[GSK] O silêncio dos ruídos

Por Gurusangat Kaur Khalsa
(Outubro de 2016)

Na psicologia, foram as pesquisas de Mihaly Csikszentmihalyie que trouxeram para o debate acadêmico o conceito de “fluxo” para explicar felicidade e criatividade. Estar no fluxo é um estado bem próximo do que no Kundalini Yoga denominamos estar em shuniya.

Estar no fluxo segundo a psicologia:
É um estado mental de foco máximo e dedicado a uma tarefa (ação) onde a interação entre o sujeito e sua ação é tal, que o senso de identidade é perdido. Você se encontra em algum lugar e sente uma conexão com algo maior, e perde toda e qualquer referência de tempo e espaço, inclusive perde sua identidade psicológica.

Este estado é o que mais remete à realização e ao sucesso, pois nele a ação humana é plena e impecável, o leva a grande assertividade e felicidade.

Estar em Shuniya:
Um estado que se alcança quando não se busca coisa alguma, especialmente quando não se busca o silêncio ou a paz. A paz, assim como a felicidade, não pode ser buscada, porque elas não existem enquanto entidades em algum lugar lá fora. Essas duas condições residem internamente no ser humano. Portanto, estar em paz ou estar em silencio não prescinde de qualquer outra condição a não ser estar no fluxo.

Qual fluxo? Seria dos pensamentos? Não. Seria, então, das ideias? Não. Simplesmente estar no fluxo de tudo que há e do que é desconhecido. Por isso, me agrada o conceito de estar no fluxo do desconhecido. Quando tudo a sua volta, todos os ruídos e sensações não são capazes de perturbar sua expansão e conexão com o todo, independente de se estar ou não em paz, dizemos que estamos em shuniya – o silêncio dos ruídos.

Em shuniya, a paz e a felicidade existem como água nas boas terras de veredas.

Não sei se você notou o detalhe descrito acima. Ele é fundamental para compreender Shuniya, ou o fluxo – “independente de estar ou não em paz”. Isso é radical! Perdemos tempo valioso buscando a tal paz e silêncio para experimentarmos, como sua consequência, esse vazio criativo. Mas, em realidade, tudo que precisamos fazer é saber como alcançar shuniya independente das tormentas em nós ou a nossa volta. Para mim isso é fundamental, pois me é claro que de nada me vale a minha paz enquanto houver alguém em sofrimento. Como não condicionar minha experiência de plenitude a uma paz e silêncio que raramente são atingidos?

Há apenas uma maneira. A técnica associada ao prazer de fazer algo. No Kundalini Yoga, utilizamos para esse treinamento a meditação com o Naad (sons primais). Na vida, o treinamento se dá quando realizamos algo que temos máximo gosto associado a grande competência.

Estar em Shuniya ou no fluxo é a única forma de liberdade possível.

A liberdade de Shuniya:
Enquanto houver pensamento não haverá liberdade. Essa afirmação pode ser desesperadora para muitas pessoas amantes da liberdade de pensar. Todo tipo de pensamento surge de um condicionante, seja ele intelectual, cultural, ideológico ou mesmo fisiológico. Portanto, para a ciência do Yoga, só existirá liberdade quando não houver qualquer conexão entre a consciência e os pensamentos.

Não é possível parar de pensar, isto é um fato. Pensar é, justamente, um dos grandes atributos da mente. Entretanto, estar além dos pensamentos é um caminho plausível e passível de aprendizado para experimentar um estado livre. Apenas quando formos capazes de existir no fluxo da integração entre o eu e o desconhecido é que poderemos dizer que estamos de fato livres. Este eu não é, obviamente, nossa identidade aculturada ou social. Este eu é, segundo os Ensinamentos do Kundalini Yoga, a identidade real, cósmica. O eu real (real self) é aquela expressão viva e em ação de uma psique, que se tornou atemporal e universal.

Nesta condição, se é livre porque não se pensa em ser algo; não se busca uma identificação. Esta condição oferece a mais genuína oportunidade para o por que nela nos relacionamos com o inominável, um tal campo que nos leva a criar.

O fluxo é sempre criativo. Essa arte tem valor porque ela é inaugural e fresca. Seu frescor é como terra úmida propícia a todo tipo de crescimento e entregue a saciar e refrescar a todos.

Ser livre não é dizer o que pensa. Ser livre é fazer o que jamais foi pensado!

Seguir em meio ao caos e agindo como núcleo criativo da vida é o que fazemos.

[GSK] Se tornar irrelevante em shuniya

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 28 de outubro de 2016

[GSK abre a aula] 

Hoje nós vamos fazer uma aula que leva a gente para um relaxamento de dentro para fora. Não é um relaxamento igual àquele que você busca um terapeuta para te relaxar de fora para dentro. Portanto, é uma aula que induz a um relaxamento que não tem nada a ver com o conceito de relaxamento que vocês conhecem, que é aquele em que você sente que apagou, que está tranquilo, sem estresse, está em paz. É um mecanismo de relaxar a maneira com que a gente processa a intranquilidade e a ausência de paz.

Vocês são professores de Kundalini Yoga, por isso eu sempre me preocupo em conversar com vocês sobre alguns aspectos teóricos para vocês compartilharem com seus alunos, familiares, amigos, com quem vocês acharem que é importante. E cada oportunidade na vida, cada encontro, cada coisa que surge do inesperado na vida da gente é uma oportunidade de a gente refletir. Primeiro de a gente aprender e, segundo, de a gente ensinar. Então não existe nada na minha vida, por exemplo, nenhuma dor e nenhuma alegria que não me ensine e que não me faça sempre tratar isso de modo a pensar que vocês precisam ver e entender isso.

Estou sempre com vocês e aí aconteceu uma coisa inacreditável na minha palestra na Escola de Música da UFMG, na terça-feira. Foi muito divertido, porque foi tão ruim…não… não posso dizer que foi ruim… foi tão… inacreditável, eu acho que a palavra inacreditável ainda é a melhor para vocês verem que a nossa paz e a nossa tranquilidade não têm nada a ver com o meio, ou pelo menos não deveria ter. Na UFMG, eu chamei o Sat Sunder para trabalhar comigo, porque é o tema que ele está trabalhando na formação. Nós fomos para o encontro de estudantes e você pensa que os universitários estão ali querendo trocar. Chegamos lá e, de fato, era um grupo grande de talvez umas 50 pessoas e havia uma alegria em nos receber. Existia uma alegria em nos receber, porque éramos duas pessoas absolutamente inéditas (estão compreendendo?) e um gongo daquele tamanho, de turbante. Eu por exemplo vestida de uma maneira tão causal, que eles não sabiam como a minha roupa combinava com meu turbante, esses clichês de que a roupa não combina com o turbante de mãe de santo ou de sacerdotisa, enfim, eles não conseguiam nos encaixar. Nada encaixava. Quando a gente começou a trabalhar, algumas pessoas maravilhosas na plateia começaram a nos entender. E havia três garotas sentadas no canto o tempo todo conversando e rindo, igual a colégio de freira, onde a gente está mais preocupado em ir para a igreja dar uns beijos do que ir para a aula, uma coisa assim. E vocês sabem que eu tenho uma antena para gente idiota que é uma coisa impressionante, eu pensei, bom daqui a pouco eu vou ter de explicar uma coisa para aquelas dali. Então passa o momento todo até que chega a vez do Sat Sunder, então eu dei o Kirtan Kriya, sa ta na ma, totalmente inofensivo, e depois o Sat Sunder… boin…boin.. boin.., ainda bem que ele foi suave, doin… doin… plein…plein… Quando abriu-se para as perguntas, uma das meninas levanta, e para ela o conceito de liberdade – que é o que eu quero tratar hoje –, escrito nas entranhas e na testa dela é: “eu falo o que eu penso”. E para muitos é isso. Para muitos que lidam com escola sabem que é isso. Tem uma faixa etária a partir da qual, e é a geração que veio logo depois de mim, ou seja, se eu tenho 58 anos, o pessoal que veio dez anos atrás de mim, vem com esse conceito de que falar o que pensa é uma libertação. E a menina então levanta, eu não vou me lembrar como ela falou, mas ela acaba com o Sat Sunder e nos chama de irresponsáveis, porque a gente fez uma intervenção com musicoterapia sem avisar que poderia alterar, alguém poderia passar mal. E ela disse que ela mesma inclusive quase surtou.

Aluno: Ela falou isso?

[GSK]: Falou. E para mim foi a deixa, né? Eu falei com ela: você não teria surtado, porque surto é uma condição psicoterápica bem diferente da histeria. Em condições populares o que você teria tido seria uma coisa chamada chelique. A menina nunca viu um professor… os professores hoje não falam assim, que eles têm medo de o aluno ir lá na avaliação da Capes e dizer que o professor é autoritário e tal. Eu dava tanta risada! Menina, você é uma cheliquenta e o seu conceito de liberdade é falar o que pensa, mas falar o que pensa é um estado particular adquirido, que se chama falta de educação. E daí eu tive a chance de falar a respeito do trabalho do gongo. E depois a turma inteira depois veio me agradecer porque aquela menina era uma chata. Ela tinha acabado com o professor que veio de São Paulo.

Mas vamos voltar ao tema: falar o que pensa não é liberdade. Esse é o tema que acho importante para vocês tratarem em sala de aula. Nós meditamos para que a gente se torne absolutamente irrelevante. É para isso que a gente medita. Então a nossa irrelevância no processo de meditação deveria ser desejada. Ela é proporcionalmente oposta a quando a gente está na vigília com o desejo de ser alguém. Então, na vigília nossa necessidade de ser alguém nos leva a um mecanismo de existir absolutamente infeliz, mesmo na vigília, porque quanto mais a gente quer ser alguém, quando estamos de olhos abertos e fazendo as nossas coisas, mais no espaço meditativo nos identificamos com algumas formas pensantes. E enquanto há pensamento, há prisão. Todo pensamento surge de uma condicionante, se há uma condicionante, há uma condicional, e se há uma condicional, há uma prisão. Então enquanto a gente pensar, a gente está aprisionado ou a gente está aprisionado culturalmente ou a gente está aprisionado fisiologicamente por causa do nosso sistema glandular, que vai transformar aquilo em química, e isso é uma prisão quando repetimos um padrão, quando estamos subjugados ao meio. Quando o meio está favorável, a minha fisiologia está favorável, quando o meio está desfavorável, a minha fisiologia está desfavorável. O condicionamento fisiológico é quando eu não tenho nenhum controle sobre as minhas emoções.

Aluno: Kalil!

[GSK] A falta de expressão de emoção também é um problema. João Leite! Vocês estão comigo? Então a minha prisão pode ter vários condicionantes e dentro deles eu estou sendo estimulado, condicionado a pensar. Então, todas as vezes que eu falo o que eu penso é uma prova cabal de que eu não tenho o menor controle de mim no meio. E isso é tudo que o Kundalini Yoga não quer. No Kundalini Yoga, nós queremos que se o meio está desfavorável, e esse meio é externo, mas o meio poderia ser interno… Por exemplo: num dia em que eu levantei com a macaca, deprimida, desestimulada, quando não estou bem porque tudo à minha volta parece estar despencando, ainda assim existe uma opção para mudar essa condição. E se vocês sabem que isso é uma verdade por que vocês não usam? Se eu tenho uma dor de cabeça, existe remédio para dor de cabeça, por ideologia? Porque eu só uso remédio homeopático ou eu só vou ao terreiro quando eu estou com dor de cabeça? Há uma condição de você escolher se conectar com a sua irrelevância. E na hora que vocês escolherem se conectar com essa irrelevância – e eu espero que com essa aula vocês consigam isso –, vocês mudam essa química.

É uma abordagem inédita, pois nunca falei disso dessa maneira, mas a experiência de shuniya é isso: para você se tornar um com todo, você tem de se perder no todo e a hora que você se perde no todo, você deixa de ser você. O que a gente busca em shuniya é uma irrelevância tão grande que a gente é capaz de se tornar tudo. Você nunca vai conseguir ser nada se você continuar sendo você. Isso que é maravilhoso no Kundalini Yoga porque a gente busca ser a gente numa instância e deixa de ser a gente em outra instância. É esse o paradoxo que o Yogi Bhajan fala: “to be and not to be”. Então, quando é que a gente quer ser irrelevante? Quando estamos buscando uma autenticidade e uma unidade tão grande com Deus, com o desconhecido. Quando é que a gente precisa ser relevante? Quando a gente vai servir. A gente vive nesses dois paradoxos. A maior parte das escolas de meditação não ensinam esse paradoxo, então você fica perdido.

Eu só quero dizer a vocês o seguinte: depois que a menina arrotou e vomitou, o professor que estava presente explicou que no dia anterior eles tinha tido muitos problemas com as palestras de musicoterapia, porque todos eles faziam uma prática e falavam as contraindicações. E por que nós não falamos das contraindicações da nossa prática? E aí foi maravilhoso porque eu pude explicar para ele que o Yogi Bhajan nunca deixou nas nossas mãos uma técnica que tivesse contraindicação, a não ser uma: o cuidado com as pessoas com esquizofrenia, porque elas podem entrar em surto com a respiração. E o professor perguntou como não tinha contraindicação. E tudo que eu tinha dito era que nós usamos os sons primais. E eu respondi que era porque trabalhamos com o Naad, que é uma estrutura, uma técnica de usar o som primal, e esse som te reseta na origem, no início. Nós não somos terapeutas querendo saber se você está ou não doente, onde está ou não o seu problema, porque nós não vamos trabalhar o seu problema onde ele está. Vamos trabalhar na sua raiz, é muito diferente. O que você vai fazer com seu problema é problema seu. Eu olhei para a menina e perguntei se ela tinha escutado. Ela estava conversando, mas disse que tinha ouvido sim. Eu disse que era impossível, impossível para ela repetir. Vocês compreendem a segurança que o Yogi Bhajan dá. Por isso que acho uma dó, quando vocês misturam qualquer coisa de outro sistema de yoga com Kundalini Yoga. Se vocês estão indo para as suas práticas, seus cursos, seus seminários e misturam, estão poluindo uma coisa que te dá segurança, e quando você mistura, não tem mais segurança.

Ele não fez isso só com os Kriyas do Kundalini Yoga, ele fez isso com o gongo. Quando a gente saiu, o Sat Sunder dava saltos de alegria. Eu perguntei se ele estava alegre, e ele disse que estava feliz demais, porque tinha aprendido tanto naquele dia. Porque vocês conhecem a tecnologia para falar para um público que muitas vezes tem perguntas: como é que vou curar isso ou aquilo. Por isso que um professor de yoga não está aqui como terapeuta, ele está aqui como um professor. Ele passa a tecnologia e o aluno vai fazer o que quiser com ela, inclusive nada ou tudo, ou um pouquinho entre nada e tudo, ele pode escolher. Vocês entendem isso?

Nosso objetivo na prática meditativa é nos tornarmos irrelevantes, para a gente entrar em shuniya. Vocês acreditam que estar em shuniya é estar num estado assim, sei lá como é descrito nesses livros fenomenais, românticos, estar fora do espaço da ação. Não! Shuniya é estar no fluxo da ação. Qual tipo de ação onde sou tomado completamente por uma qualificação, me torna aquilo que eu estou querendo fazer. Então se eu sou uma adoradora de garrafa preta e tem uma garrafa preta nas minhas mãos, então limpar a garrafa preta e, se eu sei limpá-la, eu posso entrar num fluxo tão grande, onde eu perco a minha própria identidade quando eu limpo a garrafa preta. E eu me torno alguma coisa além de mim e da garrafa preta. Isso acontece quando você anda de bicicleta. Isso acontece quando eu, por exemplo, estou escrevendo um texto para vocês, motivada. Isso acontece talvez quando você está na cerâmica produzindo alguma coisa, ou quando você está na cozinha, fazendo alguma coisa. É quando nós e o objeto da nossa ação é tão integrado e existe tanto conhecimento que a gente pode relaxar no fluxo da competência e aí a gente se perde e não sabe quem a gente é. A gente se esquece de si. Então shuniya é quando há um esquecimento de si. E então você se torna irrelevante, tampouco o objeto tem qualquer importância. O que tem importância é a ação. Que na psicologia é descrito como fluxo, estar no fluxo.

Kriya for Metabolism and Relaxation do livro Kriya

Hoje vamos fazer uma meditação em duas poses. O Yogi Bhajan fala o seguinte sobre a ela: essa meditação vai te levar a um estado de êxtase e vai criar um escudo protetor a sua volta.

Meditation for Self-Stimulation into Ecstasy do Livro Kriya

Aluna: Quando você fala desse relaxamento interno, ele tem a ver com a sua serenidade diante do caos?

[GSK]: Tem, tem sim. Mas todo e qualquer tipo de conceito a gente precisa desmistificar. Porque então uma pessoa que não é serena diante do caos pode parecer que não se ajustou. Tem a ver com a serenidade diante do caos, tem a ver com o desespero diante do caos também desde que esse desespero não te leve a agir segundo ele. Não sei se vocês estão compreendendo. É a inteira independência da sua ação, independência daquilo que você está sentindo e de como você está processando o mundo. Quando você alcança esse equilíbrio e essa liberdade e isso reflete na sua natureza interna de estar serena diante do caos, é isso aí. Mas não significa inclusive que você não está dando a mínima bola. Porque a história é: na serenidade você ainda estar em ação. Mas se meu produto final, meu vetor final quando eu trabalhei, pus gás para fora, limpei, alimentei, adquiri uma certa independência ou uma liberdade em relação ao meio e inclusive ao meu próprio meio, mas eu reajo não serenamente, se o resultado final de uma pessoa é estar agitada ou indignada, ela não vai ter como, muitas vezes, eliminar aquela sensação. A única coisa que ela não pode fazer é agir com base naquela sensação. Nem a serenidade deveria levar a gente a uma indiferença, nem a ausência da serenidade deveria levar a gente uma ação pouco serena. O que a gente quer é agir de forma precisa, cirúrgica e essa ação não pode estar condicionada pelos meus sentimentos nem pelo meio.

Por isso é que as escolas que existem por aí ensinando criança são problemáticas porque o modelo de ensino não pode ensinar que o engajamento com a vida deveria ser motivado ideologicamente. Então, toda a pedagogia da UFMG ensina isso. O contrário é a pedagogia Waldorf, que ensina um total desapego. Está errado também. Vou ver o mundo serenamente e minha ação vai ser indiferente. Aquilo não vai me tocar. Foi uma alternativa polarizada, mas existe um lugar além disso, que é o que a gente precisa ensinar às crianças. Que é: você precisa sentir o mundo, absorver o mundo, processar o mundo em você com todas as suas emoções e gana. Estar de tal forma relevante, você e o mundo, é muito importante que nesse momento você esteja relevante, e você precisa discernir. E quando você pode discernir, você precisa entrar no fluxo e agir no fluxo da consciência em que você e o todo são um. Você não importa, aí sim você se torna irrelevante. Por isso sua ação tem de ser independente daquilo que você julga. Você não pode ser tão sereno que não queira se engajar, nem tão atordoado que você queira entrar de sola. E está aí um aspecto do Kundalini Yoga que é absolutamente maravilhoso, que é a vida como ela é. Ele quer instrumentar a gente para a gente viver de forma a fazer sentido, onde você combina relevância e irrelevância, identificação e desidentificação, o tempo todo. E não cria um padrão, como este: todo bom yogi tem de ser desapegado e sereno, que é o clichê do bom yogi. A espiritualidade não significa um desapego, e a materialidade não significa um apego. A gente está sempre nesse paradoxo. O contrário poderia parecer um absurdo, uma pessoa que é cheia de raiva, tem o ímpeto, eu estou falando da raiva na sua forma mais neutra, ela se coloca, fica indignada com algumas situações. Quer dizer que essa pessoa nunca vai poder ser um bom yogi? Vai poder sim. O fato das suas características existirem não quer dizer que seu caráter se expressa através das suas características.

Sete passos da felicidade: o nosso caráter não se expressa através das nossas características. Esse é o segundo passo da felicidade. Qual é o primeiro? Compromisso. Mas as características não dizem nada. É isso que lava a alma no Kundalini Yoga, é por isso que vocês fazem parte dessa tradição. E essa tradição não é para qualquer pateta que queira usá-la como um clichê. Não faz sentido. Porque as características não formam o seu caráter. A menos que você queira se expressar através das suas características. E é por isso que a gente sua demais para criar um modelo que ensine isso para as nossas crianças, onde no mundo elas vão ter de modular tensão e relaxamento, não é só relaxamento, nem só tensão, como os jesuítas fizeram. É tensão e relaxamento, e entre tensão e relaxamento você expressa a sua identidade, não necessariamente através das suas características. Nós provavelmente vamos morrer com as nossas características, cada um de nós deve saber qual é a sua característica primal. A minha é a impaciência e a paciência. É um paradoxo, mas é a minha. Quando eu estou no fluxo, eu sou extremamente paciente, quando eu não estou, eu sou extremamente impaciente. Cada um de vocês tem a sua característica e a história é vocês conseguirem expressar o paradoxo dela, que é o paradoxo dela que faz você estar completamente na sua irrelevância. E o outro passa a ser relevante.

E atenção pessoal, você pode confrontar e elevar, mas com muito humor. No final, a menina falou que tinha se sentido muito mal com o gongo. Eu comentei com ela que tudo na nossa vida diante do desconhecido é a nossa pré-disposição. Se você está querendo experimentar, você é capaz de passar pela experiência sentindo mal, para depois ver aonde isso vai te levar. Você poderia ter concluído que isso não te levou a lugar algum, então foi ruim para você do começo ao fim, mas você poderia ter concluído que foi ruim no início, mas depois te levou num lugar bom, como foi para a maioria. Mas você já entrou aqui predisposta a não estar aqui. Eu só não compreendo por que você estava aqui, já que aqui não tinha chamada nem nota nem nada. Então da próxima vez seja original a tal ponto de não estar num lugar onde você não quer estar. Vocês precisam falar o que que é realmente, de modo a fazer sentido. Para isso, vocês precisam captar o negócio, saber o que é negócio, para você devolver o negócio para o negociante. Se essa menina tem o mínimo de impulso para pensar, ela vai refletir. Mas se o negócio dela é estar no mundo se achando que é muito relevante, se ela não se achar irrelevante em momento algum, ela nunca vai entender. Mas se ela só se acha relevante e sem ela nada move, ela é a defensora dos fracos e oprimidos, então ela vai ficar assim, mas se ela por um momento falar que não tem a menor importância , ela vai aprender. Tal negatividade demorou quase doze horas para sair de mim, e olha que eu estava muito atenta a essa negatividade. Então negatividade é um trem que entra e você precisa estar ativo para limpar.

Aluna: Eu estava lá e quanto mais você explicava para ela, mais ela tinha um sentimento de raiva. E ela não sabia por que estava passando mal, e que continuava passando mal e queria saber como ela saía daquele mal.

[GSK]: Ela não perguntou como saía do mal. Se ela tivesse perguntado…

Aluna: Não. Ela só falou que estava mal, continuava mal e não sabia se sairia da dor, do desconforto.

[GSK]: Ela não perguntou como sairia, ela só se declarou mal, que estava no desconforto, típica histeria. Então foi muito bom ter dito para ela que aquilo era um chelique. Mas se ela tivesse me pedido uma técnica para sair do chelique, eu tinha convidado ela para ir para o tronco. Era um evento só para alunos e tinha um cara da Bahia que era de Egum, ele era do terreiro, no final ele disse que tinha gostado demais desse negócio, ainda mais a gente vestido daquele jeito, e falou que a gente deveria ser muito discriminado. Eu respondi que não éramos não, que eu trabalhei muitos anos na UFMG – eu tinha sido apresentada como professora da UFMG e blá…blá…blá… – e já usava turbante, e que os afro-brasileiros adoravam, mandavam axé para mim, e que os brancos tinham inveja porque esse turbante é lindo, né! E aí pronto, foi assim que eu encerrei a conversa, que os brancos acham lindo e os negros acham… lindo! E o Sat Sunder, a cada 30 segundos, falava que estava na hora de ir embora. E eu dizendo se tinha mais perguntas, ele querendo sumir com o gongo.

Aluna: E o interessante é que no sábado o Sat Sunder na praça da Assembleia e foi maravilhoso. Uma repercussão incrível, as pessoas ficaram conversando com ele muito tempo depois. O Sat Sunder tem uma frequência que é de introspecção e devoção, então não é de ficar conversando muito.

[GSK]: Eu recebi notícias e uma foto, realmente foi maravilhoso. A história, gente, é a universidade. A universidade, onde se espera a universalidade, é onde as pessoas são mais aprisionadas, as pessoas são presas. Elas estão cada vez mais presas, por isso que nada ali progride muito rápido, é tudo muito lento. Os processos são muito lentos, é a prisão do intelecto. A gente precisa de um novo modelo de universidade , mas esse modelo aí ainda estará vigente por um bom tempo, porque a gente tem de começar do ensino básico até que esses alunos que estamos formando por aí não admitam mais e queiram algo diferente. E é sempre paradoxal, sempre paradoxal, então é isso aí.

Nós estamos vivendo num mundo onde as pessaos são cheias de verdades, cheias de relevância. No meu grupo familiar, alguém mandou uma foto de Uberlândia dizendo que sempre achou que era uma cidade de gente porreta e pedindo para ver como era a educação em Uberlândia. Na hora que eu cliquei, era a informação que lá tinha o maior número de escolas ocupadas atualmente. Eu respondi que era contra a ocupação de escola e que a gente deveria se manifestar nas ruas e nos políticos que a gente vota. Aí uma pessoa me devolveu com um comentário como se eu não entendesse nada de política, de liberdade e de exercício de cidadania. Então as pessoas estão presas, e não estão prontas para ouvir uma voz que seja diferente daquela que elas não estão querendo ouvir.

Nós estamos num momento muito particular e precisamos passar por ele com uma grande sabedoria. Não existe uma outra forma de entender nossas posições que não sejam aquelas que tentam nos colocar dentro de determinados clichês. Eu particularmente acho que a gente não sabe ainda fazer a política feminina, que é a que a gente vai tratar ano que vem no treinamento Khalsa, a política feminina é a política onde você vai para conversar. Eu quero muito que a gente chegue num ponto em que um grupo de mulheres traga um político aqui. Nós estamos ainda longe disso. Mas não é por isso que vocês têm que cortar relações, a gente está caminhando. A UFMG é ocupada por uma dimensão da ciência que é condicionada ideologicamente. Em 1988, quando eu me coloquei contra a fluoretação das águas de Belo Horizonte, fui considerada uma dissidente, mas nem por isso eu deixei de me colocar contra a fluoretação das águas de Belo Horizonte. Existe uma agressão e um julgamento que a gente vai sofrer, mas nem por isso a gente deixa de ser coerente com aquilo que a gente acredita. Porque quando as pessoas estão muito aprisionadas numa forma de pensar é muito difícil de elas verem além daquela forma. Lá em 1988 a esquerda inteira era a favor de pôr flúor na água e quem fosse contra era considerado de direita, a coisa não mudou muito hoje. Hoje quando a gente fala veganismo na esquerda, isso é uma firula da classe média. Eles ainda não entenderam que é em respeito aos animais. Então nós somos pioneiros no nosso estilo de vida e devemos carregar nosso estilo de vida pioneiramente sem contaminar a nossa perspectiva política e histórica.

Nós queremos sim uma mudança de qualidade neste mundo, a gente quer sim uma forma de existir igual para todos. Enfim a gente quer isso, mas isso não significa que a gente precisa falar exatamente como todo mundo fala. É essa diversidade, mas a gente só consegue experimentar como iogues e professores a dualidade em nós e quebra todo tipo de clichê. E pode ser que a gente morra sem ser compreendido, mas e daí? Por que a compreensão do outro tem de qualificar a minha morte? Mas a gente pode deixar uma experiência e um legado. Eu acho que isso é o importante e que a gente está construindo num projeto de escola como Miri Piri, em que a gente está dedicando um tempo de arte à criança nos anos formativos, e na arte ela vai poder experimentar processar o mundo pelas suas emoções, mas não responder ao mundo através das suas emoções. Isso é que é importante! Wahe Guru!

May the long time sun shine upon you…

[Transcrição: Sada Ram Kaur]

[GSK] Tolerar o intolerável

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 5 de agosto de 2016*.

Vocês lembram o que a gente trabalhou no semestre passado? Tem a ver com nós nos colocarmos com nosso corpo radiante, para que, através dele, a gente tenha uma força de presença que cure. Por isso, a gente explorou vários níveis do nosso corpo. Neste semestre nós vamos trabalhar o que no inglês a gente chama de auto­domain, mas em português não faz muito sentido dizer “autodomínio”. Se eu tivesse que fazer uma tradução, diria que é o espaço que nós criamos em nós a partir de nós onde apenas nesse espaço nós somos livre.

Não existe liberdade que seja concedida, então é uma grande falácia dizer: “God will set you free/ Deus vai te libertar”. Deus não tem nenhum compromisso com a nossa prisão. Ele colocou para a gente algumas condições para que a gente tivesse uma experiência na terra, vocês se lembram? Primeira condição é que seria uma experiência temporária. Segunda que ele nos daria um veículo que nos serviria para que a gente se comunicasse com o infinito – esse veículo é a mente. E terceira, era a garantia de que nós encontraríamos um professor. Só depois que a gente alcança essa experiência é que a gente alcança o nosso domínio.

O nosso domínio no Kundalini Yoga é uma única coisa que tem a ver com a nossa liberdade, com a liberdade que tenho de fazer escolhas em circunstâncias que me obrigariam a ser escolhido. Vocês compreendem esse trocadilho? O tema deste semestre é: as circunstâncias parecem declarar o tipo de comportamento que eu vou ter. Vocês sabem disso. Quando é que as circunstâncias declaram um tipo de comportamento que vocês vão ter? É quando o ego é testado. Todas as vezes que o ego de vocês for provocado, vocês reagem. E toda reação nada mais é que uma ação reflexa de defesa. Essa ação reflexa de defesa não demonstra a sua liberdade. Pelo contrário, demonstra apenas o quanto você está preso. O quanto você é prisioneiro do seu ego, do eu padrão. Este semestre nós vamos trabalhar isso. As circunstâncias parece que me pedem que eu aja de determinada maneira, mas eu vou ser livre par fazer a minha escolha. E para ser livre para fazer escolhas é preciso ter um plexo muito forte e um sistema nervoso muito forte. E o Yogi Bhajan comenta: se você está numa situação em que você foi provocado, conte até 9 segundos antes de reagir. Vocês se lembram da história dos 9 segundos? Quantos de vocês estão presos no domínio do seu ego?

Então vamos abrir a aula?

[GSK abre a aula]

Nós vamos explorar o domínio próprio e trabalhar no corpo os caminhos neuro­hormonais que permitem que a gente estabeleça uma relação livre com nossas reações, ou seja, que o padrão não seja reagir, que a gente não seja escravo do meio. E ao que mais explica isso de um modo mundano é o humor, quando a gente vive com humor. O humor é um reflexo dessa liberdade, especialmente quando a gente cai na miséria. E a gente ser capaz de, por exemplo, se a gente tivesse que fazer uma propaganda do O.B., a propaganda nossa seria uma coisa rosa, lilás e escrito assim: “metido!” Risos… Então é assim, é essa liberdade que a gente tem que ter.

Kryia: Sahib Kriya, do manual I am Woman.

A gente tem um curso de Nível II acontecendo nas próximas semanas, que vai ser ótimo. O tema vai ser “Mente e Meditação” e vamos explorar esse tema neste semestre. Tenho uma supernovidade para compartilhar com vocês, uma ótima novidade, é que este anos na nossa bienal, que acontece em novembro, nós vamos ter pela primeira vez o Peace Prayer Day. E a gente está fazendo o convite para as lideranças religiosas do islã, do judaísmo. Então tem um rabino, um sheik, uma capitã do congado, alguém do candomblé, alguém do espiritismo, tem alguém do Zen­budismo e a gente deixou para uma próxima vezos católicos e o budismo tibetano, porque não tinha como por no palco todo mundo. A gente está convidando o vice­presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, o deputado Durval Ângelo, para falar. E o Peace Prayer Day vai ser como uma apresentação cultural, então vai ter uma roda de congado. Vamos deixar os povos indígenas também para uma próxima vez porque não temos condição de pôr todo mundo no palco. E uma série de outras tradições também para uma próxima vez. Esse dia vai ser a abertura do festival, no sábado, às 17 horas e é livre, todo mundo da cidade pode participar. Este ano a gente está trabalhando por isso, então novembro promete. A gente estará com a Sardani Guru Amrit na nossa bienal, vai ser muito bom. E o tema da bienal, assim como foi o tema do solstício, é sobre o coração, é sobre a compaixão. Os tempos estão tão cáusticos, tão difíceis que se nós não entendermos com a inteligência que vem do coração, nós vamos simplesmente fazer reformas e não transformar, e a gente está precisando de transformar. A gente está precisando do novo. E lembrem-­se! Muitas vezes, para a gente alcançar a transformação, a gente precisa tolerar o intolerável. E às vezes tolerar o intolerável é intolerável. E a gente quer fazer algumas adaptações, a gente que permanecer com algo que já é conhecido, mas isso seriam as reformas e a gente está precisando é de transformar. E transformar muitas vezes significa tolerar o intolerável. Na vida da gente é assim, em todos os lugares é assim. Existe um apelo de não ficarmos no intolerável porque é duro demais. Mas na hora em que vocês não tiverem mais tolerando vocês, vocês mudam. Enquanto vocês estiverem fazendo reforminhas, vocês não vão transformar.

A história que compartilho com vocês é que eu passei a não me tolerar nos meus 27 anos. E tem uma coisa que tenho que dizer para vocês, que talvez não tenha a ver com nada, talvez  tenha a ver apenas com os jovens que estão voltando para Miri Piri Índia, mas vocês vão escutar. E eu vou falar para vocês, embora eles sejam o canal. O seu dinheiro não vale de nada. O seu dinheiro só vale alguma coisa se ele for destinado a servir o outro. Não pense que se você comprou alguma coisa você tem qualquer direito sobre o que você comprou. O seu dinheiro não vale de nada. Na casa do Guru Ram Das, existe uma prosperidade infinita desde que esse dinheiro e essa prosperidade não sirvam apenas até onde sua mão estende. Patriarca babaca.

Se sua mão estende até seus netos e você quer servir apenas até seus netos, você não está inserido na casa próspera do Guru Ram Das. O nosso dinheiro precisa circular e as pessoas precisam prosperar igualmente. Nós não podemos nos igualar por baixo, nós precisamos nos igualar por cima. Se vocês estiverem ensinando seus filhos que, porque eles pagam, eles são donos, esquece!! Quanto mais dinheiro a gente tem, mais dever a gente tem. De servir, de compartilhar.

Vocês precisam compreender isso dentro de vocês, porque no momento em que vocês pararem de pedir e começarem a dar, por menos que vocês têm, vocês vão entrar no fluxo da casa do Guru Ram Das. E na casa do Guru Ram Das não falta nada, não falta dinheiro. Compreendam isso dentro de vocês. Nós temos essas crianças para educar. Nós temos essas crianças nossas que já estão lá, mas há tantas outras crianças que agora estamos adotando na Escola Miri Piri, mas não é porque você adota uma criança na Escola Miri Piri que você não vai ter dinheiro para pagar em outro luga. Vocês têm de perder o medo de não ter, porque na casa do Guru Ram Das não falta nada. Mas me preocupa o cinismo de muitos, e esses jovens que gastam vinte por cento do tempo de um professor com indisciplina, arrogância. Vocês jovens precisam aprender a obedecer para saber comandar. Existe uma força de comando disponível em vocês, mas vocês precisam aprender a render as suas cabeças. A arrogância de vocês vai deixar vocês na arrogância.

O dinheiro de vocês não vale nada enquanto ele servir só a vocês. Escutem bem, vocês não compram nada com o seu dinheiro. E a sua arrogância não vai te levar a lugar algum. Então, nós só prosperamos juntos com tudo que nós já fizemos porque nós somos extremamente generosos. E nós temos de ensinar aos nossos filhos a serem generosos e compartilharem o mínimo que eles têm. Esse é o legado para esses jovens que estão indo para Miri Piri Índia. Eles estão indo lembrando que têm uma Sangat em que todo mundo lutou por eles. Eles têm uma Sangat que é generosa. Eles têm uma Sangat que provou que o brasileiro é capaz de se comprometer com um projeto e realizá-­lo. Vocês são representantes dessa Sangat, não sejam arrogantes, não sejam indisciplinados, não sejam tolos.

Porque a tolice, arrogância e a indisciplina de vocês não nos representam. E nós aqui precisamos manter o mesmo fluxo de não sermos arrogantes, de não sermos covardes e não sermos egoistas porque nós estamos ensinando aos nossos filhos. Eu não tenho a menos ideia de por que é que isso veio, mas deve ter uma razão. Saiam daqui com esse espírito, de vocês servirem, de vocês serem humildes. E vocês, por favor, fiquem aqui projetando a ausência de medo e destemor. Essa é a inteligência do coração. Vocês serão sempre testados nesse lugar. Lembram quando eu estava demais precisando de um emprego para comer? E um cara falou, “primeiro você dá para mim, depois eu te dou o emprego”. Eu tinha 21 anos e eu não dei pra ele e continuei com fome. Existe um momento que a gente tem de colocar em prática os nossos valores. Foi a melhor coisa que eu fiz na vida, porque eu ganhei de presente o meu futuro.

Nós estamos no Brasil vivendo um momento em que essas pequenas corrupções precisam ser encaradas de frente. Nós somos muito corruptos, muito corruptos. A nossa corrupção não é declarada, como é na Índia. A nossa corrupção não é verbalizada, ela é muito sutil. Então, esse é o momento de a gente transformar a psique desse país. Vamos transformar através de nós mesmos. E é por isso que a gente tem essa escola, e ela está fazendo a diferença nesse sentido. Satjeet, você vê corrupção na Japji? Siri Sahib, você vê corrupção no Dharamraj? Tem jogos! Está na psique! E a gente tem de ter um contínuo trabalho de limpar. Não pense que vocês que estão em Miri Piri não são corruptos! A nossa infância é corrupta. E quem corrompe somos nós, os adultos. Então, gente, é um trabalho de limpeza de baixo para cima.

Vamos fazer isso juntos. Esse é um ano em que vamos estabelecer a conexão com o coração. Tomara que isso alcance o país. E o que eu quero para o país, e sei que é o que vocês querem, é uma transformação. E para transformar a gente precisa viver o intolerável. Lembra que o Yogi Bhajan falou isso lá em Berlim! Ainda bem que nós não somos alemães, ele colocaram num forno de um campo de concentração os judeus, os ciganos. Pensa bem, seria muito mais pesado. Nós não fizemos isso. E aí o Yogi Bhajan conversando com os judeus lá em Belirm, falou: “Por que vocês estão chorando até hoje? Desde as treze tribos de Israel, vocês queriam um Estado de Israel, vocês precisaram engolir um Hitler para o Estado de Israel existir”. Às vezes, a gente tem de tolerar o intolerável par a gente conseguir o que a gente quer. Quando a gente está no intolerável é duro permanecer nele, mas não tem outro jeito. E os judeus ficaram pálidos com a fala do Yogi Bhajan, e os alemães choraram.

Sat Nam!

May the long time sun…

—–

[Transcrição: Sada Ram Kaur]

* No mês de julho houve recesso nas aulas da Gurusangat Kaur Khalsa

A Corte Sagrada

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

 

Os Gurus Sikhs e seus alunos esposaram e ensinaram a liberdade e a igualdade, não apenas para os homens mas principalmente para as mulheres. Em uma região do mundo onde os homens tinham e ainda desfrutam de privilégios imensos: educação, melhor comida, controle político, o Dharma do Guru Nanak ameaçou de fato suas vidas fáceis e cheias de regalias. Os Sikhs definitivamente foram os que chacoalharam os alicerces cultural da era moderna.

Como Aurangseb, que pensou poder destruir o hinduísmo na Índia convertendo todos os respeitados Cashmeres pandits, os jihadistas, fossem eles Mongóis, Persas ou Afeganos, também pensaram que ao destruir ou contaminar o Darbar Sahib – ou Golden Temple –, eles quebrariam a coluna dorsal dos Sikhs e os derrotariam, para ter sob controle a força livre deste Dharma.

Ao longo dos anos o Golden Temple sofreu muitos ataques, e teve seu Sarovar (lago cristalino de águas frescas) preenchido e contaminado com as carcaças de animais e seres humanos abatidos. Mas, como os lendários templos da China e do Japão, que foram demolidos e reconstruídos para garantir sua continuidade, o Golden Temple também se reergueu.

O Golden Temple tem uma arquitetura única e bela. Ele erguer-se das águas diáfanas de seu Sarovar, e suas paredes superiores, decoradas com placas de ouro, recebem ao alto o Dome – a abóboda em forma de Flor de Lótus – que reflete os raios do Sol e os espalha para o Infinito. O Sarovar é cercado pelo Parikarma, uma ampla e bela promanade em mármore decorada com pedras preciosas, por onde todos que ali chegam caminham em sentido horário. Circular ao redor do Sarovar em estado contemplativo antes de atravessar a ponte para o Templo é tido como uma forma de profunda limpeza e renovação. O Shabd Guru entoado de dentro do Templo ecoa através dos autofalantes pela promanade, e as águas límpidas ampliam sua frequência, fazendo com que as pessoas recebam os benefícios do Naad, o som primordial.

Guru Arjan planejou o Golden Temple com o recurso de uma arquitetura sagrada. Não apenas a flor de lótus ao topo, onde subentende-se ser o décimo portal, mas todos os chakras estão precisamente estruturados da base do templo até sua parte superior, onde os minaretes embelezam e garantem o fluxo da energia da Terra em direção ao céu. O templo foi desenhado para servir a todos, independente de limites religiosos, de classe, casta ou gênero, e por isso ele fez questão de ter quatro portais de entrada garantindo acesso a todos, de onde quer que venham.

Na época de sua construção, um famoso santo Sufi muçulmano chamado Hazrat Mian Mir foi convidado pelo Guru para assentar a pedra fundamental e dar início às obras, afiançando desde modo, desde seu nascimento, o compromisso à causa da paz, da diversidade e da irmandade entre todos.

O Golden Temple tem sido desde então o santuário vivo que ensina a todos superar as diferenças em paz e projetar e reconhecer o divino em tudo e todos.

Wahe Guru.

 

Belo Horizonte, 1º de Agosto de 2014.

O cubano de Orlando

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Mais tarde, naquele dia de junho de 1983, eu pegaria um voo para São Paulo e, com duas amigas da faculdade, partiríamos direto para uma aventura inacreditável.

A OMS havia escolhido Cuba para sediar a Conferência Internacional de Saúde para Todos no ano 2000, como parte de sua agenda global desde 1991. Eu havia obtido por concurso minha vaga de docente na UFMG em 1982 e, portanto, gozava o direito de minhas primeiras férias. Eu era uma garota de 23 anos, curiosa e aberta e decidi embarcar naquela viagem, que me reservava acontecimentos de tirar o fôlego.

Eu não me lembro como fiz minha inscrição para este evento, uma vez que o Brasil não mantinha relações diplomáticas com Cuba. Justamente isto foi o que mais deu caráter à minha viagem. Nós teríamos que ter um plano para entrar em Cuba e ele tinha que ser sigiloso e secreto!

O plano foi traçado de forma divertida e sem maiores preocupações. Parecia perfeito, se não fosse o fato de eu ter dormido demais e minha amiga gastado mais do que devia seu espanhol. Você vai logo entender…

O plano: sair do Rio para Miami. Passar alguns dias na Disney (imaginem que desafio, afinal, éramos contra os EUA!) como ditosas turistas latino-americanas na Flórida. De lá, pegar um voo para o México e ficar hospedadas em um caro e requintado hotel no centro histórico da Cidade do México. Finalmente, de lá, fretar um voo para Havana. Soava como um filme de espionagem e o sentimento era esse também, só que milhares de vezes mais simples…!

Chegamos em Miami como planejado. Sem falar uma palavra de inglês, saímos do aeroporto e pegamos um ônibus até Orlando. Eu estava exausta, não por conta do voo, claro, mas por tudo que passara naquelas últimas semanas para poder estar ali. Logo que entrei no ônibus, me recolhi num assento confortável e dormi. E minhas amigas? Bem, uma delas fechou os olhos e sonhou com Cuba, imagino, sonhou acordada, evidentemente. Ela era militante do PC do B e aproveitava o Congresso da Organização Mundial da Saúde para conhecer o partido do Fidel, o Jornal “Granma” e fazer contatos. A outra, uma bonachona garota, parte punk parte hippie, queria apenas conhecer a Cuba do Fidel, já que ele era um herói para nós todos da época. Justamente ela falava um excelente espanhol e resolveu praticá-lo logo na primeira oportunidade.

Ao seu lado no ônibus viajava um cubano que vivia em Orlando, olha que sorte para treinar seu espanhol! Ah, não deu outra, com um sorriso largo, sua boca se abriu e não fechou enquanto ela não contou a esta pessoa todo nosso plano! Doce inocência. Na primeira parada do ônibus, o cara ligou para a polícia e passou todo o nosso sigiloso roteiro dizendo que éramos comunistas brasileiras… Isso foi o tempero que faltava, garanto a vocês. Quando o  ônibus parou em Orlando, da janela vi dois policias em pé a espera que a porta se abrisse. Não achei nada suspeito. Ao descermos, eles nos abordaram e pediram nosso passaporte; tomaram algumas notas e nos entregaram sem maiores problemas. Até aí só pensei que era uma rotina de checagem, afinal no Brasil isso era muito comum naqueles dias. Mas, não era nada rotineiro e ali mesmo tudo foi passado diretamente para a Polícia Militar do Brasil. Brasileiras comunistas indo para Cuba!

Por ignorar tudo que estava acontecendo, nossa viagem transcorreu como planejada, e preciso dizer que aproveitamos cada minuto em todos os lugares que fomos. Adoramos a Flórida e o México foi maravilhoso.

Cuba foi uma experiência que eu jamais esquecerei. Um misto de admiração e decepção. As pessoas eram tristes e belas. A vida era dura para a maioria delas e parecia que a promessa de paraíso ainda não havia se tornado uma realidade.

Ao final do Congresso da OMS, Fidel convidou a todos participantes para um jantar no Palácio de la Revolucion. Nós ficamos em êxtase, imagine encontrar o próprio Fidel ao vivo! Era demais. Ao chegarmos junto com ministros de Estados Europeus e muitas outras autoridades da saúde, fomos levados para um salão belo, amplo e iluminado. As portas se abriam para jardins cheios de palmeiras e, de uma porta ainda fechada, diziam, em breve chegaria o Comandante. Todos eram mais velhos, com exceção de nós três brasileiras. As autoridades foram se alinhando e nos deixando ficar ao fundo, do outro lado de uma longa e farta mesa. Não adiantava reclamar, nós nem ousaríamos. Ficamos ali esperando ver a figura carismática do Fidel de longe. Mas a sorte estava do nosso lado naquela noite.

Ele entrou,  deu uma olhada radial, virou-se para a linha de senhores e senhoras que o esperavam com certa agitação, depois deu uma olhada para nós três do outro lado da mesa, e mudou seu rumo, caminhando em nossa direção em vez de cumprimentar as autoridades. Foi indescritível. A gente se olhou rapidamente e uma das meninas apertou tanto minha mão que achei que teria quebrado meu mindinho! Ele parou bem na nossa frente, com um sorriso matreiro e, interessado, olhou nosso crachá e viu escrito “Brasil”. Ele então nos abraçou e perguntou quem éramos. Foi uma conversa rápida e eterna. Ao final, quebrou o protocolo e nos deu um abraço nas três ao mesmo tempo e seguiu adiante. Nós ficamos com vontade de gritar, mas nos comportamos.

Nossa volta foi exatamente como planejada, via Panamá até o Rio, onde eu desceria e as outras duas seguiriam no mesmo voo para São Paulo, onde pegariam outro voo para Uberlândia.

Eu saí normalmente da aeronave e caminhava para o controle de entrada de brasileiros quando vi sete homens fortes e sisudos – um colete os identificava – polícia, vindo em linha reta em minha direção. Eles nem me deixaram chegar próximo do guichê, já me pegaram pelo braço e me levaram para uma sala escondida no Galeão. Lá dentro algumas pessoas haviam sido detidas, uma delas a mulher do Brizola, todos vindos de Cuba. Eu não entendia por que estava ali. Aquilo era uma prisão? Era sim, alguém me disse. Você será interrogada e, depois, sabe Deus o que vai acontecer a nós todos.

E foi assim mesmo. Primeiro, eu entrei numa sala onde homens brutos e violentos pegaram tudo que me pertencia, abriram minha mala, velaram todos meus filmes, rasgaram meus registros de viagem, puseram fogo no meu diário e no convite de jantar de Fidel, que aliás eles riram e debocharam antes de queimar. Depois, puxaram uma ficha de um arquivo e disseram algo assim “você é uma dessas meninas da classe média que perdem seu tempo e gastam o dinheiro do pai viajando para visitar comunistas filhos da puta… Ah, foi arruaceira na universidade, e é neta de comunista.  ‘Cê ‘tá lascada, menina. Agora você vai aprender a não manchar a honra deste pais com vagabundices e imundices comunistas. Você vai se arrepender de ter feito o que fez”.

Eu só pensava na minha amiga do PC do B. Ela desceria em São Paulo e seria certamente pega com material do partido comunista de Cuba. Eles iam acabar com ela. Meu peito doeu só de pensar no que aconteceria a ela. Naquele momento, eu estava atordoada demais para pensar como eles tinham descoberto tudo. Foi só mais tarde, já por trás das grades que tive tempo de esfriar a cabeça e encontrar a resposta – havia sido o cubano de Orlando!

Depois de alguns dias, eles me liberaram sem que tivessem me agredido muito. Eu estava tranquila e determinada a existir na minha realidade e integridade. Na prisão, você é provocada para ceder e negar a si própria, mas eu saí de lá completa.

Eu tive que suportar por mais dois anos, até a eleição indireta que elegeu Tancredo Neves em 1985, grampos no meu telefone, espionagem em minhas aulas na UFMG, perseguição nas ruas, de carro: uma vigilância 24 horas a uma garota que ousou visitar o Congresso da Organização Mundial de Saúde em Cuba.

Agora me relembro que na sala com os militares, um deles me olhou e seu olhar revelava, ao seu modo, uma ponta de compaixão. Acho que ele foi sincero ao dizer “filha, muda de vida. Vai viver como uma menina normal. Não seja rebelde, não se exponha. Vá se casar e ter filhos e esqueça essa coisa de democracia. Escreve aqui de próprio punho uma carta ao Comandante do Exercito e peça desculpas e diga que sua viagem foi um engano. Eu te ajudo a sair daqui sã e salva e tudo vai ficar bem”.

Eu chorei naquele momento. Mas eu não estava com medo de nada.

Eu não sabia por que, mas eu não tinha a menor vontade de me render.

Eu não sabia por que, mas eu não tinha a menor vontade de me negar.

Eu não sabia como, mas dentro de mim encontrei uma calma além da dor e do medo.

Eu não sabia de nada, mas de dentro de mim veio uma luminosidade e eu resolvi segui-la.

Essa é a luz da Alma. Eu só aprendi isso mais tarde quando me tornei professora de Kundalini Yoga. Mais tarde, quando me tornei uma Khalsa, uma Guerreira da Paz, eu entendi que meu destino naquele momento já me conduzia à minha soberania e liberdade. Seguindo minha alma, eu segui meu destino que me levou a viver uma vida entregue a servir a todos e não descansar enquanto não houvesse justiça para todos. Neste Dharma, eu me qualifiquei para tolerar e ser compassiva, mas lutar com todo fervor por quem não tem força para se erguer. Lutar para que no reino da Terra se erga, em nome do amor, a igualdade entre todos.

É, foi o cubano de Orlando que me entregou, mas eu devo a ele também tudo. Porque se eu não tivesse sido testada naquele momento, eu não saberia a fibra que já me pertencia por direito, com a qual meu destino havia sido escrito.

Wahe Guru, Sat Nam!

Belo Horizonte, 25 de junho de 2013.

Manifesto pela liberdade e direitos humanos

Sat Nam!
Apoiados pela OAB, fomos instruídos a criar uma Petição Pública Brasil com nosso manifesto
pela tolerância religiosa nas universidades.
Nosso manifesto já foi assinado pelo Leonardo Boff e Dom Pedro Casaldáliga, e o apoio destes dois líderes será muito importante para que a UFMG compreenda a importância de  colocar em prática a teoria dos direitos humanos e da liberdade em todos os sentidos. O que estamos pedindo é uma mudança no edital do vestibular para que pessoas de todas as etnias e culturas possam se submeter às provas sem constrangimentos e humilhações.
Se você puder nos apoiar, nosso manifesto terá ainda mais peso.
Com amor e reverência.
Guru Sangat Kaur

Carta aberta ao reitor da UFMG

Belo Horizonte, 14 de janeiro de 2013.

Ao Magnifico Reitor da UFMG

Professor Clélio Campolina,

Meu nome é Lisette Lobato Mendonça, professora aposentada desta Casa, e em nome da relevância desta Instituição e de seu papel na formação de um cidadão livre, autônomo e soberano, e como membro dela, dirijo-me à sua instância máxima na esperança de encontrar ressonância.

Necessito esclarecer que tentei discutir o assunto que desejo lhe expor aqui, em instâncias anteriores, na esperança de encontrar a solução para um problema grave pois fere o direito universal de liberdade religiosa.

Trata-se do caso de um jovem Sikh que, ao comparecer na UFMG para fazer a prova do vestibular, foi impedido que usar seu turbante. Eu fui procurada pelo jovem pois também sou Sikh. Os Sikhs são um Dharma similar ao Budista; e os Sikhs cobrem a cabeça com um turbante, sendo que isto caracteriza e faz parte de sua identidade cultural e religiosa.

Este rapaz, antes do inicio da prova, foi conduzido para uma sala em separado e um segurança e mais quatro pessoas lhe deram uma ordem nestes termos “você tem escolha: ou faz a prova sem seu turbante ou sai agora”. O rapaz se sentiu constrangido e amedrontado, retirou seu turbante na frente destas pessoas e foi fazer sua prova humildemente.

Hoje, ao saber deste lamentável incidente, procurei a Professora Vera, da COPEVE e a Elizabeth, de seu gabinete, na esperança de ver a situação contornada de modo a poupar o rapaz de novo constrangimento e coação na prova de amanhã. Mas, a Professora Vera não abriu um espaço de diálogo e apenas confirmou que o que foi feito foi correto, pois consta no regulamento, e que a UFMG está fazendo a “coisa certa”. Fui ao regulamento e lá encontrei que alunos não poderão fazer prova de boné ou similares. Mas, me surpreende imaginar que a professora Vera trate um turbante, ou um Yamulke, ou qualquer outro paramento de fé que prescreva cobrir a cabeça, como um boné. Perguntei a Professora Vera se ela pediria para que uma freira retirasse a cobertura de sua cabeça para fazer a prova, e sua resposta foi “lógico”.

Isto não me parece lógico, nem tampouco aceitável numa intuição universal. Com todo respeito, apelo à sua sabedoria e à sua condição de guardião desta Instituição, e me amparo em suas próprias palavras que, em seu discurso de posse, expressam uma verdade incontestável:

“As Universidades só realizam o melhor que se espera delas quando são instituições autônomas, quando seus membros são livres para as escolhas individuais de natureza ideológica, partidária, religiosa ou de qualquer crença ou opção pessoal. A Universidade deve ser o espaço da convivência livre e plural. Ela é parte fundamental da consciência crítica de um povo e de uma nação”

Amanhã este candidato ao vestibular mais uma vez poderá ser submetido ao constrangimento da ignorância e da arrogância de quem não é capaz de contemporizar e fazer melhor uso de um juízo universal para interpretar uma circunstância, que obviamente não pode ser amparada ipsis litteris no regimento, por não ser um caso comum.

Termos a nossa universidade aberta a todas as culturas e etnias, ter um Campus habitado por africanos e seus turbantes e roupas coloridas, pelos árabes, por judeus e cristãos, por sikhs e hindus é garantir o direito expresso mais uma vez pelo Magnífico Reitor da UFMG:

“Como o próprio nome indica, a Universidade é universal (…) Há, efetivamente, a necessidade de uma ação afirmativa de todos quanto à proteção da diversidade, seja ela cultural, étnica ou de qualquer outra natureza. Para tanto, uma delicada operação tem que ser realizada cotidianamente: A universidade precisa integrar-se para conviver com a diversidade”

Este incidente é um caso clássico de discriminação religiosa e contraria os ideias políticos e éticos universais da UFMG e de qualquer outra instituição democrática.

Por isso, venho lhe pedir que intervenha e me ajude a educar nosso meio acadêmico e repare o erro cometido a este rapaz.

Com meu respeito e atenção.

Lisette Lobato
(Guru Sangat Kaur Khalsa)