The perfect lady

por SS Gurusangat Kaur Khalsa

Hoje eu encontrei “The perfect lady”!

Ela estava vestida de modo simples, mas muito elegante. Nada que qualquer uma de nós não pudesse realmente estar usando, mas, nela tudo parecia diferente.

Suas calças brancas eram de puro linho, as quais se moviam com pequenas  ondulações peroladas quando ela caminhava. Ela usava um blusa que lhe cobria os quadris, de uma tecelagem requintada, com uma estamparia suave em tons de verde e pérola, com sutis pontuações acobreadas.

Nela tudo parecia perfeito. Usava também um colar rente ao pescoço que contrastava em subtons com seu turbante. Sim, ela usava turbante!

Seu turbante era de um verde azulado como as águas das Maldivas e, por isso, concluí que seu colar era de água marinha. Eram bolas grandes que se integravam, sem exagero, ao belo turbante que portava.

Finalmente, meus olhos desceram discretamente aos seus pés e vi que usava um esmalte vermelho escarlate em dedos finos e delicados. Suas sandálias eram despojadas e finas.

Estávamos numa livraria e nos encontramos lado a lado na fila do caixa.

Talvez por sentir que eu a observava, ela se virou e me olhou nos olhos e, sem me invadir, abriu um sorriso sincero que me pegou de surpresa. Era como se ela tivesse dito mil palavras que cobrem o outro de esperança, tudo isso em um único sorriso.

Ela não era pretensiosa, ou afetada, muito menos metida. Ao contrário, ela era elegante, exibia uma altivez que lhe dava estatura e presença. Mas, devo dizer que, o que mais me chamou naquela mulher que encontrei hoje a tarde na livraria do shopping foi me sentir reconhecida e ver que entre ela e eu não existia distância.

Naquele pequeno hiato entre uma coisa e outra, houve uma troca silenciosa de nossas sensibilidade e humanidade.

Aquela mulher perfeita, de turbante cor das Maldivas, comprando dois livros sobre “a vida das famílias dos animais”, apareceu para me mostrar a força da presença da beleza de uma mulher que desfruta da regalia de viver perfeitamente em si mesma.

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 3 de setembro de 2013.

Sexualidade e espiritualidade

por Guru Sangat Kaur Khalsa

“Espiritualidade não é apenas a porta para o templo;

mas é o aprender a viver dentro do templo” I Coríntios, 3:16-17

Yogi Bhajan define espiritualidade de uma forma simples e, ao mesmo tempo, inconvencional. De alguma maneira, sua mensagem contém a luz de uma verdade radical. Na minha experiência como professora, sua abordagem faz toda a diferença no compartilhar de seus Ensinamentos, uma vez que as pessoas são atraídas por aquilo que é natural e de fácil compreensão, o que não significa, de modo algum, algo fácil de se incorporar. Para isso, o importante é a educação que vem com a experiência.

O que seria de fato espiritualidade segundo seus Ensinamentos? Nada mais nada menos do que uma jornada inacreditável pelo território do nosso ser habitual, também chamado de ser oculto, em direção ao nosso ser real. Essa ideia se traduz de modo simples na seguinte fórmula: “eu em mim, para mim, dentro de mim, por mim”.

Para sermos capazes de conhecermos e experimentarmos nossa mais verdadeira e profunda identidade, uma jornada de aventuras precisa ser empreendida. Sair de um lugar convencionalmente reconhecido rumo ao cerne de nossa identidade verdadeira requer coragem e vontade. Esse lugar, essencialmente original, fica muito além de qualquer tipo de determinações, sejam elas biológicas, pessoais ou culturais, como gênero, por exemplo.

Nascemos em corpos femininos e masculinos. Quanto a isso, não há dúvida. E continuaremos a depender desta qualificação biológica, que regionaliza nossos territórios, porquanto perdurar o poder de nossos sexos em nos definir. Entretanto, com o tempo, tudo isso se desloca e nossa identidade sexual dá lugar a uma identidade muito mais universal em sua natureza.

Esse deslocamento acontece com o envelhecimento, no qual as diferenças entre homens e mulheres tendem a desvanecer, ou acontece quando buscamos conscientemente o território vasto de nossa identidade espiritual, a alma.

Não há nenhuma surpresa no fato de que a busca pelo amadurecimento espiritual requer a rendição da mente e do corpo ao domínio da alma, que, intrinsecamente, está além de determinações de gênero, já que é parte da Consciência Infinita. Em outras palavras, o preço pela viagem para dentro de si — feita por você, em seu território e tendo você como companhia — é a abertura para uma visão de si e do mundo muito vasta e despida de preconceitos.

Quando alcançamos nosso Ser Real, não mais precisamos reafirmar nossa identidade apenas com base em nossos gêneros. No espaço sagrado de nossa Verdadeira Identidade, não somos apenas nossa biologia, nem o que nossa mente nos fez crer que sejamos por sentir, desejar ou acreditar nas particularidades. Nós aceitamos tais particularidades e as entregamos no coração de nosso Ser Real, que, por ser parte da Grande Inteligência que governa cada uma das finitudes, as toma como parte integral de um todo, que agora se expressa pela vontade da nossa consciência.

Como Yogi Bhajan comumente dizia, você estará na sua Verdadeira Identidade quando não mais precisar das referências e cada vez se voltar para as reverências. Aqui, sua psique não mais precisa da orientação biológica, social e cultural. Ao contrário, você se torna um com a Jot (Luz Divina) e sua projeção vibra independentemente.

Neste ponto, você se encontra além, muito além das determinações sexuais e dos rótulos das condições finitas. O sexo ou sua sexualidade, ou mesmo sua educação, não mais definirão, de modo exclusivo, sua identidade.

Se Sat Nam (Realidade Verdadeira) torna-se um com Wahe Guru (caminho para luz) e se, desta unificação, Saibhang (iluminação) é adquirido, em termos práticos, gênero, cultura, sexualidade são apenas meios técnicos através dos quais damos a largada para tal jornada. No momento em que nos aproximamos do território da alma, cada vez mais eles se tornam secundários em nossas vidas. Caminhar para além das nossas habituações ou dos enquadramentos culturais é um bom começo para restaurar nosso direito de existir na Graça de Deus e na nossa Identidade Divina.

Ver o mundo através dos “olhos do Guru” nos força a aceitar homens e mulheres como puro sopro de Deus e, consequentemente, além de julgamentos morais. Gênero vai se desbotando na medida que nos afastamos da linha de largada e deixa de ser também uma vantagem ou desvantagem na nossa Maratona Divina na Terra.

Portanto, é correto dizer que gênero não é o visto de permanência nas terras de nossa espiritualidade. Ele é apenas o recurso preliminar necessário em direção daquele portal que nos permite entrar no reino soberano e livre de nossa consciência.

Nunca se ouviu de nenhum santo ou sábio que o gênero é o resultado de um plano divino para a encarnação humana, ou mesmo uma simples condição para a mesma. Gênero é apenas uma das muitas artes de Deus, moldada pela biologia e condicionada pelas emoções, que ajudam indivíduos a se moverem no mundo naqueles estágios inaugurais.

Nas terras de nossa espiritualidade, como dizia Yogi Bhajan, o individuo auto-iniciado pode ser conduzido pelas mãos do Guru (professor espiritual) apenas até à entrada; neste átrio somos nós que decidimos abrir ou não a porta. O teste da nossa espiritualidade requer que conquistemos aquele minúsculo hiato entre nosso ser habitual e nosso ser real, pois justo ali reside a liberdade de girar a maçaneta e entrar.

Sendo espiritualidade o resultado de uma jornada radical, em partir de sua periferia e aterrissar no seu núcleo Divino, homens e mulheres precisam superar o supérfluo e abraçar o campo de tensão disponível na união entre o Ser Real e o habitual. Neste encontro, vergonhas, inseguranças, culpas serão aceitas e realinhadas para que elas fomentem o espirito amoroso e compassivo da jornada.

A jornada deve ser sempre lembrada de uma maneira simples e pungente: Sua vida não é você. Você é sua vida!

Sat Nam Wahe Guru!

Belo Horizonte, 14 de agosto de 2013.