscar logo o conforto: “Ah, quer saber de uma coisa, dane-se o objetivo”, daí você entra no modo careless. E aí naquele processo de um objetivo que é duro, que está distante ou que provoca em mim irritação, que provoca em mim dúvida, você honra o processo para alcançar o objetivo. Quando você faz isso, qual é o resultado na Era de Aquário? É algo muito bonito. Você teve a força que não se localizou no seu triângulo inferior, mas uma força que se espalhou para o seu corpo radiante. Seu corpo radiante ficou gigante, e o que você vai fazer com o karma? Queimar! Você gera uma energia capaz de queimar karmas de quem? De todo mundo envolvido no processo, de sete gerações para trás e prepara o campo para desobstruir sete gerações para frente.

Então em um modo você recolhe karma e o espalha, pois teve uma força de se proteger, e no outro você recebe o karma e o queima. Por isso o Yogi Bhajan disse que a primeira força sustentadora do amor é a paciência. Porque num processo de amor – e aí não estou falando apenas do amor entre dois seres humanos – num processo em que você se lança com amor num objetivo, você precisa ter muita paciência para não desistir do objetivo. Porque o processo é de cura. Em qualquer âmbito, como eu disse, ou um grande projeto de trabalho ou em projetos familiares de qualquer natureza – desde a escolha de um médico, de uma escola, das férias do casal.

Então quando estamos vivendo um desafio – é isso que a gente aprende nesse dharma – o desafio nunca deveria ser um estímulo para você entrar no modo careless, entrar no modo de desonrar o processo e mudar o objetivo. O desafio deveria ser um estímulo para você entrar no modo carefree, confiar e continuar.

Agora um ponto final. Vou mudar de parágrafo para a gente começar a fazer a aula. O que a gente faz quando vê pessoas, especialmente crianças, quando a gente vê essas pessoas vulneráveis, sendo atacadas pelo karma? A única coisa que a gente pode fazer é rezar. Porque a criança ainda está muito aberta para absorver essa frequência. E podemos nos fortalecer, nunca julgar nem dizer “puxa vida, por que essa criança está fazendo isso?”, porque também é uma escolha da alma dela pagar por aquele karma para se liberar logo. Está certo? Vamos então para a aula?

KRYIA MINISTRADO:
“Kryia to experience your own strength”.
Livro “Transformation”, volume 1, p. 4.

MEDITAÇÃO:
“Meditation into thoughtlessness”.
Livro “Transformation”, volume 1, p. 69.

Sat Nam: A história secreta do Kundalini Yoga

por James McCrae, do blog S#HIT YOUR EGO SAYS traduzido por SatBhagat Singh Khalsa

Qual a primeira coisa que você pensa quando ouve a palavra “yoga”?

Alongamentos? Sucos e alimentos naturais? Espiritualidade pseudo-oriental? Mulheres magras usando calças apertadas antes do café da manhã? O yoga atualmente é uma tendência urbana, cuja popularidade só cresce desde a virada para o século XXI. A ironia desse “agora” no status do yoga como atividade física popular é o fato de se tratar de uma das práticas mais antigas da humanidade. No mundo contemporâneo, centros refinados de yoga e estúdios de Bikran são apenas a manifestação mais recente de uma tradição de milhares de anos que vem se adaptando a culturas em constante transformação. Nações inteiras tiveram seu auge e seu declínio. Religiões surgiram e desapareceram. A maçã das ideias foi passada de Eva para Isaac Newton até chegar a Steve Jobs. Mas o yoga, de uma forma ou de outra, permaneceu.

Ninguém sabe ao certo há quantos anos o yoga surgiu. Até onde nos diz a história, arqueólogos descobriram indícios do yoga como prática tanto espiritual quanto física. Alguns dos registros mais antigos são gravuras de seres humanos em posturas que lembram as de um yogi, feitas há mais de 5 mil anos nas cidades mais prósperas da época, Mohenjo-daro e Harappa, na Civilização do Vale do Indo (região hoje formada por Índia, Paquistão, Afeganistão e Irã). O desenvolvimento do yoga segue paralelo ao advento da espiritualidade oriental, e – antes do poder político da religião, centralizado como conhecemos hoje – a prática era considerada um método de conexão direta com o divino. A conexão entre espírito e corpo é o fundamento do yoga (a própria palavra “yoga” deriva de um termo sânscrito para “união”), que continua sendo a prática espiritual mais antiga e duradoura feita atualmente.

“Eis o mais alto dos altares, o corpo humano vivo e consciente; reverenciar nesse altar é algo muito mais elevado do que a reverência de quaisquer símbolos mortos” — Swami Vivekananda

O que exatamente é Kundalini Yoga?

Há dezenas de variações de yoga, com diferentes estilos e filosofias. Algumas formas de yoga (como o Bikram) são estruturadas como exercício físico. Outras (como o Jivamukti) são mais centradas na meditação. O Kundalini Yoga é um pouco as duas coisas, mas também se preocupa com a consciência que ativa centros de energia por todo o corpo. Uma aula de Kundalini Yoga pode ser um ótimo exercício, mas os professores e alunos (muitas vezes de turbante branco) participam de cada kriya com uma reverência silenciosa mais semelhante à que temos num templo, não numa academia. Se você quer uma prática física aliada a um trabalho de iluminação espiritual, seu lugar pode ser uma aula de Kundalini Yoga.

“O principal objetivo [do Kundalini Yoga] é despertar todo o potencial da consciência humana em cada indivíduo; ou seja, reconhecer nossa consciência, refiná-la e expandi-la para nosso ser ilimitado. Limpar qualquer dualidade interna, criar o poder de ouvir profundamente, cultivar a quietude interior, prosperar e fazer tudo com excelência” – Kundalini Research Institute

Breve história do Kundalini Yoga

O Kundalini Yoga é conhecido como uma forma específica de yoga cada vez mais popular em Nova York e Los Angeles. Mas o Kundalini, talvez mais que qualquer outro yoga, tem uma história longa e fascinante. Não existe outra filosofia (física ou não) mais duradoura que o Kundalini Yoga. A despeito das filosofias religiosas mais antigas, o Kundalini não se atém a regras estritas ou dogmas. Sua natureza pura permitiu que cada geração, durante milhares de anos, encontrasse um significado pessoal nessa prática. Seu objetivo é decentralizado e abnegado – isto é, ajudar os outros a atingir seu Eu Superior. O Kundalini Yoga não se intitula como o único caminho; ele é apenas um caminho, uma ferramenta na jornada de descoberta pessoal de cada indivíduo. Participar de uma aula hoje parece algo tão novo, relevante e inovador que você pode ter a sensação de que o Kundalini Yoga é um conceito híbrido de Oriente e Ocidente desenvolvido especificamente para o século XXI. “Kundalini” é uma palavra do sânscrito antigo que significa literalmente “serpente enrolada em espiral”. Na antiga religião oriental (bem antes do budismo e do hinduísmo), acreditava-se que cada pessoa possuía uma energia divina na base da espinha, a energia sagrada da criação. Todos nós nascemos com essa energia, mas precisamos nos esforçar para “desenrolar a serpente”, colocando-nos assim em contato direto com o divino. O Kundalini Yoga é a prática de despertar nosso Eu Superior e transformar energia potencial em energia cinética.

A definição de yoga que temos hoje no Ocidente é limitada, pois descreve um tipo específico de exercício. Mas, para os povos antigos, o yoga era uma conexão sagrada entre corpo e alma. Seu objetivo não era malhar o corpo, mas fazer contato direto com Brahman, o espírito divino que habita todos nós. Religiões que agiam como intermediários entre Deus e a humanidade não eram necessárias. Apenas a prática era necessária. Das diversas formas de yoga desenvolvidas nos últimos 5 mil anos, o Kundalini Yoga era considerado o mais sagrado. Não sabemos qual é a origem exata do Kundalini Yoga, mas sua mais antiga menção remonta aos escritos védicos conhecidos como Upanishads (c. 1000 a.C. – 500 a.C.). Registros históricos indicam que o Kundalini Yoga era a uma ciência da energia e uma filosofia espiritual antes de a prática física ser desenvolvida. A palavra “upanishad” significa literalmente “sentar-se para ouvir os ensinamentos do mestre”. As primeiras aulas de Kundalini eram exatamente isso. Os mestres se sentavam com os alunos e faziam preleções de suas visões espirituais. Essa era uma prática popular na antiga sociedade védica (e, séculos depois, seria replicada por dois sujeitos chamados Buda e Jesus). Com o passar do tempo, a ciência corporal do Kundalini Yoga foi desenvolvida como expressão física das visões dos Upanishads. Desde sua origem, o Kundalini Yoga não era ensinado em público, mas sim tratado como educação avançada. Os alunos precisavam passar por vários anos de iniciação, preparando-se para aprender as lições de espírito e corpo dos mestres de Kundalini. Durante milhares de anos, a ciência do Kundalini Yoga permaneceu oculta, passada em segredo do mestre para um discípulo escolhido, considerado merecedor. Ensinar Kundalini Yoga fora da sociedade secreta da elite yóguica indiana era algo impensável. Acreditava-se que as pessoas não estavam preparadas para acessar um conhecimento tão poderoso. Desse modo, o Kundalini Yoga permaneceu em segredo até o dia em que um sikh rebelde e sagrado chamado Yogi Bhajan enrolou um turbante branco na cabeça e tomou um voo só de ida partindo do Punjab, na Índia, para Toronto, no Canadá, em 1968.

yogi-bhajan

Yogi Bhajan

Para o Kundalini Yoga no Ocidente, Yogi Bhajan é a pedra de toque, o ponto onde tudo começa. Não é exagero dizer que sem ele o Kundalini Yoga continuaria desconhecido para os ocidentais até hoje. Ao visitar a Califórnia no final dos anos 1960, Yogi Bhajan testemunhou a revolução cultural dos hippies, percebendo uma semelhança de muitos de seus princípios com aqueles de sua criação sikh. Ele notou duas coisas: 1) Como atestado pela busca pela expansão da consciência, os jovens nos Estados Unidos estavam ansiosos por experimentar Deus; 2) Ajudados por drogas e por um misticismo pobre, estavam fazendo tudo errado. Yogi Bhajan sabia que ensinar Kundalini Yoga fora da linhagem sagrada indiana era proibido. Mas enquanto meditava num fim de semana em Los Angeles, durante uma viagem em 1968, ele teve uma visão de uma nova espiritualidade que combinava o conhecimento antigo com a prática moderna. Terminou de meditar cheio de inspiração. Ele ensinaria Kundalini Yoga no Ocidente, proclamando: “Cada pessoa nasce com o direito de ser saudável, feliz e sagrada, e a prática do Kundalini Yoga é uma forma de reivindicar esse direito”. Sua visita a Los Angeles, planejada para um fim de semana, se transformou em residência permanente. Nos dois anos seguintes, Yogi Bhajan fundou a 3HO (Healthy, Happy, Hole Organization) e o KRI – Kundalini Research Institute. Isso era apenas o começo. Yogi Bhajan ministrou mais de 8 mil aulas de Kundalini Yoga. Criou o primeiro programa de treinamento de professores em 1969 e ensinou pessoalmente para milhares de yogis e futuros professores. Muitos de seus alunos e alunas, incluindo Gurmukh Kaur, abriram seus próprios estúdios de yoga, e muitas aulas são dadas hoje no mundo inteiro por yogis que aprenderam diretamente com ele.

A influência de Yogi Bhajan vai além do yoga. Ele publicou diversos livros, fundou o Dia Internacional de Oração pela Paz e trabalhou com vários governos internacionais em projetos para levar a paz e a consciência para as questões mundiais. Yogi Bhajan acreditava que todos temos a responsabilidade de melhorar a sociedade pela consciência e compaixão, e dedicou sua vida a transformar em realidade sua visão da espiritualidade prática. Depois de sua morte, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma resolução bipartidária em homenagem a suas contribuições para o mundo.

“O Kundalini Yoga é a ciência que une o finito ao infinito” — Yogi Bhajan

Filosofia do Kundalini, o yoga da consciência

upanishads Para entender a filosofia por trás do Kundalini Yoga, voltemos aos primeiros textos históricos que mencionam seu nome, os Upanishads. Escritos por diversos autores anônimos durante 500 anos (entre 1000 e 500 a.C.), os Upanishads (semelhantes às escrituras dos Vedas) são uma coletânea de ensinamentos orais sobre a natureza espiritual da realidade. Os Upanishads, originalmente transmitidos de mestres para estudantes depois de profundas visões meditativas, são a estaca zero da espiritualidade oriental. Os conceitos centrais do hinduísmo, do budismo e de outras tradições, bem como do Kundalini Yoga, têm sua origem nesses escritos. Como “yoga da consciência”, o propósito filosófico do Kundalini é despertar o Eu superior. Acredita-se que todo indivíduo é um centro energético para o Brahman (consciência criativa divina). Usando os métodos científicos desenvolvidos pelos mestres de Kundalini Yoga ao longo dos anos, somos capazes de nos desconectar do ego mundano e nos conectar diretamente com o Brahman universal. Mas como um exercício físico pode me conectar dom Deus, na falta de uma palavra melhor?

Na tradição do Kundalini Yoga, Deus não é, nem de longe, uma deidade personificada no céu. A essência de Deus é a mesma essência de todos nós. Deus é consciência criativa, a energia da qual fluem todas as coisas, incluindo nós. Podemos acessar o Brahman porque ele já faz parte de nós. Em outras palavras, todos nós somos expressões individuais da mesma energia coletiva. O Kundalini é o método para nos livrarmos da falsa narrativa egoica da separação e experimentar a verdadeira natureza da nossa existência. Nada mal para alguns alongamentos, não é?

“Enquanto você não transformar o inconsciente em consciente, ele vai direcionar sua vida e você o chamará de destino.” — Carl Gustav Jung, autor de A psicologia do Kundalini Yoga

Cinco razões práticas para fazer Kundalini Yoga

“Muito bem”, você deve estar pensando. “Todo esse lance antigo e divino parece fenomenal. Mas como o Kundalini Yoga pode ser bom para a minha vida?” Boa pergunta. Para os iniciantes, é um excelente exercício. As meditações incluídas nas aulas também são ótimas. Mas os benefícios que o Kundalini Yoga traz para a saúde são um bônus. Veja algumas razões para se entregar à prática: 1) Expandir sua presença expande sua vida. O Kundalini Yoga proporciona uma conexão com nossa energia central. Essa conexão nos permite viver cotidianamente com uma forte sensação de verdade individual. Essa presença se manifesta para todos que o cercam e acaba resultando em novas oportunidades e uma realidade expandida. 2) Inspiração imediata. Eu saio de cada aula com uma clareza mental que quebra antigos padrões mentais e inspira novas ideias. 3) Ter uma comunidade nos mantém sob controle. A maior parte de nós passa parte do dia rodeada de pessoas negativas que nos colocam para baixo. O contato regular com uma comunidade positiva que segue um caminho espiritual nos eleva e nos faz lembrar do que é importante.

4) A mágica acontece fora da nossa zona de conforto. O Kundalini Yoga é cheio de surpresas. Você pode estar se alongando num dia e gritando no outro. A natureza espontânea de cada aula nos deixa leves e prontos para qualquer coisa. 5) Todos são professores (inclusive você). Yogi Bhajan dizia que não ensinava Kundalini Yoga para reunir discípulos, mas para treinar professores. O Kundalini nos lembra que cada um de nós tem uma mensagem importante para compartilhar com o mundo. Ao encontrar sua voz e ter coragem de compartilhá-la, você transforma sua vida e a de quem o rodeia.

Terminologia do Kundalini Yoga

Kundalini: A energia em forma de espiral, latente na base da coluna, muitas vezes considerada a energia “divina feminina”. É também a prática de yoga para despertar essa energia. Sat Nam: “Eu sou a verdade” (Sat é “verdade eterna”, Nam é “nome”) – cumprimento comum entre os praticantes. Shakti: Palavra de origem hindu que significa “poder do divino” – é considerada a força vital e sagrada presente em toda a criação. Mantra: Palavra ou som repetido durante a meditação. Waheguru: Literalmente significa “maravilhoso professor” no Punjab. Essa palavra implica honra e respeito ao Brahman. Brahman: No hinduísmo, Brahman significa “realidade imutável em meio ao mundo e além dele”. No Kundalini Yoga, tem a ver com a natureza divina de todas as coisas. Kriya: Série orquestrada de movimentos e meditações – o conjunto único de ações durante uma aula. Ao contrário do Bikram, que tem apenas um kriya (você repete a mesma sequência toda aula), no Kundalini existem centenas de kriyas. Cada aula é uma experiência única. Respiração do fogo: Respiração rápida, ritmada e contínua – uma das principais técnicas de respiração do Kundalini. Asana: Qualquer variação de postura – o modo como o yogi se senta, fica de pé ou posiciona as mãos. Gyan mudra: Posição das mãos muito comum nas meditações, em que o dedo indicador toca o dedão. Pranayama (ou Prana): Controle da respiração (e consequentemente o controle da energia vital).

Técnicas do Kundalini Yoga

Alongar, respirar, pular, correr, dançar, gritar, entoar, meditar. Qualquer kriya de Kundalini Yoga contém uma variedade de atividades. Uma aula típica tem como estrutura o controle da respiração, a expansão da energia e o alinhamento dos chakras. Uma aula comum tem de 60 a 90 minutos de duração e é estruturada da seguinte maneira:

  1. De 5 a 10 minutos de aquecimento (geralmente com alongamentos da coluna, demonstrados pelo professor)
  2. De 30 a 45 minutos de kriya (exercícios propriamente ditos)
  3. De 5 a 10 minutos de relaxamento “savassana” (quase impossível não dormir)
  4. De 11 a 31 minutos de medição (pode incluir mantras ou mudras específicos)

Segundo a 3HO, as aulas de Kundalini Yoga devem seguir estas diretrizes:

  • Entrar em sintonia com o Adi Mantra: entoar “Ong Namo Guru Dev Namo” três vezes antes de começar os aquecimentos, os kriyas ou a meditação.
  • O Kundalini Yoga é o yoga da consciência. Ouça seu corpo; faça o que der certo para você.
  • Desafie-se a continuar toda vez que achar que chegou ao seu limite. Por exemplo, se você acha que só consegue fazer um minuto de um exercício, tente fazer um minuto e dez segundos.
  • Siga as diretrizes! Mantenha a ordem e o tipo de postura. Não ultrapasse os tempos descritos. Se quiser encurtar um exercício, encurte proporcionalmente todos os outros do mesmo kriya (isto é, reduza todos pela metade ou em quatro).
  • Durante a aula, sinta-se livre para pedir qualquer explicação sobre um exercício ou outros aspectos da prática.
  • Beba água durante os exercícios.
O que é um chakra? Toda a matéria, incluindo o corpo humano, é energia. Nosso corpo é ancorado por sete pontos energéticos chamados chakras, pequenos centros de força que alimentam nossa vitalidade. Quando um desses centros de energia está bloqueado (como o carburador de um veículo com defeito), todo o sistema para de funcionar adequadamente. Um dos propósitos do Kundalini Yoga é limpar os bloqueios dos chakras (podem ser bloqueios emocionais, mentais, espirituais ou físicos) para que a energia flua livremente.7-chakras-beginners 1. Chakra da coroa (no topo da cabeça) 2. Chakra do terceiro olho (entre os olhos) 3. Chakra da garganta (na garganta) 4. Chakra cardíaco (no centro do peito) 5. Chakra do plexo solar (no ponto do umbigo) 6. Chakra sacral (na região dos órgãos sexuais) 7. Chakra raiz (na base da espinha)

“Que o eterno sol te ilumine E todo o amor ao seu redor E a luz pura interior Guie o seu caminho” —Canto de encerramento das aulas