Carta aberta: Manifestações, educação e respeito à diferença

“Ih, fudeu, Bin Laden não morreu”

por SIRI SAHIB SINGH KHALSA, 25 de Junho de 2013

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Ao participar da bela manifestação que reuniu mais de 120.000 pessoas nas ruas de Belo Horizonte no último sábado, várias vezes ouvi alguém gritando “Ei Bin Laden!”. Em certo momento, ao passar por um grupo, todos cantaram de maneira eufórica: “Ih, fudeu, Bin Laden não morreu”

Sou sikh, minhas barbas são longas e uso turbante.

Um sikh dá a sua vida se sacrificando pelos outros. Ser um sikh significa ter como pressuposto a humildade para estar sempre aprendendo e ter como valores a luta por paz, justiça social e o bem estar de todos. Um sikh vive para servir e faz isso.

O turbante e a barba são algumas das ferramentas que um sikh tem para se manter firme em seu propósito e poder ser reconhecido onde ele estiver como uma instância de paz, amor, ajuda e serviço.

Um sikh não luta por si, mas pelo direito de os outros existirem na sua liberdade, autonomia e soberania. Como um amigo, também sikh, escreveu em seu cartaz na manifestação: “a minha vitória é a vitória de todos”.

Tudo muito diferente de um terrorista.

Esse tipo de atitude parece ser fruto de décadas de abandono da nossa educação, que não educa para a diversidade, que não educa para a diferença, que não ensina o respeito, que não ensina a riqueza que existe na pluralidade, e que não instrui o acesso à informação para que as pessoas saibam quem é quem e por que são dessa forma.

Uma educação que não ensina valores básicos de altruísmo e respeito.

Enquanto sociedade, ainda nos comportamos como os militares da ditadura que atiram antes de perguntar. Ao invés de procurar entender e conversar, como muitos fazem, alguns preferem o escárnio e a diversão barata.

Ao se comportar dessa forma, quem está querendo ser parte da solução se revela também parte do problema.

O que escrevo de longe é uma defesa do meu estilo de vida. Um sikh se treina para manter sua mente em paz diante das adversidades e servir nas condições mais desafiadoras. Quando sou difamado nas ruas penso sempre em todos aqueles que por algum motivo resolveram ser diferentes e não são respeitados por isso.

Que possamos seguir juntos por uma sociedade em paz, justa, que respeite as diferenças e proteja aqueles que não tem condições de se defenderem.

As ruas ocupadas

por SS Guru Sangat Kaur Khalsa

Ocupamos mais uma vez as ruas do país. Uma sensação maravilhosa e, depois de muito tempo, um orgulho de ser brasileira.

As demonstrações destes últimos dias podem parecer semelhante ao que aconteceu em 1984, vocês se lembram? Praça da Sé, São Paulo, multidão se manifestando pela democracia. Naquele ano, a liderança do movimento estava nas mãos de um grupo de peso: Franco Montoro, Fernando Henrique, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Teotônio Vilela, Suplicy, Brizola, Lula, Miguel Arraes, artistas, jogadores de futebol e religiosos. Parecia que tínhamos nosso destino nas mãos, depois de décadas de tempo perdido nas masmorras fétidas dos militares e torturadores. Em 21 de agosto de 1992, apoiados pelo PT e pela Ordem dos Advogados do Brasil, 40 mil estudantes cariocas vão às ruas, e, no dia 25, já era o Brasil inteiro em marcha, eramos os “cara pintadas” exigindo o impeachment do Presidente Collor.

Vinte e um anos depois, as ruas do Brasil se enchem novamente de jovens. Eles protestam contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo e são violentados pela força descabida de uma polícia que ainda guarda valores e táticas do período militar. A arrogância das lideranças políticas – como a do prefeito de São Paulo ao afirmar à imprensa que “o aumento da tarifa vai acontecer de qualquer maneira” – gerou uma reação em cadeia, e a população do país se levantou e se juntou aos jovens.

Muitas coisas aconteceram nestes 21 anos e a natureza das manifestações de 2013 é completamente diferente de todas as que ficaram no nosso passado histórico.

O movimento de agora não quer apoio de partidos políticos ou não quer bandeiras. Sem sindicato, sem gente famosa em palanques. Não. Quem está nas ruas são realmente aqueles que fazem o Brasil cotidianamente. São as pessoas anônimas, aquelas que acordam e vão para o trabalho ou para a escola, fazem suas compras, pagam seus impostos sem receber nada de direito em troca, andam amontoadas e espremidas em trens, metros e ônibus pagando sempre o que se pede, muito além do que recebem pelo seu transporte. Ruas esburacadas percorridas em carrinhos chinfrins e caros, cidades imundas, feias com seus depósitos a céu aberto, ambientes descuidados. São pessoas tomadas por assaltos, ladrões, marginais. Elas estão nas filas do SUS esperando um atendimento em postos de saúde sem médicos, enfermeiras, medicamentos ou aparelhos. Elas agradecem quando são atendidas nos corredores, como se aquilo fosse uma benção, já que significa um consolo diante da eminência de perder o que ainda lhes resta: a vida. Velhos e pobres caminhando atrás de suas aposentadorias, parcas quantias, e, mesmo assim, muitas vezes são roubados por outros miseráveis que perderam a humanidade e o senso comum. São pessoas que estudam em escolas precárias, com professores recebendo salários de boia-fria. São essas pessoas que vão para casa quando podem e ligam a TV para assistir, nos noticiários, todos os dias, o mesmo enredo: políticos interesseiros e corruptos, partidos oportunistas, governo condescendente, injustiça, crime e vandalismo.

O aumento da tarifa do ônibus em São Paulo foi o pus que jorrou para fora, sob a pressão interna de uma infecção extrema. O país está doente. A política e os políticos não representam ninguém porque passaram estas últimas décadas preocupados em criar leis e esquemas que os servissem, espoliando os recursos do país e da população. Estes políticos, uma verdadeira barbárie, ignorantes, arrogantes, mentirosos e sem caráter, conduzindo o metabolismo legislativo sem nenhuma consideração ou ética.

Agora não dá mais! Este movimento é diferente. Ele é genuíno em todos os sentidos. Eu lamento que intelectuais fiquem dizendo por aí que falta ao movimento uma liderança e uma pauta. Não, por favor, não falta liderança ao movimento. A liderança é nova, a pauta é tudo. São novos tempos e os políticos não se credenciaram para se juntar a todos. Não se trata de pessoas, de identidades, de idolatria. É uma nova consciência que se reúne além de ideologias, além de classe social e, sobretudo, além de interesses particulares. Esta consciência diz alto: “CHEGA!” Chega de manobras. Essa consciência quer para o país o que lhe é de direito. Um pais é feito de indivíduos, destes indivíduos, e eles querem o que lhes é negado, injustamente.

As roupas velhas não veste bem este novo movimento. Ele nasceu original e nu. Ele está pronto para criar suas próprias vestimentas na medida em que elas se fazem necessárias.

A beleza deste momento é que ele carrega o potencial de curar o Brasil.

Todos nós queremos um país sério, próspero, justo e razoável. Queremos pagar impostos e receber a contrapartida. Queremos transporte digno, podemos pagar por isso! Queremos saúde e educação. Queremos justiça nas cidades e no campo. Queremos investimentos sérios de infraestrutura e não só estádios de futebol.

Se o Brasil pôde alcançar essa excelência no futebol que tanto nos orgulha, por que não podemos nos orgulhar de termos alcançado uma cidadania da excelência?

Vamos às ruas como guerreiros da paz. Uma paz que nos é tão preciosa, pela qual possamos morrer. Somos aqueles que carregam, nos passos, na voz, na mente, uma causa justa e ela tem todos os nomes que todos quisermos dar. Mas ela poderia se resumir simplesmente numa única palavra: RESPEITO!

 

Belo Horizonte, 19 de junho de 2013.

 

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